Cidades
Ve�culos circulam sem placa no Agreste
| MAIKEL MARQUES Repórter Arapiraca - O Código de Trânsito Brasileiro (CTB), a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e o Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) parecem não ter qualquer importância para milhares de condutores de veículos que vivem na zona rural de pequenas cidades do Agreste. Eles utilizam veículos de procedência 100% duvidosa e geralmente só circulam pelo mato. ?É mais tranqüilo e não há qualquer tipo de fiscalização?, diz um agricultor de Feira Grande. Policiais civis e militares do Agreste e Sertão ouvidos pela Gazeta são unânimes: a zona rural está ?infestada? de ?cabritos?, que são os veículos de origem ?desconhecida? mas em poder de ?muita gente de bem?. Parte da frota é suspeita de ser roubada. ?A moto substituiu o cavalo. No sítio, o cidadão não quer saber da carteira nem de IPVA. Ele só tem uma preocupação: colocar combustível no tanque?, diz um policial rodoviário estadual que pediu para não ser identificado. A Gazeta observou, numa quarta-feira, o tráfego de veículos em cidades do Agreste e Sertão e constatou - principalmente nos dias de feira livre - a presença maciça de motocicletas sem placa, condutores sem capacete e transportando até dois passageiros. A cidade sertaneja de Canapi é exemplo de ?terra sem lei? quando o assunto é o Código de Trânsito Brasileiro. ?Não há fiscalização de trânsito. Aí, a coisa corre frouxa. Não há preocupação?, diz outro policial. SUBSTITUTO DO CAVALO Para o delegado regional de Delmiro Gouveia, Rômulo Monteiro, a circulação de veículos irregulares é visível nos dias de feira livre. ?A moto substituiu o cavalo do matuto há muito tempo. Sem dinheiro para emplacar ou tirar carteira de motorista, o cabra da roça circula pelas beiras com sua motoca. Ele pára antes de chegar à cidade. Vai ao centro a pé e, depois de fazer sua feirinha, pega a veículo e volta para casa?, confirma o delegado. O desrespeito à lei também é comum em Arapiraca, cidade-pólo do Agreste e detentora - em termos proporcionais - da maior frota de motocicletas do Nordeste. ?A fiscalização praticamente não existe na zona rural. Não há efetivo suficiente para verificar o respeito às leis do trânsito na zona rural. A prioridade é a região urbana das cidades?, diz Luciano Silva, coronel que comanda o 3º Batalhão da PM em Arapiraca. Embora aponte fiscalização ?eficiente? com o apoio da SMTT na zona urbana de Arapiraca, em recente ação de seu Batalhão de Trânsito foram apreendidos 30 veículos com diversas irregularidades. Desse total, oito motocicletas seminovas não tinham placas. Em cidades pequenas onde não há fiscalização, o veículo irregular acaba não sendo apreendido. ?Integrantes da classe política são coniventes e conseguem a liberação do veículo irregular?, diz um policial do Sertão. ### Ausência de policial alimenta vício A ausência de policiamento ostensivo nas divisas de Alagoas com Sergipe, Bahia e Pernambuco alimenta a indústria da moto roubada para satisfazer o ?sonho de consumo? do cliente que se beneficia do trabalho ostensivo de quadrilhas que atuam em Mata Grande, Canapi, Palmeira dos Índios e Estrela de Alagoas, além de Arapiraca. Para Marcondes Prudente, presidente do Sindicato dos Mototaxistas de Alagoas, a motocicleta sem placa e 100% irregular é uma ?praga sem fim? em cidades como Coité do Nóia, Feira Grande, Lagoa da Canoa, Girau do Ponciano, Traipu, Craíbas e Igaci. ?Muitos desses veículos são procedentes de estados vizinhos?, diz. O comércio de moto roubada, embora seja crescente, recebeu duro golpe um mês atrás, quando agentes da Delegacia de Roubos e Furtos de Arapiraca prenderam uma quadrilha que roubava moto em Arapiraca para revenda ou desmanche em Igaci e Estrela de Alagoas. A quadrilha tinha seis integrantes, dentre os quais um mecânico especialista em desmonte e comercialização de peças originais. Serviço sujo Gilvan da Silva, José Soares e Cícero Sebastião faziam o ?serviço sujo?. Roubavam motos para clientes de Igaci e Estrela de Alagoas. Jairo Bezerra e José Brás, dois mecânicos de Estrela de Alagoas (divisa com Pernambuco) são acusados de comprar duas motos roubadas por R$ 500 e R$ 700, respectivamente. Negaram o crime e foram postos em liberdade por determinação judicial. ?Uma moto ?cabrita? [irregular] é facilmente adquirida por menos de mil reais. É lucro certo para o vendedor e problema dos grandes para o comprador?, observa um policial. O comércio de moto roubada também floresce principalmente à margem das rodovias estaduais da região sertaneja, onde a fiscalização de trânsito é precária. |MM ### Maioria dos mototaxistas transita ilegal Dados do Sindicato dos Mototaxistas do Estado de Alagoas (Simeal) indicam que 30% dos mais de 6 mil ?profissionais? que atuam no Estado não têm Carteira Nacional de Habilitação (CNH). A condução de motocicletas sem habilitação é comum, segundo o sindicato, em pequenas cidades do Agreste e Sertão onde não há fiscalização de trânsito. O sindicato da categoria tem representação em sete cidades: Palmeira dos Índios, Arapiraca, São Sebastião, Lagoa na Canoa, Maceió, Delmiro Gouveia, Santana do Ipanema e Coruripe. O desrespeito à legislação é freqüente, conforme o sindicalista, em cidades como Feira Grande e Lagoa da Canoa, no Agreste, e Canapi, Mata Grande e Inhapi. Os mototaxistas de Delmiro Gouveia, cidade-pólo do Sertão, também não fogem à regra. Ainda de acordo com o sindicalista, dos 220 profissionais que atuam na cidade, mais de 100 circulam com algum tipo de irregularidade. ?É gente sem carteira ou com IPVA atrasado?, diz Prudente, para quem a ?carestia dos tributos? estaduais dificulta a legalização de documentos. A clandestinidade também é grande em Arapiraca. Dos mais de 1.600 mototaxistas que circulam pela cidade, somente 497 têm autorização da Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (SMTT) para trabalhar no município. A legião de clandestinos provém de cidades próximas e fatura diante da precária fiscalização de trânsito na periferia da cidade. ?Eles vivem na clandestinidade e circulam do sítio até a periferia das cidades. Não vão adiante para não perder o instrumento de trabalho?. MM