loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
sábado, 25/07/2026 | Ano | Nº 6275
Maceió, AL
26° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Cidades

Cidades

Donos de casas antigas resistem � press�o imobili�ria

Ouvir
Compartilhar

| CARLA SERQUEIRA Repórter O ano era 1962. No vasto areial da Ponta Verde, muitos coqueiros, amendoeiras e casuarinas. A brincadeira das crianças se perdia entre sítios. O som dos pássaros confundia-se com o do mar, uma imensidão paradisíaca, especialmente para os jovens da época. Foi neste cenário que Edburgo Fontan Pedrosa, prestes a completar 80 anos, construiu sua casa, onde mora até hoje. É de sua residência que saem, todos os meses, decepcionados, diferentes corretores de imóveis. Instalado na cobiçada e comercial Avenida Professor Mário de Gusmão, ?seu? Edburgo, de expressão calma, balança a cabeça em negativas. ?Não vendo meu paraíso por dinheiro nenhum deste mundo?. As sucessivas visitas das construtoras têm um só objetivo: adquirir áreas para a construção de prédios residenciais, principalmente entre a Jatiúca e a Pajuçara. São 60 construtoras em Maceió com atuação intensa na orla marítima da cidade. Sandra Pedrosa, a filha caçula dos oito de ?seu? Edburgo, nasceu na Mário de Gusmão. ?Nossa diversão era roubar fruta dos vizinhos. Lembro das primeiras obras de urbanização do bairro. Furávamos os canos, quando começaram a fazer o saneamento?, revela, sem esconder o carinho por seu passado privilegiado de menina considerada travessa. ?Muitas vezes, quando voltávamos do Centro, os carros atolavam na areia branquinha da praia?, relembra ela. Saudosismo Saudades também sente a família de Willmer Keitel Coelho Galvão Barros, 53 anos. Encurraladas entre prédios à beira-mar de Ponta Verde estão quatro casas da mesma família. Na frente delas, a tradicional Capela Sexagenária do Padre Cícero, construída com pedras retiradas do mar, disputa com letreiros, quiosques e paradas de ônibus a atenção dos transeuntes. ?Um amigo veio de São Paulo me visitar há vinte anos?, conta o professor da rede pública Willmer. ?Quando voltou, cansou de procurar e não encontrou a casa. Teve que ir atrás de colegas para trazê-lo aqui?, diz, entre risos e lamentações. ?Se eu pudesse, não sairia daqui nunca. Temo que um dia tenha de vender tudo?, avaliou, entristecido. O avô dele foi um dos primeiros moradores da Ponta Verde. Antes, a área de sua família se estendia até a Bomba da Marieta, no bairro do Poço, com cerca de três quilômetros de fundo. ?A porteira do sítio era muito à frente das barracas da orla?, conta Willmer. ?Carro nenhum passava por aqui, só carroça?, diz ele, que desde os seis anos reside no mesmo lugar. Nos fundos de sua residência já está instalado um prédio com cerca de oito andares. Ao lado, outro prédio começou a ser erguido. O terreno que restou [28 de largura e 68 de fundo] aos 10 herdeiros da família vale hoje mais de R$ 2 milhões. Willmer diz que jamais moraria ?pendurado num apartamento?. Seu desejo é encontrar outra casa na mesma região. ?Ah! Só deixo este bairro morto?. Há 10 anos, quando alguns lotes foram vendidos, os corretores visitam Willmer. Na semana passada, a família se reuniu com mais uma construtora para ouvir novas propostas. ### Um apartamento para compensar perda As antigas moradoras da Rua Professor Vital Barbosa, próximo à Igreja São Pedro, na Ponta Verde, tiveram suas casas demolidas. Depois de anos negando as vantagens oferecidas pelas imobiliárias, Neide Salles Bagetti, Lídice Accioly Pessoa Cavalcante e Ivone Brito Santos resolveram, há dois meses, se desfazer de suas residências. No lugar dos terrenos, um prédio de seis andares será construído dentro de dois anos. A proposta aceita por elas é a mais comum no mercado imobiliário. Em troca do terreno - e da triste realidade de ter a casa resumida a escombros - cada moradora recebe apartamentos do futuro edifício. ?No acordo que fizemos, cada uma ficará com dois apartamentos avaliados em R$ 200 mil cada?, contou dona Neide, 65 anos, dos quais 16 viveu onde hoje se revela um grande buraco, à espera do alicerce. ?Vivi bons anos naquela casa. Tive alegrias e tristezas. Desde que mudei, não tive mais coragem de passar por lá?. Todas elas continuam residindo próximo à antiga morada. Lídice Accioly, 62, avalia ter deixado a casa onde viveu metade de sua vida - 34 anos - na hora certa. ?O futuro daquela rua é ser cercada por prédios. Uma hora ou outra ia acontecer. Perdi minha mãe ano passado e fiquei desgostosa com a casa. Não me arrependo do negócio que fechei?, diz ela. Já Ivone Brito decidiu-se pelo acordo por causa da insegurança. ?Na rua que um dia foi tranquila e espaçosa, assaltos, roubos de carros e uso de drogas desenfreado estavam ficando freqüentes. Além disso, não conseguia viajar despreocupada?, conta a educadora. A decisão foi tomada pelas três com o apoio dos filhos, após um ano de reuniões. Enquanto o prédio não fica pronto, a construtora garante R$ 700 mensais para cada uma, destinados ao aluguel das atuais habitações. Dona Neide e dona Lídici escolheram casas para alugar e dona Ivone, um apartamento. ?Foi um bom negócio?, afirmam, satisfeitas. |CS ### Urbanista protesta contra verticalização De sua janela, num prédio da Pajuçara, o professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas Pedro Cabral contempla as piscinas naturais. Ao lado do edifício, uma casa teima em pernanecer encurralada. ?Se o dono resolver vender, acabou-se meu sossego. A mira de minha janela poderá ser para dentro de um quarto. Vai ser o fim da privacidade?, diz, prevendo uma realidade vivida por muita gente em Maceió. A Rua Rui Palmeira, na Ponta Verde, é praticamente ladeada por prédios. ?Se observarmos, o Sol quase não bate mais na rua?, diz o urbanista. Segundo ele, em 1981 foi elaborado o primeiro plano de construção civil da cidade. ?Naquela época, os empresários foram incentivados a investir na orla?. Somente em 1995, o código de urbanismo de Maceió determinou o limite de seis a oito andares para a altura dos prédios. ?Como os lotes são caros, quanto mais apartamentos, melhor?. Falta de controle Pedro Cabral diz que falta disciplina por parte da prefeitura. ?Deveria haver controle sobre as quadras apropriadas para sofrer a verticalização?, opina, lembrando das recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS). ?Para cada habitante, deveriam existir 12 metros quadrados de área verde?, diz ele. ?Em Maceió, a área verde por habitante não passa de 2 metros e meio?. O urbanista faz questão de dizer que não é contra a verticalização da cidade. ?Mas os edifícios deveriam resguardar uma distância de pelo menos 10 metros um do outro?, avalia, explicando que a ventilação é prejudicada e o aparecimento de mofo, favorecido. Outro problema pontuado por ele é referente à infra-estrutura dos bairros litorâneos. ?A densidade demográfica não deve ultrapassar 250 habitantes por hectare. A Ponta Verde, por exemplo, já deu o que tinha que dar?, diz Pedro Cabral. As línguas negras que borram de esgoto o mar podem ser provas do que fala o professor. ?Além disso, o abastecimento de energia e água também ficam insuficientes?. Num breve transitar entre as ruas da Pajuçara, Ponta Verde ou Jatiúca é fácil flagar carros-pipa abastecendo apartamentos de água potável. Para ele, Maceió poderia seguir o exemplo do Rio de Janeiro. ?No centro do Rio, as pessoas moram em prédios onde os térreos são estabelecimentos comerciais. Isso torna viva a cidade?, acredita. ?O grande problema é que o mar é visto como dinheiro. Maceió tem um grande vazio na parte alta. Quase nenhum prédio residencial foi construído na região do Tabuleiro do Martins, que já dispõe de infra-estrutura?, critica o urbanista, alertando para o fato de que o Litoral Norte não está preparado para receber mais moradores. ?Só tem uma rodovia, não tem saneamento básico. Aquela área vai sofrer sérios problemas futuramente?. Sobre o valor histórico das construções antigas, Pedro Cabral cobra do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Segundo ele, não há cadastro dos prédios que deveriam ser protegidos. ?Por isso aquele barulho em torno da casa rosa, na Pajuçara. E depois que a casa foi derrubada? Alguém está pensando na preservação dos outros imóveis??- questiona. Na sua visão, ?a arquitetura de uma cidade conta a história de seu povo?. De acordo com o urbanista, as ruas General Hermes, na Cambona; a Melo Morais e Imperador, no Centro, e Miguel Palmeira, no Farol, guardam alguns casarões importantes para a memória de Maceió. ?Estes prédios poderiam abrigar órgãos públicos e receber manutenção?, sugere.|CS ### Especulação supervaloriza terrenos Com 20 anos de mercado, uma das primeiras imobiliárias de Maceió, a Márcio Rapôso Imóveis, trabalha com 95% das construtoras da cidade. Segundo a gerente de produtividade da empresa, Valéria Santana, 90 prédios estão em construção. Hoje, cerca de 1.400 novos apartamentos estão sendo comercializados na orla de Maceió. ?A procura por terreno, principalmente na Ponta Verde, é muito intensa. Os poucos que restam valem uma fortuna?, diz ela. O metro quadrado, para se ter uma idéia, custa entre R$ 2.700 a R$ 5 mil. ?Tem apartamento que chega a R$ 1 milhão?, revela, explicando que o valor do imóvel depende basicamente da distância em relação ao mar, ?além do acabamento e da tecnologia?. Os olhos das construtoras, de acordo com a gerente, estão cada vez mais voltados para o Litoral Norte, em especial, para a Praia de Guaxuma. ?Grandes empresas já começaram a construir por lá?, diz Valéria, explicando que não são prédios, mas condomínios residenciais. ?Tem muita gente de fora vindo morar aqui, especialmente italianos e espanhóis?, ressalta.|CS

Relacionadas