Cidades
Caf� reunia classe intelectual alagoana
| FÁTIMA ALMEIDa Repórter Um ponto na história. O Café Ponto Central, no coração da antiga Maceió, mantém-se, até hoje, como um marco na memória de intelectuais alagoanos. Mesmo aqueles que não viveram o auge do mais expressivo ponto de encontro da convivência urbana, lembram com saudade de uma época em que a informação se propagava de boca a boca; em que o encontro e o bate-papo eram fundamentais para se manter informado sobre os acontecimentos políticos que fervilhavam o País e o mundo; sobre os movimentos culturais e as mais atualizadas resenhas literárias. De olho no antigo relógio oficial, que ficava em frente ao Café, muita gente deixava o tempo passar, numa época em que as horas pareciam mais lentas. Era ali o ponto de encontro, seja para sussurrar sobre a intentona comunista; para se inteirar sobre as notícias da guerra ou da Revolução de 30; ou simplemente para comentar sobre a vida alheia. ?Era uma época de muitos acontecimentos. Sem rádio e sem televisão, as notícias chegavam no boca a boca, e tudo passava, necessariamente, pelo Ponto Central?, destaca o historiador Douglas Apratto Tenório. Era também uma época de grande movimento literário em Alagoas. Graciliano Ramos, o Mestre Graça, que na década de 20 se instalou em Maceió e passou a colaborar com o antigo Jornal de Alagoas, tornou-se freqüentador assíduo do antigo Bar do Cupertino, que deu origem ao Café Central. ?As discussões sobre literatura e política estendiam-se até a noite, regadas a café e cigarros. Graciliano, porém, não desprezava a cachaça ou o conhaque. Das conversas resultariam projetos comuns, como a Liga contra o Empréstimo de Livro e a primeira exposição de Santa Rosa?, relata Dênis Moraes, em seu livro O Velho Graça, uma biografia de Graciliano Ramos publicada pela editora José Olympio. Envolvidos nesses projetos, estariam também outros freqüentadores do Ponto Central, como José Lins do Rego e Rachel de Queiroz (que viveram em Maceió na época de Graciliano), Jorge de Lima, Carlos Paurílio, o pintor Santa Rosa, Aloísio Branco e Valdemar Cavalcante. Se tivesse uma ?calçada da fama? ou um livro de freqüência, o Ponto Central teriam registradas outras visitas ilustres como Jorge Amado, Mário de Andrade, Clarice Lispector e Aurélio Buarque de Holanda. ### Do auge à decadência, ponto também teve caso rumoroso A presença de tantos intelectuais tornou o Ponto Central cada vez mais famoso. ?Virou cartão- postal, como o Cristo Redentor, do Rio de Janeiro?, compara Douglas Apratto. Não era à toa que o Ponto Central atraía tanta gente. Por lá passava a história, as colunas revolucionárias da década de 30, o corso dos carnavais de rua de Maceió e o bonde. Ao seu redor, Maceió crescia, fazendo surgir as melhores lojas, as livrarias. Para lá se dirigiam os jovens, após as sessões do Cinema de Arte (depois Cinema São Luiz) e os funcionários públicos das repartições que se concentravam no centro da cidade, na folga para o cafezinho ou no final do expediente. Por lá passavam os contadores de anedotas e a galeria de boateiros, que chegou a ser proibida em determinada época, como lembra Douglas Apratto. ?Houve um período em que os boateiros passaram a ser punidos com a raspagem da cabeça?, diz ele. Ali se realizavam os comícios, e se concentravam os escritores, jornalistas e políticos, amantes da boemia. ?Até os governadores saíam pela rua do Comércio até o Café Central. Deposto pela Revolução, Álvaro Paes passou por lá para cumprimentar os amigos, antes de embarcar?, relata Douglas Apratto. Era lá que chegavam primeiro as notícias dos assassinatos de grande repercussão, no Estado ou fora dele, e as últimas informações sobre o governo central. ?Ainda era criança, mas lembro de pelo menos duas mortes ocorridas no Ponto Central. Um assassinato por encomenda, daqueles que você chama pelo nome e atira, no balcão do Café, e a morte de um bancário, provavelmente por choque térmico. Depois de tomar seu café quentinho, ele entrou no banco refrigerado e caiu. Morreu na hora. Foram casos rumorosos na época?, relata o crítico de cinema Elinaldo Barros. |FAL ### Efervescência cultural marcou época O café sofreu mudanças ao longo do tempo, foi perdendo o seu charme, o seu brilho. O relógio também mudou várias vezes, até dar espaço à modernidade urbana. Em 1979, já desativado, o prédio do Café do Cupertino; do famoso Café Central, tombou sob a ação do tempo e da insensibilidade comum. Em seu lugar surgiu um novo prédio, totalmente desfigurado de sua forma original. Os novos proprietários do ponto comercial cobriram com cerâmica com qualquer vestígio da arquitetura antiga. Hoje, no local, funciona uma ótica, e do antigo Café Central, resta apenas uma foto antiga, na parede do escritório. Réplica saudosista Douglas Apratto não viveu a efervescência do ponto, mas é um apaixonado pela sua história. Tanto que recriou um espaço literário, numa livraria que abriu há alguns anos, na Ponta Verde, junto com a sócia Leda Almeida, em homenagem ao antigo Ponto Central. Um enorme painel retrata o prédio do antigo Café Central, e uma réplica do relógio oficial destaca-se na frente da foto, como numa visão em terceira dimensão. ?As pessoas se emocionam quando chegam aqui. O dr. Ib [Gatto Falcão, que viveu o apogeu do Café Central da rua do Comércio], ficou parado, olhando demoradamente, com expressão de saudade, quando viu?, diz Apratto. O empreendimento não sobreviveu, foi vendido e mudou de ramo, mas o espaço foi mantido. No local onde era a livraria, hoje funciona um restaurante noturno, mas continua atraindo os amantes da boa conversa, em torno do café central e do velho relógio oficial. Douglas Apratto tem consciência, no entanto, que ninguém, jamais, vai conseguir recriar o ambiente do Ponto Central, em sua essência, não só pelas mudanças da época, como pela expansão urbana, o surgimento de outros bairros, a segmentação da intelectualidade, e até mesmo pela globalização. ?Nesse pedaço centralíssimo de Maceió, a cidade concentrou, por dezenas de anos, o melhor de sua vivência urbana. Era impossível vir a Maceió e não conhecer o Ponto Central. Mas ele cumpriu seu ciclo. Mesmo que o espaço fosse reativado, dificilmente teria o mesmo charme, porque não era apenas um ponto, era a expressão de uma época. Nunca, nenhum outro ponto de Maceió teve o mesmo brilho, a duração e o significado do Ponto Central?, conclui Douglas Apratto. |FAL