Cidades
Filmagem garante divers�o e dinheiro extra em Marechal
| FÁTIMA ALMEIDA Repórter Marechal Deodoro - As filmagens da produção cinematográfica ?A Ilha dos Escravos? mudou a rotina de boa parte da população de Marechal Deodoro. Ruas transformadas, cenários montados, artistas em ação, gente de cara nova por todo lado e renda reforçada. A cidade está movimentada e cheia de novidades nos últimos dias. Num lugar onde o lazer noturno resume-se, praticamente, à televisão ou ao bate-papo na calçada, assistir às gravações do filme virou o programa de muita gente. A euforia vem do inusitado: ver como tudo acontece por trás das câmeras e na frente delas; a possibilidade de assistir, ao vivo, repetidas vezes, à gravação de uma mesma cena, até o ?valeu? do diretor. ?É tanto trabalho para gravar apenas uma frase?, espanta-se a estudante Daniela Gonçalves. Para uns, estar integrado a esse projeto é, simplesmente, poder encontrar no caminho artistas que estão acostumados a ver na tela da TV, como Milton Gonçalves e Zezé Mota. Para outros, a expectativa de aparecer numa ?pontinha? de filme como figurante já é motivo de empolgação. Mas para boa parte, a experiência está valendo pelo dinheiro extra, gerado por ocupações temporárias, que as filmagens trouxeram para Marechal Deodoro. ### Produção contrata 300 para as filmagens A filmagem de ?A Ilha dos Escravos?, uma produção luso-brasileira, envolveu cerca de 500 brasileiros, entre elenco, equipe técnica, figurantes, pintores, carpinteiros e costureiras. Desse pessoal, cerca de 300 pessoas, segundo informações da assessoria de imprensa da produção, são da comunidade local. A seleção para figuração deu trabalho à equipe de apoio. Mais de 500 inscrições de Maceió e Marechal Deodoro. O cachê é pequeno. Em torno de R$ 50 para uma figuração simples; um pouco mais para a figuração especial. Para muitos, o que importa é participar. Tem gente que foi até escalada para participar do grande baile, que vai ser filmado no Palácio do Governo, em Maceió. A comida e a hospedagem também ocupam mão-de-obra. É tudo em Marechal Deodoro. Os veículos e motoristas a serviço da produção fazem parte do apoio logístico do governo do Estado à produção. Para o guia José Messias de Lira, as filmagens significam a possibilidade de ganho extra. Durante o dia inteiro, ele corre de um lado para o outro no espaço do Museu de Arte Sacra, onde são feitas algumas locações e onde foi improvisado o restaurante dos artistas e da equipe técnica do filme. Messias foi contratado, junto com outros colegas, para reforçar a segurança do Museu e dar apoio ao pessoal do filme. Ainda não sabe quanto vai ganhar, mas recebeu a promessa de remuneração da Prefeitura de Marechal Deodoro pelo trabalho. Trabalho temporário O tempo é limitado, mas o trabalho vale a pena. Algumas costureiras, por exemplo, conseguiram dobrar o orçamento doméstico com um mês de muito trabalho. As filmagens começaram há uma semana, mas desde o dia 17 de agosto, elas não param de trabalhar. Doze foram escaladas, e elas já chegaram a produzir até 50 peças por dia de modelos simples, usados pelos escravos. Na fase atual, as roupas estão mais detalhadas, com o requinte das rendas e babados de época. Já se preparam modelos mais arrojados, que serão usados no grande baile. São vestidos, camisas, laçarotes, detalhes de aplicações, tecidos finos e armações, que precisam de um cuidado especial. FAL ### Costureiras tiram as máquinas do baú O resultado é mostrado com orgulho pelas costureiras. ?Ficamos famosas. Estamos conhecidas até fora do Brasil. As pessoas, agora, sabem que em Marechal Deodoro tem costureiras com capacidade para qualquer trabalho?, diz Maria José da Rocha Santos, 57 anos. Anami Vieira já teve até confecção em São Paulo, cujas peças eram produzidas por ela, mas tinha aposentado a máquina e a fita métrica há pelo menos 10 anos. Estava parada, mas voltou à ativa e tomou gosto novamente. Aproveita, com prazer, cada detalhe da nova experiência. Para a maioria dessas mulheres, a costura é parte importante do orçamento doméstico, mas elas confessam que nunca tiveram tanto trabalho de uma vez. Maria José costuma trabalhar cerca de 7 horas por dia na máquina de costura. Diante da responsabilidade de produzir os figurinos do filme, juntamente com as outras companheiras, passou a trabalhar 12 horas. Algum ataque de estrelismo? ?Nenhum!?- garantem. ?São todos muito educados e simples?, diz Maria José Rocha, a ?dona? Zeca, sem esconder um carinho especial pelo ator Milton Gonçalves. ?A gente só conhecia ele pela televisão, de repente ele está aqui, na nossa frente, tirando as medidas, conversando, brincando com a gente. Ele trata todos como iguais?, diz Maria José. Ela não é a única do lugar que se derrete com a simpatia do ator. No pacote das mudanças implementadas à rotina dos cidadãos deodorenses, eles já estão quase se acostumando a encontrar Milton pelas ruas, andando, conversando, cumprimentando e fotografando. As costureiras sabem que sua tarefa está chegando ao fim, e que fizeram bem seu trabalho. Algumas até acham que já dá para requerer uma ?ponta? na rica história de Marechal. ?Estamos querendo pedir que eles deixem algumas dessas roupas produzidas por nós para o acervo do museu. Seria bom que as pessoas, no futuro, vissem nosso trabalho?, diz Anami Vieira. ### Semelhanças com Portugal e Cabo Verde A escolha de Marechal Deodoro para a maioria das locações no Brasil não se deu por acaso. ?A cidade e os costumes são muito parecidos com os de Cabo Verde?, comentava uma jornalista de uma equipe portuguesa que fazia reportagem sobre as filmagens na cidade alagoana, na última quarta-feira. A produção já havia percebido isso e muito mais: a tranqüilidade e o patrimônio religioso que, embora mal conservado, resiste em Marechal Deodoro, oferecem cenários que não se encontram mais em Cabo Verde, e isso foi decisivo em favor da escolha da antiga capital alagoana para as filmagens no Brasil. A assessoria de comunicação da produção afirma também que a escolha de uma cidade alagoana é uma espécie de tributo ao herói negro Zumbi dos Palmares, cuja história de luta pela liberdade apaixonou o diretor português de A Ilha dos Escravos, Francisco Manso. Para constituir o ambiente do filme, foram montados, em Marechal Deodoro, nove cenários interiores e exteriores. Casas antigas receberam pintura nova com as cores do século XIX e mobília específica da época. É numa dessas casas, a poucos metros de onde nasceu Manuel Deodoro da Fonseca, que fica a fictícia casa de Albano (Diogo Infante), e a taberna do Tesoura, personagem de Milton Gonçalves. Os elementos de cena são quase todos daqui, de Marechal Deodoro e Maceió. Na taberna tem lingüiça pendurada, candeeiros daqueles que se usam nos locais sem luz elétrica, sacas de milho, feijão e farinha de mandioca, artesanato de barro, peixe seco na peneira, tudo como ainda se encontra e alguns recantos do interior de Alagoas. As filmagens começaram há uma semana, mas o burburinho na cidade começou há mais de um mês. Reconhecimento e marcação de áreas, recrutamento de pessoal, reuniões com moradores e adaptações de cenários que mexem com a vida de muita gente. ### População se integrou à vida de artista Postes de iluminação pública foram retirados das calçadas, deixando a rua no escuro, tudo para tornar o cenário mais autêntico. Os bancos da Praça da Matriz foram retirados e montes de areia estão prontos para cobrir a área, próximo à Igreja de Nossa Senhora da Conceição, conturbando um pouco a passagem para a missa do domingo. As casas, mesmo aquelas bem conservadas, com pintura nova, ao gosto do dono, receberam uma nova camada de tinta, aos moldes do filme. Ao término das filmagens, os donos escolhem: ficam com a pintura feita para o cenário do filme ou ganham de volta a pintura anterior. Tudo isso incomoda os moradores? É claro que sim. Para garantir as gravações, alguns trechos foram interditados. Os veículos não conseguem chegar até a porta de casa ou da garagem. Guardas de trânsito reorientam o percurso. Na hora das gravações, os vizinhos reais dos moradores fictícios não podem sair de casa se o imóvel estiver dentro do circuito da cena. Sem traumas Mas tudo isso sem traumas. Na balança, pesa mais o sentimento de orgulho de estar sediando uma produção cinematográfica de nível, e o retorno que isso trará à cultura e ao turismo de Marechal Deodoro e de Alagoas. ?Não me atrapalhou em nada. A rua está fechada desde segunda-feira, mas os turistas entram pelo outro lado?, diz a comerciante de artesanato Evanilda Costa de Alcântara. Depois, ela espera mais turistas, que deverão ser atraídos pela divulgação que o filme vai fazer da cidade. Por enquanto, ela se anima vendo os artistas passarem na sua porta, gente nova e toda a movimentação na cidade. A integração entre visitantes e comunidade foi fruto, também, de um trabalho prévio feito pela equipe com a população, quebrando possíveis resistências. O transtorno, para a maioria, é superável e tem suas compensações. As pessoas têm até cooperado, garante a assessoria de imprensa da produção, assegurando que o pessoal da filmagem não tem enfrentado problemas com a população, nem mesmo na hora de gravar. Às vezes a aglomeração é grande ao redor do set, sobretudo à noite. Todos querem ver e o barulho é inevitável. Mas as pessoas sempre cooperam e atendem aos pedidos de silêncio emitidos pelo megafone. O sentimento geral é de que os pequenos transtornos se justificam. Até porque, é por pouco tempo. A previsão é de gravações no Brasil até o início de outubro, incluindo as cenas que serão feitas em Maceió, onde dois décors foram adaptados no Palácio do Governo e na fazenda Casa do Pilar. A partir daí, a equipe segue para Cabo Verde, na África, onde se desenrola grande parte da história.