Cidades
Res�duos de coco d�o emprego e renda
| FERNANDO VINÍCIUS Repórter Japaratinga ? ?Do coco nada se perde, tudo se desfruta?. A frase ilustra bem as possibilidades encontradas na lavoura que melhor se adaptou às condições de solo e clima das praias nordestinas. Inspirado no pensamento do fundador da química moderna, Lavoisier, o economista Elói Martins adaptou a máxima de que na natureza nada se perde, tudo se transforma para servir de título a um dos capítulos de sua monografia, apresentada em abril de 2003, na Universidade Estadual de Campinas-SP. Na tese defendida por Elói Martins estão as vantagens obtidas a partir do reaproveitamento da casca do coco maduro, material rejeitado pelos produtores, geralmente queimado ou simplesmente jogado no lixo. Seguindo essa premissa, uma indústria criada há três anos e meio no litoral norte de Alagoas está gerando emprego e renda com o reaproveitamento dos resíduos do coco. Instalada na zona rural de Japaratinga, município localizado a 100 quilômetros de Maceió, a Recicasco é um empreendimento financiado pela Igreja Reformada do Brasil, culto evangélico com sede no Canadá. A sugestão de implantar uma fábrica de reciclagem partiu dos ?irmãos canadenses?, diz Antônio Expedito da Silva, sócio-proprietário da empresa, que custaria em valores atuais entre R$ 800 mil e R$ 1 milhão. A falta de empregos entre os fiéis da região motivou o surgimento da fábrica. Expedito reconhece que trabalha ?assando e comendo?, ou seja, não tem margem de lucro que permita fazer grandes investimentos ou liquidar o empréstimo oferecido pelos canadenses. Quando recebeu a Gazeta no escritório da fábrica tinha acabado de fazer, por telefone, a compra de um equipamento que vai aumentar em cinco vezes a capacidade de produção, atualmente em 1.200 quilos de fibra por dia e aproximadamente 20 m de pó, substrato de coco para adubo. A máquina de fabricação italiana custa R$ 120 mil, valor que recebe acréscimo de 70% com dos impostos relativos a sua importação. Ele mostra a cópia do decreto federal nº 594 de 24 de dezembro de 1948, que concedia ?favores às fábricas que se instalarem para a exploração da fibra de coco com o aproveitamento da matéria-prima nacional?. Produzindo fibra a partir de cascas compradas de produtores de Maragogi e Japaratinga ao custo de 4 mil unidades por R$ 70, incluindo transporte, ?a lei seria perfeita para a Recicasco se não tivesse sido revogada?, lamenta. Apesar dos empecilhos, Antônio Expedito comemora a primeira exportação da empresa. No começo de outubro uma carga com 200 m de pó de casca de coco embarca para Holanda, venda que atinge a soma de 2.100 euros. No mercado interno, a Recicasco entrega fibra para indústrias de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná, matéria-prima usada na fabricação de vasos, barbantes e tapetes. Xaxins para plantas estão sendo feitos com fibra de casca de coco, porque a vegetação usada para fabricar os vasos está sob risco de extinção. A reciclagem das cascas de coco maduro propiciou aos produtores da região uma nova fonte de recursos. ?Trabalhamos com cerca de 100 fornecedores e estamos precisando ampliar para Porto de Pedras?, comentou Expedito. Empregos diretos criados pela Recicasco são 15, como o de Valfran Leandro dos Santos, casado e pai de três filhos. Ex-agente de endemias em Japaratinga, continua trabalhando por um salário mínimo. A diferença é que está com seus direitos trabalhistas garantidos, como carteira assinada e pagamento de horas extras. ### Criada por acaso, arte chega a hotel de Maragogi Maragogi - Apesar das condições naturais favoráveis por todo o litoral e outras áreas do País, o Brasil detém apenas 2% da produção mundial de coco. Cerca de 85% da produção é comercializada em cocos secos, sendo metade para fins culinários e o restante industrializado em produtos como sabão, leite e óleo. Em Maragogi, uma pequena indústria aproveita a polpa para fazer coco ralado. A caldeira que faz a Incoco funcionar é alimentada pela queima das quengas. O aproveitamento do resíduo reduz custos com energia e elimina material que iria para o lixo. Segundo o proprietário Francisco Azevedo de Oliveira, ou melhor, ?seu? Jura do Coco, a indústria existe há 3 anos e começou com apenas 12 empregados. Hoje tem 45. Produtor de coco e fornecedor há cerca de 20 anos, ele reclama da falta de incentivos dos governos federal, estadual e municipal para o setor. Habilidade manual Manoel de Melo Pimentel Neto reutiliza o tronco do coqueiro. Tem apenas um auxiliar que limpa as peças que ganham forma graças à habilidade manual do artesão, que mora no povoado São Bento, município de Maragogi. Operador de máquina heliográfica, descobriu em 2000 a nova ocupação movido pela necessidade. Desempregado, atendeu ao pedido da esposa de fazer caqueiras a partir de modelos de plástico. Os vasos feitos com pedaços de coqueiros mostraram um novo caminho para o sustento de sua família. Hoje fabrica cadeiras, mesas, luminárias, tudo sob encomenda. Um resort que está sendo construído em Maragogi terá parte de seu mobiliário produzido por ele. Em seu pequeno galpão, aponta o que já tem pronto, restando somente o acabamento final. O design parece ter sido copiado de revistas nacionais de decoração, mas Pimentel garante que nunca folheou uma, acrescentando que também usa pedaços de jaqueira nos seus trabalhos. ?Depois que fiz as caqueiras, vi que podia fazer outras coisas e lembrei de uma cadeira que vi na casa de um antigo artesão que mora aqui?, apontando em direção da casa que lhe inspirou. A primeira peça está deslocada em um canto do terraço de sua residência, rachada porque o tronco era ?verde?. A falta de experiência o fez cometer erros que superou, como as dificuldades para obter um financiamento destinado à aquisição de uma motosserra, equipamento indispensável para agilizar sua produção. ?Foi muita burocracia?, resumiu. Precisando comprar equipamentos como serrra-circular, furadeira de bancada e desempeno para deixar de pagar as serrarias nos serviços que precisa recorrer a terceiros, o artesão esbarra mais uma vez nas exigências do sistema financeiro, como um avalista com renda superior ao valor das máquinas de que precisa. Com um pedaço de coqueiro limpo, faz uma cadeira em um dia, mas precisa de 15 a 20 dias para dar o acabamento, ?senão mofa?, explica. A madeira tem muito líquido, que precisa de tempo para escoar totalmente. O preço varia de acordo com o tamanho e tipo da peça confeccionada pelo artesão. Segundo Pimentel, existe uma loja em Maceió que revende seu trabalho. ?Já tem peça minha em São Paulo, Rio, Bahia e Maranhão?, ressalta satisfeito por ter encontrado uma forma mais rentável para sobreviver, ainda que dependa de eventuais vendas. FV