Cidades
Despejo continua rondando pescadores
| MARCOS RODRIGUES Repórter A situação das famílias que residem na Vila de Jaraguá ainda é incerta. A tradição de quem cresceu tendo o mar à porta como garantia do sustento permanece sob ameaça. Se na gestão da ex-prefeita Kátia Born as 300 famílias acalentavam a esperança de serem contempladas com o projeto de urbanização do bairro, agora, a realidade é a do despejo. A solução definitiva sairá numa reunião no dia 3 de novembro. Ontem, uma comissão da favela se reuniu com membros da Prefeitura e dos ministérios públicos Federal e Estadual, mas não conseguiu chegar a um acordo. Enquanto a comissão negociava com as autoridades numa sala do Ministério Público Estadual, do lado de fora cerca de 150 pessoas fizeram um protesto pacífico, defendendo a permanência na Vila de Jaraguá, situada próximo ao prédio da Associação Comercial de Maceió. A única certeza, por enquanto, é que os órgãos municipais não vão implementar nenhuma ação sem antes discutir novas saídas para o problema. Segundo o secretário Municiapal de Habitação, Nilton Pereira, qualquer decisão dependerá de estudos. Ele não quis antecipar nenhuma opinião sobre o assunto. ?Vamos acompanhar as discussões, principalmente, com a Secretaria de Planejamento?, disse Nilton. A proposta inicial discutida durante a reunião e negada pelos moradores foi a de transferi-los para a Praia do Sobral. Eles preferem ficar onde estão e alegam defender a tradição das gerações. ?Estamos defendendo um local que herdamos dos nossos pais. Todos nós crescemos ali e vivemos do nosso trabalho?, enfatizou um dos representantes da Associação de Moradores, Josuel Félix. Ele disse, ainda, que a comunidade tem consciência do papel que desempenha no contexto histórico do bairro de Jaraguá. Um outro argumento utilizado pelo líder comunitário envolve a sobrevivência das famílias. ?Nós não dependemos de nenhum segmento do poder público. Não precisamos do governo porque conseguimos nos sustentar?, completou Félix. SOBREVIVÊNCIA A idéia de transferência do local atual amedronta os moradores. Eles afirmam que outras famílias já foram retiradas da favela, mas não se adaptaram. O pescador José Cícero dos Santos, 52, lembrou que quem foi transferido para o Conjunto Carminha, no Benedito Bentes, está sem condições de trabalhar. ?Ficaram longe de onde poderiam conseguir trabalho. O resultado é que estão abandonados e passando fome?, afirmou José. Ele, como a maioria dos moradores, cresceu à beira-mar. A única atividade que domina é a pesca, que herdou do pai, ensinou aos filhos e, agora, aos netos. ### Especialistas são contra transferência A luta dos moradores da Vila de Jaraguá não é mais solitária. Eles contam com o apoio de professores universitários de instituições públicas e privadas. Para estes segmentos, a defesa da permanência é legítima por suas relações históricas. Essa característica e a polêmica que cerca a permanência das famílias, numa das áreas nobres da capital, atraíram o psicólogo e professor Parmênedes Justino a desenvolver uma pesquisa na comunidade. Mestrando do curso de Ciências Sociais, ele desenvolve uma tese em que estuda os impactos sociais e o ?perfil afetivo da remoção? das famílias. Como parâmetro para o trabalho, ele tem utilizado as informações sobre as famílias que aceitaram ser transferidas de Jaraguá para o Conjunto Carminha. Esse envolvimento o levou, ontem, a também participar da reunião entre moradores e autoridades municipais e com os representantes dos ministérios públicos Federal e Estadual. ?A vila é o cordão umbilical da cidade de Maceió. É graças a sua existência que se atribui o surgimento da povoação do bairro de Jaraguá?, refletiu Parmênedes, que defenderá o trabalho no próximo dia 14, na Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Estudos Os estudos com os moradores envolvem núcleos do curso de Direito da Ufal e ainda estudantes do Faculdade de Alagoas (FAL). Segundo um senso realizado por estudantes da FAL, em 2002, 901 pessoas foram catalogadas. À época, aproximadamente 400 crianças moravam no local. Os números revelaram ainda que a maioria dos adultos é analfabeta. A Pró-reitoria de Extensão da Ufal é quem coordena a participação dos estudantes. |MR