Cidades
Prefeito critica Ceal e promete 27 casas
FÁBIA ASSUMPÇÃO FÁTIMA ALMEIDA Repórteres Depois de uma operação de despejo traumática - quando na terça-feira 146 famílias do Conjunto Petrópolis II tiveram que deixar suas casas na marra, sob pressão de oficial de Justiça, pelotão do Bope com cachorros e cavalos e tratores da prefeitura derrubando alvenarias - o juiz da 14ª Vara Cível da Fazenda Municipal, Manoel Dória, concedeu um prazo de mais 15 dias. Com isso, as 13 famílias que continuam morando na área, sob uma rede de alta-tensão, de propriedade da Ceal, ganham fôlego. Ontem, o prefeito Cícero Almeida fez uma visita surpresa ao local e prometeu que vai resolver o problema das famílias que tiveram as casas destruídas e que estão abrigadas em galpão no bairro do Mutange. Almeida afirmou que a prefeitura só terá o compromisso de construir casas para 27 famílias que foram cadastradas há três meses pela Secretaria de Habitação e que realmente moravam no local. Apesar de o município ter sido co-autor da ação de manutenção de posse da área, o prefeito condenou a operação de despejo. ?Não é que não seja nossa obrigação resolver esse problema, mas a Ceal tomou a decisão sem discutir com a prefeitura uma forma de ajudar essas famílias. Era melhor que os moradores continuassem no local, até encontrar solução. Isso aqui é área do município, e não da Ceal?, afirmou Almeida. ?Há interesses de pessoas mais abastadas da região, que construíram suas mansões e agora gostariam de afastar a pobreza. Já que eles tiveram que sair daqui, quero ver quem vai ocupar essa área enquanto eu for prefeito?, completou. Almeida garantiu que a prefeitura vai pagar aluguel - por três meses - para as famílias desabrigadas, até que sejam construídas casas para abrigá-las. ### Pessoal do galpão ameaça voltar à área O drama dos ex-ocupantes do terreno da Ceal, no Jardim Petrópolis, despejados esta semana, parece estar longe do fim. Amontoados num galpão, no Mutange, sem as mínimas condições de higiene, eles reclamam da falta de assistência do poder público, recusam propostas paliativas e avisam: se a situação não for resolvida, vão voltar para o mesmo lugar. Ontem, funcionárias da Secretaria Municipal de Assistência Social tentaram cadastrar as 36 famílias que foram levadas para o local na segunda-feira. Casas alugadas O cadastro, segundo informaram, serviria para encaminhar o aluguel de casas populares (com valores de até R$ 100 por família), por um período de três meses. O clima de constrangimento era visível. As funcionárias foram mal recebidas e as famílias se recusaram a fornecer os dados para o cadastro. ?Ninguém vai se cadastrar. Queremos uma solução definitiva. Para onde essas pessoas vão? Ninguém pensou nisso antes de tirá-las de lá. Agora ninguém vai sair daqui para uma casa alugada e, depois de três meses, ser despejado novamente?, avisou Eliana da Silva, ativista do movimento dos sem-teto. Ainda reclamando de dores no corpo e lamentando cada tijolo perdido na demolição de sua casa, a aposentada Tereza da Conceição quer garantia de moradia definitiva. ?Perdemos tudo. Só saio daqui se for para um lugar meu?, disse ela. ?Eles deveriam pagar o que nós perdemos e dar um terreno para a gente construir?, diz outro sem-teto. O principal argumento para a demolição das casas e desocupação da área, considerada faixa de segurança da Ceal, é o de que houve ocupação irregular do terreno. |FAS e FA ### Sem água, sem escola ou remédios Enquanto Ceal e prefeitura falam em irregularidades quanto à presença de invasores dentro da área da Ceal, a situação das famílias que foram deixadas no Galpão, na Cambona, também não é nada regular. Não existe água nas torneiras ou nos chuveiros do alojamento, e apenas dois sanitários químicos foram instalados para atender cerca de 150 pessoas. A água de beber é colhida em dois canos abertos do lado de fora. É lá, também, que as pessoas fazem a higiene pessoal, lavam a roupa e os pratos. A água servida escorre a céu aberto na área externa, de onde até hoje não foi recolhido o lixo que os inquilinos retiraram do prédio, na segunda-feira. Um enorme buraco, provavelmente de uma fossa ou de um poço antigo, é uma ameaça para as crianças. O contato com a sujeira faz alguns já apresentarem sinais de doenças, mas segundo os desabrigados, nenhuma equipe de saúde esteve no local ainda. Dor e fome Numa cama improvisada, num canto do galpão, dona Maria José dos Santos, que desmaiou no dia da demolição, geme de dor. Com o braço enfaixado e uma receita médica na mão, ela reclama: ?passaram remédio para dor, mas não posso comprar. Não tenho nenhuma renda?. A falta de alimentação é outra reclamação. Eles dizem que receberam uma cesta básica na segunda-feira, e já acabou. ?Lá, a gente fazia nossos bicos. Aqui, vai se virar como??, diz Noete Ramos. Já passava do meio dia, e algumas pessoas estavam sem comer desde quinta-feira à noite. Sem escola Situação ainda mais irregular vivem as crianças, que desde que deixaram a área onde moravam, no Tabuleiro, não freqüentam a escola. ?Já estou numa faixa atrasada. Se continuar aqui, vou acabar perdendo o ano?, diz o adolescente Thiago de Lima Santos, que cursa a 7ª série no Colégio João Sampaio. |FAS e FA