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Cor e sexo fazem cair ado��o em Alagoas

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| BLEINE OLIVEIRA Repórter O número de adoções de crianças em Alagoas caiu nos últimos quatro anos. Informações do Juizado da Infância e da Juventude, na capital, mostram que em 2001 foram adotadas 157 crianças, número que diminuiu para 144, dois anos depois. O maior entrave é de ordem subjetiva e acaba resultando em discriminação racial. É grande o número de casais que chegam às instituições com um perfil pre-determinado da criança que pretendem adotar. ?A maioria pede menina, recém-nascida, com até seis meses de idade, saudável e branca?, revela a assistente social Juliana Tenório, gerente da Casa de Adoção Rubens Colaço, mantida pela Prefeitura de Maceió. Diante da diversidade étnica, nem sempre é fácil achar crianças com o perfil desejado. A realidade mostra que a maioria das crianças que anseiam por serem adotadas é maior de 3 anos, do sexo masculino, parda ou negra. São crianças reais, de carne e osso, que sonham pertencer a uma família. Na Casa de Adoção, localizada no bairro do Farol, estão crianças de zero a seis anos, abandonadas pela família, resgatadas por terem sido localizadas em situação de risco - maus-tratos, negligência - e deixadas para serem adotadas por pais que abrem mão do poder familiar (ou pátrio poder). Profissionais de assistência social e psicologia admitem que crianças negras dificilmente atraem a atenção de interessados em adoção. O Juizado não processa informações dessa natureza, mas apenas a idade e a situação da criança antes do processo adotivo. Por isso, não há dados sobre a etnia dos 615 menores adotados entre 2001 e 2004, quatro delas por famílias estrangeiras. ?Nossa preocupação é com a qualidade de vida e as oportunidades que essa criança poderá ter?, diz o promotor da Infância, Luiz Medeiros. Mesmo confirmando que a maioria dos casais procura crianças brancas e do sexo feminino, o promotor ressalta os casos de negros e pardos adotados tanto por famílias brasileiras quanto estrangeiras, os interessados têm que entrar na lista de espera. Exceto nos casos em que a família vem apenas regularizar uma situação preexistente, ou seja, a criança já está adotada de fato. Todo processo de adoção é precedido da inscrição do interessado. O Juizado da Infância e da Juventude tem uma lista de inscrição, hoje com apenas 15 pessoas, que funciona de modo semelhante à lista de transplante de órgãos. ?O interessado espera chegar a sua vez. Iniciamos o processo com a investigação social para, em seguida, dar-lhe, de acordo com o perfil já traçado, a oportunidade de ir à creche-adoção verificar, entre as crianças que lá estão, aquela com a qual se identifica ou sente afinidade?, explica o promotor Luiz Medeiros. Instituições como a Casa Rubens Colaço recebem crianças resgatadas pelos conselhos tutelares ou encaminhadas pelo Juizado. Lá, os menores têm assistência e atenção de funcionários e voluntários. São alimentados, têm acesso à assistência médica e odontológica. Os que têm padrinhos - voluntários que pagam a mensalidade - vão a escolas particulares de educação infantil. Mas o grande sonho dessas crianças é serem integradas a uma família. Somente este ano, o Juizado da infância já concedeu a Guarda Provisória em 29 processos de crianças que viviam na creche adoção. ?Temos outras 29 crianças esperando por um lar?, ressalta a assistente social Juliana Tenório. Para ela, o andamento dos processos deveria ser mais ágil, talvez assim aumentassem as oportunidades para muitas crianças. ### Entrevista com os candidatos é decisiva Os casais estrangeiros são os que mais reclamam da morosidade. Depois de inscrito, o pretendente à adoção deve encaminhar os documentos necessários à continuidade do processo, sendo depois convocado para entrevistas com a equipe técnica do Judiciário. Nas entrevistas com psicólogos e assistentes sociais, os candidatos descrevem as características que desejam para o filho a ser adotado (sexo, idade, cor, condições de saúde, etc.), apresentam suas expectativas e recebem orientações. Resta agora esperar a decisão judicial. Se for aprovado pelo juiz, o candidato é considerado apto à adoção e entra para o cadastro de pretendentes. compatibilidade O estudo psicossocial será confrontado com o cadastro de crianças nas instituições existentes na comarca. O promotor Luiz Medeiros afirma que a ordem de inscriçãos é sempre considerada, mas não é decisiva. Como o objetivo da adoção é assegurar uma família à criança desassistida, a equipe social age sempre buscando a compatibilidade possível entre o perfil da criança desejada e a família mais adequada. Se o parecer é favorável, o pretendente pode se encontrar com a criança, na própria Vara ou na instituição onde ela vive, conforme a determinação do juiz. São respeitadas as condições da criança, que pode necessitar de uma aproximação gradativa. Caso contrário, o pretendente já pode assumir a guarda provisória. Casais homossexuais O Estatuto da Criança e do Adolescente, editado em 1990, definiu os requisitos exigidos de quem pretende adotar uma criança. ?A lei não discrimina?, diz o promotor Luiz Medeiros, ao ser indagado sobre pretendentes homossexuais. Ele esclarece, porém, que adoção desse tipo não existe, já que ainda não é possível a união civil entre pessoas do mesmo sexo. O que pode ocorrer é a adoção por uma das partes, assim como qualquer pessoa solteira, desde que atendidos os requisitos legais. Podem ser pais adotivos homem ou mulher, maior de 21 anos, 16 anos mais velho do que a criança a ser adotada, não importando seu estado civil, e que ofereça ambiente familiar adequado. A fé e a consciência de cidadania são os motores que movem um casal alagoano a ir freqüentemente ao Juizado legalizar a situação das crianças que chegam a sua casa. Aos 57 anos, Celina de Medeiros Souza, geógrafa, e Cláudio Haddad de Souza, engenheiro aposentado, têm hoje 26 filhos. Três deles, já adultos, e 23 adotivos. ?São meus filhos do coração? - afirma ela, que tem como maior alegria ouvi-los chamá-la de mãe. |BL ### Casal adota 23 e se muda para chácara A primeira criança chegou com poucos meses de vida, deixada na porta de sua residência, no bairro de Ponta Verde, e hoje, aos 13 anos, é um exemplo de que a decisão de adotar ?foi a mais acertada de nossa vida?. Celina revela que o segundo filho adotivo também foi deixado na porta de casa. A partir das duas experiências, ela e o marido decidiram que não deixariam de adotar qualquer criança abandonada. Praticantes do Kardecismo, eles explicam de forma simples a opção de vida que fizeram. ?Jesus nos ensinou a fazer pelos outros o que gostaríamos que fizessem a nós. É isso que praticamos?, afirma a geógrafa, que abandonou a profissão para cuidar integralmente dos filhos. A casa na Ponta Verde foi vendida e o casal e adquirium um espaço maior. A residência já não comportava os 14 filhos. Celina e Eduardo ainda não haviam colocado um ?limite? nas sucessivas adoções, o que fez a família aumentar mais. Hoje eles vivem numa chácara nas proximidades do Aeroporto Zumbi dos Palmares, no Tabuleiro do Martins. A família é mantida com a renda de uma fábrica de biscoitos caseiros e as doações que o casal recebe. ?Temos vários parceiros?, diz Celina, revelando que os 23 filhos, cujas idades variam de oito meses a 13 anos, têm garantida assistência médica e educação. Isso graças à solidariedade de inúmeros profissionais (dentistas, pediatras, oftalmologistas, educadores e outros) que ajudam a garantir um lar a menores que poderiam estar nas ruas. Todos estudam em escola particular. ?A mesma educação e amor que tiveram meus filhos biológicos têm meus filhos adotivos?, afirma Celina Souza, que gostaria de ver o exemplo de sua casa repetido. Afinal, disse ela, muita gente tem condições de receber uma criança carente, nascida de pais excluídos e que não teria chance alguma de ter uma família. Para a dona-de-casa, somente com a oportunidade de um lar, onde aprenderão valores morais, onde receberão amor, atenção, onde possam ser alimentadas, as crianças carentes vencerão a luta contra a marginalidade. ?Não é porque foi adotada que uma criança pode frustrar quem lhe adotou. Isso acontece com filho biológico?, lembra Celina. Na verdade, acredita ela, é o interesse material - dividir bens e patrimônio - que impede muita gente de adotar. |BL

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