Cidades
Mar avan�a sobre o litoral de Alagoas
NIVIANE RODRIGUES Repórter Barra de Santo Antônio e Coruripe - Ondas altas e a força da maré obrigaram os pescadores a recolher os barcos mais cedo. O mar ?bravo? de agosto, como costumam chamar os moradores do povoado, naquele dia, sábado, 6 de agosto de 2005, parecia ainda mais agitado. Na praia, homens e máquinas tentavam conter o avanço das águas. O trabalho era acompanhado por um grupo de crianças que, indiferente ao perigo, assistia a tudo do quintal de casa, já bastante destruído pelo mar. O que até aquele momento era diversão para os meninos, acabou em tragédia. O muro construído pela prefeitura para dar proteção aos moradores caiu em cima dos garotos, matando Handrey Rikelmy dos Santos, de 4 anos. Três crianças e a jovem Claudejane dos Santos, 22, mãe de dois dos meninos, ficaram feridas. A tragédia abalou a população de Lagoa Azeda, em Jequiá da Praia, no litoral sul, que teme novos deslizamentos e mortes. No lugarejo, casas, escola e estabelecimentos à beira-mar estão ameaçados. Destruição e morte também foram registradas na Praia do Francês, município de Marechal Deodoro, no último dia 24. O pedreiro Edmilson da Silva Santos, 35, morreu soterrado. Ele trabalhava na reforma de uma muralha de tijolos construída para conter a maré. O cenário é o mesmo em quase todas as cidades litorâneas de Alagoas, onde os prejuízos são incalculáveis. Para mostrar o drama de quem vive nessas regiões e explicar do ponto de vista científico as mudanças de marés que levam destruição a vários municípios, a Gazeta percorreu alguns desses pontos. ### Ilha da Croa, um povoado ameaçado pela maré alta Acompanhada da geóloga Rochana de Andrade Lima, a reportagem da Gazeta esteve no Pontal de Coruripe, no Litoral Sul, onde há áreas preservadas por recifes e outras em processo de destruição pela mudança no curso do Rio Coruripe. A equipe também percorreu o povoado de Lagoa Azeda. Com o assessor técnico do Instituto do Meio Ambiente (IMA), Ricardo César Oliveira, e o biólogo e pesquisador Juliano Fritscher, a Gazeta esteve na Barra de Santo Antônio, no Litoral Norte, onde a água do mar está devastando a Ilha da Croa. A reportagem também mostra o sofrimento e o medo de quem mora em Japaratinga. No município de Barra de Santo Antônio está situado o que se costuma chamar de paraíso ambiental: a Ilha da Croa. Berço de uma das praias que figuram entre as mais belas do País, a de Carro Quebrado, a ilha sofre os efeitos do avanço do mar. No lugar, onde muitos veranistas já venderam seus imóveis com medo da desvalorização e das marés, 35 casas foram destruídas nos últimos dez anos numa faixa de 600 metros. Outras estão prestes a cair. ?Sou filho natural da Barra e nunca vi uma situação dessas?, relata Wilson do Nascimento, o Piu, 46, dono de bar na ilha e que já foi obrigado a se mudar três vezes de local. Com medo, ele ocupou um terreno do outro lado da pista que divide a praia das casas, mas a maré também está destruindo a estrada. O assessor técnico do IMA, Ricardo Oliveira, explica que o avanço do mar é contínuo e nos últimos dez anos os efeitos têm sido mais drásticos. Segundo ele, nesse período a maré avançou 200 metros até a costa. ?O litoral do Nordeste acima do São Francisco está em contínuo processo de erosão, provocado pela falta de areia que deveria ser transportada pelos rios para as praias. Um dos fatores que impedem essa passagem é a construção de barragens nos rios?, explica. Em agosto, diz ele, marés meteorológicas maiores e ventos mais intensos contribuem com a formação de ondas altas, que só diminuirão em setembro, quando os ventos mudam de direção. Para ele, a ocupação desordenada no litoral acelera a erosão. ?Esse processo nada mais é do que o efeito provocado pelo homem no meio ambiente, com a destruição de ecossistemas como os manguezais e as restingas?, diz o biólogo Juliano Fritscher. ?O mangue funciona como uma espécie de filtro e sua destruição afeta o fluxo e a velocidade da água na foz, atingindo diretamente o mar?, ressalta.|NR ### Empresário teve prejuízo de U$ 85 mil Barra de Santo Antonio e Coruripe - Quando o engenheiro civil Vanderlei Turatti deixou o Rio Grande do Sul para investir em turismo no litoral de Alagoas não imaginava que fosse ver tudo o que construiu sendo tragado pelas águas do mar. O ano era 1995 e o ponto escolhido foi a Ilha da Croa, onde, àquela época, carro circulava à beira-mar, turistas chegavam de barco e na costa havia até posto de salva-vidas, construído pelo empresário, que morava numa luxuosa casa ao lado do restaurante. Na casa e no restaurante foram investidos U$ 85 mil, segundo o empresário, que dois anos depois, em 1997, viu tudo ir abaixo com a maré. ?Antes de construir conversei com pessoas que moravam aqui há algum tempo. Ninguém imaginava que a água fosse subir tão rapidamente. Achavam que levaria anos para isso acontecer, aí acabei perdendo tudo. Mas pelo menos aprendi uma lição: com a natureza não se brinca?, acredita Vanderlei Turatti. Mas ele não desistiu. Construiu um restaurante do outro lado da ilha e hoje mantém parceria, principalmente com empresas de turismo. Ele tem outro restaurante na Praia de Paripueira, que considera ?mais segura?. O avanço da maré leva medo a moradores de áreas até então consideradas ?seguras?, como é o caso do Pontal de Coruripe, no Litoral Norte. No lugarejo, que sobrevive basicamente da pesca, os habitantes da área próxima ao mar temem a cada inverno. Neste mês de agosto não está sendo diferente. ?Moro no Pontal desde que nasci, há 58 anos e a cada ano a situação é pior. Antes aqui tinha coqueiro, posto de saúde, quadra de esporte. Foi tudo levado pela maré?, relata o pescador José Cassimiro de Farias, 58, apontando para a área urbanizada à margem na praia. Ele conta que nasceu e se criou no Pontal, mas que hoje teme a maré. ?A prefeitura construiu esse muro de pedras, mas a água está destruindo tudo?, afirma. Ventos e lua A professora do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), geóloga Rochana de Andrade Lima, explica que as erosões são típicas da região litorânea. Segundo ela, em 2001 foi registrado um dos maiores picos dos últimos anos, com ondas de 2.6 metros de altura, provocando, em Maceió, o rompimento dos dutos da Petrobras na área do Pontal da Barra. ?Essas marés de agosto são resultado de vários fatores, entre os quais a mudança de Lua?, diz. ?Na luas nova e cheia registram-se os maiores problemas, porque o nível do mar sobe mais. Foi justamente o que ocorreu no último dia 21, quando as ondas atingiram 2.5 de altura?. Outro agravante, de acordo com a geóloga, são os ventos, que neste período costumam atingir maior velocidade em direção à linha da costa. ?Esta semana, por exemplo, os ventos atingiram 5.3 de velocidade, quando o normal é de 3 pontos. Isso acaba interferindo na densidade das ondas que entram na costa?, explica Rochana de Andrade. A professora também atribui às construções desordenadas a destruição que se observa no litoral. ?Antes, os pontos de praia eram extensos, daí as pessoas passaram a construir, inclusive em áreas muito próximas dos rios, altamente vulneráveis. São os rios que, naturalmente, fazem o processo de retirada e colocação de areia no mar, reduzindo a força das ondas que chegam ao continente. Com esse processo interrompido, o mar entrará na costa com mais força e como conseqüência teremos as erosões, como se vê?, diz a geólogo. Ela chama a atenção também para o processo de dragagem dos rios, feito sem critérios ambientais, e para os danos provocados pela devastação da vegetação do litoral. Na parte preservada do Pontal de Coruripe, ela diz que os recifes servem como proteção, impedindo o avanço das águas. Já em Lagoa Azeda, isso não ocorre porque os recifes estão muito próximos da linha da costa. ?Na orla de Maceió, a retirada desordenada de recifes nas décadas de 20 e 30, para produzir cal e construir alicerce de casas, deixou a orla desprotegida?, revela. NR ### Família cobra indenização pela morte do filho soterrado Rezar tem sido o consolo para a família do menino Handrey Rikelmy, 4, morto soterrado por uma muralha nos fundos de sua casa, no povoado de Lagoa Azeda. A família atribui à Prefeitura de Jequiá da Praia a responsabilidade pela morte e diz que a maré nada teve a ver com a tragédia do último dia 6. ?Todo mundo aqui vivia pedindo para a prefeitura consertar esse muro que estava desabando, mas eles não deram ouvidos e meu filho acabou sendo a vítima?, diz Maria Tereza dos Santos, 56, mãe adotiva de Handrey. Seqüelas Do acidente ficaram, além da dor da perda, seqüelas na irmã do menino, Claudejane dos Santos, 22, que não consegue andar porque teve a perna atingida pelas pedras. ?Eu estava conversando com minha cunhada no quintal. Os meninos olhavam o caminhão botando pedras para tentar segurar o muro, quando o acidente aconteceu. Foi horrível. Meu irmão empurrou meu filho, que conseguiu escapar?, relembra. O outro filho dela, de oito anos, também estava no local e sofre até hoje, segundo a mãe, as seqüelas. ?Quero que a prefeitura indenize minha filha, que está sem pode andar. Não aceito migalhas como eles querem dar pra gente?, diz Maria Tereza, acompanhada pelo marido, o pescador José Augusto dos Santos. ?Depois dessa tragédia ela só faz chorar. Nem comer quer mais?, afirma o pescador. |NR ### Ondas arrastam barreiras e casas em Japaratinga Japaratinga - Os piores estragos causados pela maré alta no litoral norte de Alagoas aconteceram em Japaratinga, a 110 km de Maceió. A força das ondas destruiu parcialmente cinco casas e derrubou parte da encosta, em local onde não há proteção contra o avanço das águas. O trecho localizado no caminho para Barreiras de Boqueirão é considerado ponto crítico, devido à proximidade com o mar. A estrada de barro localizada sobre a encosta terá que ser desviada, para evitar o risco de acidentes. Partindo do centro da cidade, em direção à Praia de Bitingui, há um trecho onde está sendo construída uma proteção com 327 metros de comprimento para evitar a destruição da encosta. As obras começaram há cerca de dois anos, mas ficaram paralisadas em 2004. Os serviços foram reiniciados no início de 2005 e estão suspensos há mais de um mês devido a embargo solicitado pelo Ibama. A empresa contratada pelo governo estadual não apresentou estudo de impacto ambiental. obra paralisada De acordo com Wellington Melo, diretor-geral do Departamento Estadual de Estradas de Rodagem (DER), órgão responsável pela fiscalização da construção, mais de 50% dos trabalhos estão concluídos, mas ?não tem a menor idéia? de quando serão retomados. ?Depende do Ibama?, resumiu. A empresa contratada tem sede em São Paulo e é especializada em reparos provocados por erosão. A tecnologia empregada é da própria construtora, que mantém segredo industrial sobre a composição da argamassa utilizada nos imensos blocos sobrepostos, formando uma espécie de escada que chega bem perto da estrada. Sobre a parte da encosta atingida mais adiante, entre as praias de Barreiras e Barreiras do Boqueirão, Wellington Melo concorda que a obra deve ser contínua. ?Tivemos até sorte porque esperávamos uma ?ressaca? bem maior?, referindo-se ao período de agosto, quando as marés sobem mais do que a média verificada nos outros meses. Prevendo estragos em maiores proporções, o secretário de Obras de Japaratinga, Jordão Alves de Freitas, encaminhou pedido ao Ministério das Cidades para ampliar os serviços, que teriam extensão total de um quilômetro. Enquanto aguarda resposta, ele espera, ainda, a chegada de um trator do tipo esteira para desviar o percurso da estrada em situação de risco. Segundo ele, a prefeitura não dispõe de verbas para realizar as obras. O governo estadual já mandou duas caçambas e uma carregadeira, que auxiliarão o trator nas operações para evitar a interrupção do tráfego. Um desvio permitirá o fluxo de veículos. O avanço do mar agravado, pela maré alta de agosto, deveria servir de alerta. As cinco casas de Japaratinga parcialmente destruídas domingo passado na Praia de Barreira foram erguidas há cerca de dez anos. José Reginaldo Neto, 50 anos, mora na rua que fica por trás das casas atingidas. ?Nascido e criado em Japaratinga?, nunca tinha visto uma destruição como aquela. ?As ondas ?lavavam? as telhas da primeira casa?, relembra, ao lado do filho Diógenes, que também acompanhou a subida da maré. Apontando para a beira-mar, Reginaldo Neto lembra que em seu tempo de criança havia uma rua em frente as casas destruídas. ?Tinha até residência no outro lado da rua com fundos para o mar?, acrescentou. Ele disse que o cemitério público da Praia de Barreira deixou de ser utilizado porque as marés levaram os restos mortais. No local, apenas alguns mausoléus ainda resistem à ação do mar. FV