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Divers�o garante vida longa aos idosos

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| CARLA SERQUEIRA Repórter Para muitos, a terceira idade é sinônimo de remédios, pijama e tricô. Para outros tantos, especialmente para os que mantiveram jovem o espírito, o envelhecimento significa voltar a ser criança e aproveitar o tempo que a aposentadoria proporciona para cair na ?farra?. Por causa da violência e das poucas opções, alguns vão buscar diversão longe de Maceió. Arrumam as malas e ?dão o fora?, seja em motos ou excursões de ônibus. Outros encontram aqui mesmo a distração, em bingos, rodas de jogos nas praças da cidade ou mesmo em caminhadas no calçadão da orla de Maceió. Para o geriatra Marcel Lamenha Medeiros, o que importa é não ficar parado, entregue à ociosidade. Manter o bom humor, segundo ele, ajuda na liberação de hormônios benéficos, retardando o envelhecimento. ?As doenças que apareceriam aos 90 anos, naqueles que levam uma vida sedentária surgem aos 60?, afirma. A Gazeta entrevistou algumas senhoras e senhores da ?melhor idade? e tomou aula. Histórias como a do ?seu? Lima, 87 anos, que até hoje pula o carnaval; de dona Edir, 63, que ri à-toa com as amigas, brincando com a sorte num bingo da cidade; dos motociclistas Dgerson, 62, e Carlos, 56, que se sentem pássaros quando pegam a estrada; das companheiras Maria José, 71, e Janice, 63, que viajam há seis anos Brasil afora; e do forrozeiro Manoel Moura, 66, fazem crer que a vida não tem limites e a idade não impõe barreiras quando se quer mesmo a diversão. Cada um, a seu modo, afasta o sedentarismo. Nenhum deles toma remédio controlado. ?A família é de fundamental importância. Se há o incentivo para que se distraiam, a tendência é diminuir o consumo de drogas por parte dos idosos, eliminando os efeitos colaterais?, explica o médico geriatra Marcel Lamenha. ?Em alguns casos, o idoso deixa de fazer exercícios físicos porque não tem quem o leve à academia?, revela. Segundo ele, em poucos anos a população de idosos vai aumentar consideravelmente no Brasil. ?No Nordeste, o idoso é mais respeitado. Já no Sul, onde as famílias têm poder aquisitivo maior, os velhinhos são internados em abrigos, entregues à solidão e à depressão?. Diante do futuro próximo, o médico adverte: ?Um dia estaremos velhos e se o respeito aos idosos não for uma conquista da sociedade, em breve o convívio social será muito ruim?. ### No passo do frevo e forró, com fôlego para a vida inteira Lúcido, Benedito Teixeira de Lima, 87 anos, continua amante da música e se mostra, nos carnavais e serestas, um formidável pé de valsa. ?Eu diria que ele puxa o cordão de dançarinos?, disse o subtenente Tavares, um dos organizadores do programa Vem Ver a Banda Tocar, que reúne cerca de 600 pessoas nas manhãs de domingo, em um dos trechos da Ponta Verde, para ouvir clássicas canções de outrora ao som da banda da Polícia Militar. ?80% do nosso público é formado por idosos e, em todas as edições, a animação é impressionante?. Seu Lima, como é mais conhecido, revela, um tanto tímido, como se apaixonou pela dança. ?Tinha 14 anos quando um amigo me convidou para um baile?, conta um dos tradicionais moradores da Pajuçara, ?mas eu não sabia dançar e resolvi não ir; fiquei chorando em casa. Meu pai vendo aquilo sugeriu, se me permite a palavra, que eu fosse pra ?gandaia?. Foi lá que aprendi a dançar, na gafieira?. Seu Lima, aos 17 anos, entrou para Os Aliados, um famoso grupo de cavalheiros que davam show nos salões de Maceió nos anos 30. O mais velho dos ?jovens? desta reportagem é considerado um dos fundadores do bloco Pinto da Madrugada. ?Fui em todos. Não posso ouvir uma lata tocar que saio dançando; e a quem me censurar, mando ir à China, comer farinha fina?, brinca ele, entre risos. Violência no caminho Seu Lima costumava freqüentar a orla marítima da cidade no período da noite. ?Gostava do som ao vivo nos barzinhos. A música é um remédio para mim. Tenho uns trezentos discos; danço desde o tempo da garota notável [Carmem Miranda]?, diz ele, frisando gostar também de Noel Rosa e Luís Gonzaga. A saúde de seu Lima, diz ele que ?está beleza?. Há 50 anos o ex-bancário deixou de beber, ?eu só não bebia chumbo derretido, o resto...?, compara, falando de sua disposição. ?Eu, até agora, continuo aproveitando tudo que tenho direito, com o consentimento do meu superior?, explicando que o grande segredo de tanta vitalidade na última fase da existência é o amor que recebe da família. ?Tenho uma família formidável?, define, ?cuidam de mim com muito carinho e paciência?, afirma, agradecido, seu Lima. A música também é remédio para o forrozeiro Manoel Moura, 66 anos. Sua diversão é os instrumentos que coleciona, especialmente a gaita e o triângulo que toca simultaneamente. ?Adoro tocar, para mim é a melhor terapia que existe?. E foi exatamente para os hospitais que Manoel Moura levou sua terapia. ?Tocava para os doentes. Tinha paciente todo enfaixado que só faltava levantar e sair dançando?, conta ele, explicando que hoje já não alegra os enfermos. ?O ambiente hospitalar estava prejudicando a minha saúde?, justifica, se referindo às bactérias. Seu Moura também é um dos freqüentadores assíduos do Programa Vem ver a Banda Tocar. ?Não perco nenhum domingo?, diz ele, revelando o segredo de tanta saúde. ?Nunca fiquei parado. Até hoje trabalho [numa secretaria de Estado]?. Em 2002, aos 63 anos, seu Moura pedalou de Maceió até Penedo. ?Saí às 4h e cheguei às 15h na companhia de um amigo mais novo que eu?, faz questão de frisar. Eles percorreram 170km. ?Foi uma grande aventura?, relembra, dizendo que o ciclismo é outra paixão. ?Já participei de competições. Gosto de velocidade, de pedalar no asfalto?. CS ### Passeio com amigos afasta preocupação É sobre duas rodas que os amigos Dgerson Novaes, 62, e Carlos Albuquerque, 56, fogem do barulho ?estressante da cidade?. Os dois são aposentados e fazem parte do Maceió Moto Clube, uma parceria entre amigos que alimentam o mesmo objetivo: curtir o motociclismo enquanto conhecem o Nordeste com as esposas na garupa. ?É como se fôssemos pássaros voando ao lado de paisagens?, comenta Carlos que calcula ter rodado mais de cem mil quilômetros. ?Já fui para Salvador, João Pessoa, Garanhuns... é uma delícia pegar a estrada. A sensação é de pura liberdade?, diz ele. O ex-professor universitário Dgerson percebeu a diversão nas motos não faz muito tempo. ?Minha paixão sempre foi cavalos, mas a fazenda que tenho é pequena, meu espaço estava ficando limitado; além de ser cansativo lidar com ração, sela, espora?, conta, dizendo nunca ter pensado em motos, até resolver comprar uma. ?Queria continuar tendo contato com a natureza e a moto proporciona isso. Com ela tenho acesso a vários lugares; a gente viaja sentindo o cheiro das plantas?, afirma, contando que o melhor ?é estar no grupo, fazendo novas amizades por aí, nas cidades visitadas?. Este ano, os dois já têm viagens agendadas. No próximo mês, o clube formado por 15 motociclistas - o mais novo dos integrantes tem 48 anos e o mais velho, 65 - vai para Garanhuns e programa ir, até o fim do ano, também para Natal, transformar os aborrecimentos em adrenalina. ?Não tem como ficar preocupado durante um passeio de moto. Quando deixamos Maceió, os problemas ficam para trás?, diz Carlos, frisando que o objetivo não é competir, mas dividir o prazer com os amigos enquanto conduz. Eles dizem que enquanto estiverem lúcidos vão continuar andando de moto. ?Quem gosta de moto tem dois destinos: ou morre com ela, ou morre dela; jamais se separa, não importa a idade?, garantem. E quem pensa que o prazer de conduzir motos é coisa só de homem, se engana. As senhoras também têm liberado as energias e exercitado a mente estrada afora. Numa auto-escola da cidade, uma turma de nove aposentadas tiveram 15 aulas e hoje estão prontas para encarar os desafios em cima de motocicletas. ?A intenção delas é formar um grupo só de mulheres?, conta o instrutor Sílvio César. O mais admirável é a idade delas. ?A mais nova tinha 48 anos e a mais velha, 61?, diz ele. A graça da sorte No final do dia, já é certo. Para as amigas Edir Santos da Silva, 63; Marluce Marques, 58; e Maria José Rosa, 48, a diversão é se entregar à sorte. Foi num bingo no Centro de Maceió que se conheceram há 10 anos. ?Até hoje nos encontramos para jogar. Quando estamos aqui, o tempo pára?, diz ?dona? Edir, uma lavadeira aposentada, moradora da Chã da Jaqueira. As três foram levadas pela curiosidade. ?O melhor são as amizades que fazemos aqui?, diz Maria José, ?e, claro, quando a gente sai com um dinheirinho?. O esposo de Marluce é policial e trabalha a semana inteira fora da cidade. Os filhos já são adultos, devidamente casados. ?Me sentia muito sozinha. Cheguei a ter depressão. Aqui achei o meu divertimento?, diz ela, enquanto joga, pedindo a sorte que traga os ?dois patinhos?, o número 22 que falta para ela fechar a cartela. ?Ah! Não deu! Mas foi por pouco. Perder também acaba sendo engraçado?, diz ela. Turistas de carteirinha É muito cedo que dona Maria José Porangaba, 71, salta da cama. Sua primeira tarefa do dia é meia hora de caminhada na orla marítima, ?para aquecer o corpo?, segundo ela. Em seguida, por volta das 6h30, a aposentada natural de Paulo Jacinto segue para a academia onde ocupa uma das vagas nas aulas de musculação e alongamento. ?Esse ritmo é de família, fui educada trabalhando?, conta, revelando mais um secredo. ?A alimentação tem que ser equilibrada. Leite de soja e pão integral são básicos na mesa dos mais velhinhos?, ensina. Com o corpo forte, resta-lhe o divertimento. Maria José trabalhou muitos anos na Telasa. Lá fez amizades duradouras. Ela continua se encontrando com as amigas de repartição, todos os meses, para bater-papo e realizar viagens. ?Já visitamos até o Pantanal?, conta. ?Quando retorno dos passeios, me sinto mais feliz, mais leve?, comenta ela que se diz apaixonada por artesanatos e livros. ?Ah! A leitura lava a alma?. Janice Araújo Costa, 63 anos, é uma das companheiras de dona Maria José nas excursões. ?Maceió já foi muito explorada por nós?, diz ela, ?nossa diversão é fora da cidade, em fazendas e clubes. Somos trinta amigas que ganham o mundo quando tem uma folguinha?, conta, revelando entre risos, que faz parte da Associação das Meninas da Telasa. O encontro das ?Meninas da Telasa? é também em residências. ?Já estamos programando o nosso Natal. A solidão não existe entre nós. Tem gente que gostaria até que os encontros fossem semanais?, diz Janice. |CS

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