Cidades
Mans�es disputam espa�o na periferia
| MAIKEL MARQUES Repórter Arapiraca - Cidade-pólo da região Agreste e com economia em pleno desenvolvimento, Arapiraca é a que mais cresce no interior de Alagoas, mantendo uma peculiaridade: a maioria de seus 70 mil núcleos habitacionais é de casas solidificadas de forma horizontal. ?Somos uma cidade de pouquíssimos prédios?, observa Caroline Albuquerque, secretária municipal de Desenvolvimento Urbano. A expansão urbana na ?terra de Manoel André [fundador da cidade]? é reduzida no centro comercial e ?acentuada? ao redor de bairros periféricos onde ?a terra custa pouco? e as mansões disputam espaço com casebres geralmente construídos sem planejamento arquitetônico. Embora cresça de forma acelerada, a cidade também enfrenta problemas estruturais na periferia. O crescimento horizontal da chamada capital do Agreste ao longo das últimas décadas produziu bairros organizados e outros completamente desestruturados. São inúmeros os loteamentos clandestinos. Alguns deles foram criados por políticos sem levar em consideração questões legais, arquitetônicas ou urbanísticas. Até 2000, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Arapiraca contabilizava 186 mil 486 habitantes. Cinco anos depois, a população beira a casa dos 200 mil habitantes. Mais de 80% desse contingente vive na zona urbana do município. A correria aos bairros periféricos tem como principal atrativo o preço da terra, ainda considerado ?muito atraente? para os padrões interioranos. A Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seduma) concedeu alvará de construção para três loteamentos de grande porte, destinados a consumidores de poder aquisitivo bem diferenciado. Dois destes loteamentos ficam à margem da rodovia AL-220 - que liga Arapiraca ao Sertão. O mais ?antigo? - e considerado de luxo - é o primeiro condomínio fechado da cidade. Os mais de 200 lotes foram comercializados acima de R$ 30 mil cada um. Outro loteamento próximo, mas sem muro de proteção, tem lote ao preço médio de R$ 3 mil e é destinado aos mais modestos. ?Quem migra do centro e investe em terreno na periferia geralmente busca moradia com maior espaço, além de melhor qualidade de vida?, observa a secretária Caroline Albuquerque, para quem o crescimento da cidade ?é acelerado? e ganha impulso diante da perspectiva de crescimento industrial, educacional e comercial. Polêmica Moradores de vilarejos na zona rural da cidade também brigam pela infra-estrutura à disposição de quem vive na zona urbana. De olho no potencial dessas comunidades, a vereadora Valquíria Brandão César (PSDB) propôs a transformação de vilarejos em bairros da região urbana. O assunto gerou polêmica e dividiu opiniões em recente debate na Câmara de Arapiraca. Para a vereadora, o número de residências e a atual estrutura permitem aos vilarejos serem transformados em bairros. ?Haveria benefícios como ampliação do sistema de transporte e coleta de lixo?, argumentou Valquíria Brandão. O vereador Júlio Houly (PMN) reagiu ao projeto. ?Essas comunidades rurais perderiam direito às verbas da agricultura familiar, por exemplo?, justificou. O projeto foi retirado da pauta e deve ser rediscutido depois da reformulação. ### Município luta contra bolsões de miséria Arapiraca - A Arapiraca que cresce e recebe novos moradores também enfrenta a precária infra-estrutura em favelas onde cidadãos de baixa renda construíram residências de forma clandestina e sem quaisquer padrões urbanísticos. Para evitar novos favelões, a prefeitura promove, em 20 comunidades, discussões deliberativas para a construção de um plano diretor municipal com projeto para o crescimento da cidade pelos próximos 10 anos. Arapiraca é uma das 43 cidades de Alagoas com população acima dos 20 mil habitantes em que o Plano Diretor Municipal precisa estar aprovado até outubro de 2006 para que não sofra interrupção no envio de verbas destinadas ao seu desenvolvimento urbanístico. Comunidades da zona urbana e rural estão envolvidas desde junho em oficinas para discutir o planejamento da cidade. Ao todo serão 40 oficinas e três audiências públicas. ?Queremos envolver a comunidade no planejamento da cidade obedecendo a vocação industrial, comercial ou residencial de cada bairro?, observa a arquiteta Simone Romão, que aponta nichos de ?valorização comercial e também residencial? à beira da rodovia AL-220. Aos poucos, o poder público também tenta reestrutura as favelas que crescem com a chegada de migrantes da região sertaneja, por exemplo. Uma das ações neste sentido é a demolição da favela do Caboge - no centro da cidade - e conseqüente transferência de seus moradores para conjunto habitacional orçado em R$ 10 milhões - recursos federais - e que está em fase de conclusão na periferia. Cada família receberá um núcleo habitacional com terreno para futura expansão dentro dos padrões urbanísticos. ?O conjunto [Jardim das Paineiras] também faz parte do processo de inclusão social?, diz Caroline Albuquerque. A área da favela do Caboge será utilizada para conclusão do complexo de lazer ao redor do Parque Ceci Cunha, projeto com finalidade específica: acabar com o déficit de lazer e cultura no centro de Arapiraca. MM ### Prédios conquistam adeptos e mudam o visual da cidade Antenado à chegada de migrantes de outras regiões do País, o poder público também incentiva - dentro de seu plano diretor - investimentos no crescimento vertical da capital do Agreste. ?A cidade tem poucos prédios. Precisamos mudar a cultura da moradia horizontal e aos poucos incentivar o crescimento vertical da cidade?, afirma Caroline Albuquerque, secretária de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente. A legião de residentes em pequenos apartamentos ou quitinetes geralmente é composta por ?estrangeiros? oriundos de Maceió ou de outras capitais. Embora a cidade disponha de quatro prédios com dezenas de apartamentos na região central, a Prefeitura classifica um empreendimento no bairro Jardim Tropical como sendo o primeiro prédio com projeto arquitetônico e com apartamentos dentro dos moldes residenciais, para abrigar uma família com conforto e espaço semelhantes a uma pequena residência térrea. O autor da obra é o arquiteto Geraldo Palmeira. Ele atuava essencialmente na comercialização de loteamentos para construção de casas, mas agora aposta na tendência de crescimento vertical da cidade. ?Quem me chamava de maluco já mudou de idéia quando viu o prédio em pé e constatou o conforto para moradia familiar?, comenta o arquiteto arapiraquense. Ele considera Arapiraca ?muito atrasada? quando se discute crescimento vertical. ?O perfil de cidade plana sofrerá mudanças nos próximos anos. Isso porque é crescente a demanda pela moradia em apartamento?, analisa o arquiteto. ?O valor da terra - ainda atrativo - reduz custos e facilita a edificação de apartamentos com o espaço dentro dos padrões interioranos de conforto?, completa. O investimento no crescimento vertical - ainda exceção no interior - também facilitaria a vida do poder público porque o investimento em infra-estrutura urbana é menor e ainda beneficia maior número de habitantes. Proprietários de prédios com todos os quitinetes alugados - e que já se beneficiam da estrutura do centro comercial - faturam alto por duas razões bem simples: escolhem inquilinos solteiros e sem filhos e que, geralmente, só estão em casa no período noturno. ?O inquilino solteiro passa o dia fora e só chega à noite. Gasta pouca água e pouca energia?, diz o proprietário de prédio no centro. |MM ### Loteamento para todo gosto e bolso Arapiraca - A corrida aos loteamentos na periferia de Arapiraca faz crescer oportunidades de emprego para corretores de imóveis profissionalizados e alimenta um sonho de todo brasileiro: conquistar a casa própria e fugir das prestações de financiamento com juros extorsivos praticados pelos bancos oficiais. Atualmente estão à venda em Arapiraca terrenos em loteamentos de baixo, médio e alto nível. A publicitária Josete Nascimento optou primeiro pela compra do terreno ao preço de R$ 5.500 três anos atrás. Investiu mais de R$ 5 mil na construção do muro e agora planeja a construção da casa. Planeja investimento inicial de R$ 30 mil - vindos da venda de carro e poupança - para fugir do aluguel em menos de um ano. ?É melhor construir com paciência e dentro das possibilidades que ficar preso à política de juros da Caixa Econômica, por exemplo?, analisa a publicitária. Financiamento A Gazeta apurou junto à supervisão de habitação da Caixa Econômica Federal em Arapiraca que 1.812 pessoas firmaram com o banco contrato para financiamento de imóveis na cidade. A agência da Caixa Econômica em Arapiraca registra índice de inadimplência de 9% ao mês. ?O índice está dentro da média estadual?, observa Maria de Lourdes Barbosa, supervisora regional de Habitação. Os devedores justificam seus débitos geralmente na política de juros praticada pela instituição, que cobra 8% ao ano para cada financiamento de quem tem renda bruta de até R$ 3 mil. ?Fiz o pior negócio de minha vida quando decidi comprar imóvel com financiamento de banco público. Depois de alguns anos, já não conseguia honrar as prestações. Para não perder o imóvel, decidi mover ação contra o banco?, diz um radialista, que pediu para não ser identificado. O anonimato também é exigência e desejo de mutuários com prestações em atraso e na iminência de perderem o imóvel. ?Há clientes com prestações em atraso que arrancam o número das residências na tentativa de não receber cartas de cobrança?, revela Maria de Lourdes. ?Eles só complicam a situação?. MM