Cidades
Fam�lias despejadas ficam em galp�o sujo
FÁBIA ASSUMPÇÃO Repórter O dia seguinte à traumática operação de despejo de 146 famílias de área da Ceal, no Jardim Petropólis II, Tabuleiro do Martins, foi de profunda desolação. Nos escombros do que sobrou das casas derrubadas pela força dos tratores, os moradores procuravam salvar o que ainda era possível, como tijolos e telhas. Mas nada os fazia esquecer os momentos de desespero que viveram, quando se viram cercados por mais de 300 policiais militares e ouviram do oficial de Justiça a ordem do juiz da 14ª Vara da Fazenda, Antônio Dória, para deixarem suas casas. Ontem, a maior preocupação dos despejados era saber onde vão morar daqui para frente. José Orlando da Silva viu o sonho de ter a casa própria ruir na manhã da última terça-feira. Assim como grande parte dos invasores da área, ele veio da Grota Santa Helena, região de encosta onde, em junho de 2004, dezenas de pessoas morreram soterradas, por causa da forte chuva que atingiu Maceió. Para eles, morar embaixo das linhas de alta-tensão da Ceal oferecia menos riscos do que continuar sob o medo de ver as barreiras despencarem sobre suas casas. Cansados de esperar a construção das casas prometidas pela prefeitura, que nunca se tornou realidade, eles tiveram somente um caminho: a invasão. Galpão Das 146 famílias que ocupavam o terreno no Jardim Petropólis II, pelo menos 20 foram jogadas pela Secretaria Municipal de Assistência Social num galpão no bairro Cambona. Mesmo local que durante meses serviu de casa para desabrigados da chuva. Muitos foram para o local a contragosto, porque não tiveram outra opção. As condições do local são insalubres. Quando chegaram lá, as famílias encontraram o local sujo, com fezes espalhadas pelo chão e o mato cobrindo a parte externa. Nos chuveiros não há água. A água que sai dos banheiros, misturada à urina, corre a céu aberto, na área onde a maioria das crianças passa o tempo brincando. A alimentação dos desabrigados tem sido à base de sopa e leite em pó. Falta leite para as crianças menores, algumas recém-nascidas. Dois banheiros químicos, que já estavam no local, são usados por crianças e adultos. O desconforto entre os que ocupam o galpão é visível, principalmente pela indefinição de como será a vida daqui pra frente. A proposta da prefeitura de pagar por três meses um aluguel, de R$ 100, para cada família não é vista com bons olhos. Eles acham apenas uma solução paliativa e que não resolve o problema da falta de moradia. ?Não importa onde seja, o que eu quero é uma moradia digna?, afirma Valderez Araújo Costa. ### Técnico em refrigeração vira símbolo da operação despejo O técnico em refrigeração Janildo Rafael da Silva é o símbolo da luta desigual travada entre os que construíram suas casas no terreno invadido do Jardim Petropólis II. Ele foi capa dos principais jornais de ontem, ajoelhado em frente à tropa perfilada do Bope, em choro desmedido e implorando para não ter sua casa derrubada. Foi o retrato da impotência dos invasores diante da força da polícia. ?Preferia não ter sido capa de um jornal dessa maneira?, lamentava-se Janildo. Ele, a mulher, Daniela, que está grávida de seis meses, e os dois filhos, uma de apenas um ano de idade, estão abrigados no galpão. Janildo não consegue esquecer os momentos de pavor que viveu durante o cerco feito pela polícia para a ação de despejo. Ele tinha ido levar a filha ao médico, e quando voltou encontrou a área cercada e quase não conseguia entrar para ajudar a família. Janildo morava na Grota Santa Helena antes de começar a construir a casa no Jardim Petropólis II. E não escondia sua revolta com a ação da polícia. ?Eles nos trataram como se fôssemos ladrões, como bandidos e não como pais de famílias?, Janildo não sabe o que vai ser do futuro dele e da família. Sua fonte de renda era uma oficina de conserto de geladeiras, que também foi destruída durante a desocupação. ?Perdi um freezer e uma geladeira que estavam na oficina, a máquina passou por cima?. |FAS