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Uni�o perde tradi��o do barro artesanal

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| IVAN NUNES Repórter União dos Palmares - Banhada pelo Rio Mundaú, a Vila Muquém, no município União dos Palmares, que já foi um tradicional ponto de artesanato de barro, hoje se destaca pela pesca artesanal e a agricultura familiar, que acabaram ocupando a lacuna deixada pelo artesanato feito a partir do barro. Hoje é mais comum encontrar áreas extensas destinadas a roças de milho, feijão, laranja, macaxeira e outras culturas. Moradora da região, Maria Edleuza Nunes da Silva, 26 anos, fala da dificuldade de continuar vivendo do artesanato. ?No momento, as dificuldades são enormes para se viver exclusivamente do que é feito do barro aqui no Muquém. A única alternativa é cuidar das plantações?, lamenta a agricultora. Chácaras, grandes cercados, vastas plantações de cana-de-açúcar e sítios fazem parte do cenário na Vila Muquém. Falta divulgação Para a consultora de Turismo da Reserva Ecológica Osvaldo Timóteo em São José da Laje, Rosângela Barros, falta maior divulgação do trabalho produzido por moradores do local. ?Não há uma oficina no Muquém que possibilite aos artesãos desenvolverem um trabalho coletivo. Aquela área destinada ao artesanato no barro, totalmente primitiva, é única no Brasil. É necessário pintar as casas da Vila Muquém com as cores afro, mostrando, na prática, a origem Quilombola?, diz Rosangela, que já atuou como secretária municipal de Turismo de União dos Palmares. Ela lamenta também não existir um espaço cultural definitivo para que os artesãos do Muquém possam comercializar seus produtos no município e, com isso, gerar emprego e renda. Maçapê O barro maçapê extraído pelos artesãos do Muquém para o trabalho é conseguido na própria região. Não precisa ser comprado. Facilidade ressaltada pelos moradores. ?Não existe perigo da falta do produto nos próximos 50 anos?, declarou José Edson Bezerra da Silva. As panelas de barro, potes e outros objetos que são feitos pelos artesãos da vila são vendidos na feira livre de União dos Palmares. ?O nosso trabalho não polui a natureza. Vivemos do artesanato e isso seguirá de geração em geração. A minha já é a quarta geração de artesãos palmarinos?, acrescentou José Edson. O artesão já participou de exposições em vários estados do Brasil. ?Nos 10 anos de aniversário de Cáritas, fomos homenageados. Meu produto também já foi para Brasília?, comemora José Edson. Vendas em baixa Responsável pela feira livre do município, Ironaldo de Souza conta que apenas dois ou três artesãos vendem seus produtos nos sábados de feira. ?Percebemos a pouca venda do artesanato do Muquém?, lamenta. Geneide Nunes da Silva, esposa de José Edson, o Edinho, como é mais conhecido, tem se queixado da pouca procura pelo artesanato local. ?Está devagar viver do barro por aqui. Tenho pedido ao Edinho todos os dias para mudarmos de ramo, mas ele continua acreditando que a situação pode mudar?, confessa. Na estrada A estrada de terra que separa Muquém da rodovia estadual Mário Gomes de Barros, ligando União dos Palmares ao município de Santana do Mundaú, é de pouco mais de um quilômetro. A comunidade da vila é formada por mais de cem famílias, em sua maioria negras. Menos de 20% delas sobrevivem do artesanato do barro. A comunidade de Muquém tenta dar a volta por cima e ressalta que a arte local já é conhecida no Brasil, principalmente as peças de barro que encantam turistas que visitam aquela região. Moradores de diferentes profissões residem na Vila Muquém. São funcionários públicos municipais, cortador de cana-de-açúcar, pequenos agricultores e três ou quatro artesãos. Se depender deles, a tradição do artesanato não será erradicada. José Edson Bezerra da Silva, 40 anos, é um negro falante, estatura mediana, sotaque paulista e que trabalha com barro há pouco mais de um ano. ?Voltei de São Paulo para União dos Palmares porque recebi um aviso que a tradição do nosso povo e o seu artesanato encantador estavam se acabando. Querem dizimar nossa cultura que veio do barro e isso não pode acontecer. Eu não vou deixar enquanto estiver vivo?, comenta ele. O interesse pelo artesanato, originado na comunidade negra de Muquém começa a despertar a atenção de artesãos de outros estados. Pesquisadores Segundo José Edson, um grupo de artesãos do Rio de Janeiro passou duas semanas em União dos Palmares pesquisando a arte do barro e sua queima final antes de ser colocada à venda. Ele conta à Gazeta que esse intercâmbio foi importante para os artesãos locais que usam fornos para assarem o barro já modelado no objeto escolhido, deixando o produto final com uma cor avermelhada. ?Depois desse encontro nós já não gastamos os poucos recursos na compra de tinta preta para pintar nossas peças e deixá-la no ponto final já para ser vendida?, ressaltou José Edson. Ele conta que ao invés do forno, cava-se um buraco no chão relativo às peças a serem queimadas. ?Evita-se colocar plástico ou papelão. Usa-se galhos de mato, folhas de mato ou lenha e muito pó de serra. Com uma a duas horas depois a peça desejada fica pretinha, pretinha, não tem mistério?, revelou o artesão. Ele conta, ainda, que espera que as autoridades locais reconheçam o artesanato do Muquém como alternativa segura para o sustento de famílias. ?Não tenho nada contra quem promove o turismo da cidade. Sou até grato quando os turistas vêm para a nossa região, mas observo que eles não são trazidos pelos guias de turismo da prefeitura?, lamenta. Mais apoio José Edson lembra do trabalho de dona Irinéia, uma artesã premiada em Brasília. ?O nosso trabalho atrai o Brasil. Recentemente uma TV de renome fez um programa com a história do Muquém. Precisamos de apoio e de condições que assegurem a nossa mão-de-obra, que é reconhecida por sua qualidade onde expõe?, enfatiza Edson Bezerra. ### Irinéia leva o barro de União pelo mundo A artesã palmarina Irinéia Rosa Nunes da Silva, 58, foi indicada entre as dez finalistas no prêmio do Fundo das Nações Unidas para Educação e Cultura (Unesco) de Artesanato para a América Latina e o Caribe. Ela é descendente de negros do povoado Muquém. A comunidade fica em um dos mais importantes sítios arqueológicos da cultura negra do Brasil, o Quilombo dos Palmares. A arte de moldar e transformar o barro em esculturas e peças utilitárias foi absorvida por dona Irinéia através de seus antepassados. Quando disputou ano passado o prêmio em Salvador, Irinéia Nunes se tornou na principal referência desse tipo de trabalho nos últimos anos em União dos Palmares. A procura por parte dos turistas dos trabalhos feitos em barro na localidade do Muquém tem sido em função da efetiva participação do Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Artesanato do Sebrae, que recentemente convidou a artesã para exibir seus trabalhos em Salvador. Lamento Irinéia Rosa Nunes da Silva tem sido a única representante de Alagoas em eventos dessa natureza. Irinéia Nunes lamentou não ter conquistado o prêmio da Unesco que disputou em Salvador com o tema Criações do Cotidiano, onde foram premiadas obras feitas com o barro, cerâmica e pedra. ORGULHO Com esse resultado, ela não participará da exposição internacional, mas que poderão lhe dar o direito de exibir suas peças na feira internacional Maison & Objetos, que vai ser realizada em setembro deste ano em Paris, França. ?Me orgulho de ter participado de tudo isso representando minha cidade e meu trabalho, mas é necessário um maior apoio aos artesãos de nossa terra. Estou feliz por saber que logo teremos um galpão para desenvolvermos nossas atividades, não vejo a hora para isso acontecer?, enfatiza a artesã que faz do barro a sobrevivência de uma cultura e identidade do povo quilombola e líder da comunidade de Muquém. |IN

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