Cidades
Vigil�ncia Sanit�ria alerta para o uso de ervas medicinais
FÁBIA ASSUMPÇÃO Repórter Dor de cabeça, de estômago, de dente, inflamação no útero, colesterol, hipertensão e até impotência sexual. A cura desses e outros males do corpo, e até da alma - como mau olhado - é procurada por muita gente nas ervas medicinais. Andando em meio a inúmeras barracas da tradicional feira dos raizeiros, instalada há anos na área em torno do Mercado da Produção, é possível encontrar remédio para tudo. Mas a idéia de que por ser natural, o uso das chamadas plantas medicinais não causa mal a saúde não pode ser levada ao pé da letra. É preciso ter cautela ao usar os chamados ?medicamentos naturais?, porque assim como os remédios alopáticos (fabricados em laboratório, a partir do uso de substâncias químicas), as plantas também possuem princípios ativos, que quando não bem utilizados podem causar efeitos colaterais, como qualquer outro medicamento comprado em farmácia sem acompanhamento médico. A fitoterapia (utilização de vegetais em preparações farmacêuticas) acompanha a humanidade desde os povos primitivos, que já utilizavam plantas medicinais para curar doenças. Por causa do crescimento do consumo dos fitoterápicos, a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) estabeleceu regulamentação para garantir a qualidade desse medicamentos. Um dos critérios obrigatórios é a comprovação da eficácia e segurança dos medicamentos fitoterápicos. SABEDORIA POPULAR O médico Antônio Piranema Pedrosa, coordenador do projeto de extensão do Departamento Social da Universidade Federal de Alagoas sobre medicamentos fitoterápicos, teve sua curiosidade sobre o uso de plantas medicinais despertada quando passou a acompanhar o trabalho de equipes do Programa Saúde da Família (PSF). ?Percebi que grande número de pessoas usa ervas como medicamento?, observa o médico. Segundo ele, estima-se hoje que 80% da população usa ervas com fins medicinais. E entre pacientes que procuram atendimento nos serviços médicos, 1/3 usam fitoterápicos. Ele afirma que não se pode desprezar a sabedoria popular, mas é preciso ter cuidado com o uso das plantas medicinais, principalmente associado com medicamentos alopáticos. Segundo Piranema, o preconceito ou puro desconhecimento faz com que muitas vezes o paciente que usa plantas medicinais omita essa informação ao médico. ?A pessoa pode estar tomando algo que pode anular os efeitos do medicamento prescrito pelo médico?, ressalta. ?Muitas pessoas desconhecem que o uso dessas plantas de forma desordenada pode trazer sérios riscos à saúde?, alerta. Pesquisas mostram que indivíduos mais vulneráveis - como crianças, mulheres grávidas ou em lactação - devem evitar o consumo de plantas medicinais. Caso surjam efeitos adversos da medicação natural, o tratamento deve ser suspenso imediatamente. GARRAFADAS Piranema alerta também para o cuidado ao ingerir as chamadas garrafadas (mistura de várias ervas com substâncias alcóolicas), muito encontrada nas feiras de raízes. ?Já ficou comprovado que a mistura de várias ervas não é aconselhável, pois resíduos de substâncias nocivas dessas plantas podem provocar, com o uso prolongado, problemas renais e hepáticos?. Ele ressalta, no entanto, que os poderes medicinais de algumas plantas já são reconhecidos cientificamente e seus princípios ativos são utilizados até pelos grandes laboratórios de medicamentos. Mas em Alagoas as pesquisas sobre as plantas medicinais ainda estão engatinhando. ?Já existem estados onde o estudo sobre o uso dos fitoterápicos está avançado?. O professor da Ufal ressalta também que a falta de investimentos em pesquisas coloca o Brasil na rota da biopirataria. ### Ufal tem horta para plantas medicinais Muitas plantas brasileiras já estão sendo patenteadas por laboratórios estrangeiros para produção de medicamentos. Para estimular pesquisas na área, a Coordenação de Medicina Alternativa da Ufal está desenvolvendo projeto de uma horta de plantas medicinais. ?Mas estamos tendo dificuldades para conseguir financiamento do projeto?. Muitas das sementes de plantas selecionadas para estudo foram obtidas na Escola Agrotécnica de Satuba, que desenvolve projeto semelhante. Damião Alexandrinho de Góis é um dos responsáveis pela horta de plantas medicinais da Ufal. Ele trabalha como voluntário no ambulatório de Medicina Alternativa do Hospital Universitário e se considera um raizeiro. Damião sabe de cor receitas para o uso das plantas medicinais como chás, lambedores (mistura à base de mel) e garrafadas (mistura de várias ervas com substâncias alcóolicas). ?Não se pode guardar chá na geladeira. O chá deve ser tomado no período de 12 horas após o preparo?, orienta Damião. Na Feira dos Raizeiros é possível encontrar raízes e folhas ao natural ou já transformadas em óleos, sabonetes e pomadas. O preço desses produtos é um dos atrativos para que muitas pessoas procurem esses tipos de medicamento. Um potinho de pomada custa R$ 2; uma garrafada custa cerca de R$ 15 e um molho de ervas como babatimão, aroeira e outras sai por até R$ 0,50. Os produtos vendidos pelos raizeiros são os mais variados possíveis. Pomadas à base da cânfora; sabonetes de aroeira para tratamento de cravos e espinhas; óleo de mastruz para tratamento de verminose; óleo de coco para hidratar a pele e óleo de alho, usado como expectorante, contra gripe, resfriado, tosse, bronquite, coqueluche e até controle da pressão arterial.