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Nordeste protesta contra a transposi��o

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MAIKEL MARQUES FERNANDO VINÍCIUS Repórteres Cabrobó (PE) e Penedo - Os 504 anos do Rio São Francisco foram marcados, ontem, por manifestações em estados que formam a sua bacia, entre eles Alagoas, Pernambuco, Sergipe e Bahia, com atos públicos contra o projeto de transposição do rio, já na iminência do começo das obras. A peça maior de resistência ocorreu em Cabrobó, a 600 km do Recife, onde o frei franciscano dom Luiz Cappio, bispo da cidade de Barra (BA), completa hoje nove dias em greve de fome contra a transposição do rio. Diante das imprensas nacional e internacional, Cappio festejou também seus 56 anos, com missa campal em uma capela às margens do Velho Chico. Ele ratificou o compromisso de só encerrar a greve de fome quando o governo federal, por intermédio do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, assinar documento revogando a decisão de tocar o projeto de transposição das águas do Rio São Francisco para o semi-árido da Paraíba, do Rio Grande do Norte e do Ceará. Penedo e Maceió Em Penedo, a Central de Organizações de Agricultura Familiar do Baixo São Francisco mobilizou a cidade com uma manifestação de estudantes, pescadores, religiosos e populares, no porto das barcas (leia mais na página 14). Em Maceió, um núcleo da Comissão Pastoral da Terra (CPT), permaneceu em jejum durante todo o dia, em solidariedade ao bispo Luiz Cappio. ?A esperança é a última que morre?, assinalou o bispo Luiz Cappio à reportagem da Gazeta, em Cabrobó. Cappio chegou ao sertão do Nordeste há 40 anos, vindo de São Paulo, e durante quase dois anos percorreu todo o trajeto do Velho Chico, da nascente à foz. Questionado sobre o mito que se formou em torno de sua figura, por ter adotado gesto extremo, dom Luiz mandou um recado à imprensa. ?O que vocês precisam divulgar é o propósito de minha atitude, que é lutar contra o projeto de transposição das águas do Rio São Francisco. Sou apenas um pequeno instrumento de uma causa maior que é o rio e o sofrido povo ribeirinho?, explicou, dom Luiz Cappio, que não se alimenta desde o dia 26 de setembro. ?O senhor é forte. Estamos com você. Apoiamos sua luta e seu propósito?, clamou um dos fiéis que aguardavam, pacientemente, o momento de beijar a mão do religioso que comanda a Diocese de Barra (BA) há pouco mais de oito anos, mas que escolheu a humilde capela de São Sebastião, em Cabrobó, no sertão pernambucano, para protestar contra o projeto que vem sendo conduzido pelo cearense Ciro Gomes (PPS), atual ministro da Integração Nacional. ### Frei Cappio promete resistir até a morte Cabrobó - Em nove dias de absoluto jejum - dom Cappio bebe apenas água do São Francisco - o religioso recebeu a visita de centenas de políticos locais e de expressão nacional. Foram beijar sua mão os senadores Heloísa Helena (P-Sol) e Teo Vilela (PSDB) - contrários ao projeto - além de Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) e de políticos locais. Ontem foi a vez do governador de Sergipe, João Alves Filho (PFL), um dos maiores críticos do projeto de transposição das águas do Velho Chico. Com relação à possibilidade de o governo federal não voltar atrás na decisão de viabilizar o projeto, dom Luiz Cappio manteve sua atual posição. Ele se utilizou das palavras do papa João Paulo II para explicar que não voltará atrás em sua decisão. ?Certa vez, o papa afirmou que Jesus Cristo não desceu da cruz. Digo a mesma coisa hoje a todos vocês. Que Deus me ajude a não descer desta cruz. Estou firme. Vou me manter firme?. Amparado pela família - todos os seus três irmãos vieram ao Sertão - e por lideranças religiosas de todo o Nordeste, dom Luiz Cappio manteve, durante todo o dia de ontem, o bom humor e o olhar fixo e firme no semblante dos que o parabenizavam pelo gesto. Quanto ao seu estado físico, dom Luiz, com sorriso aberto e respiração profunda, avisou. ?O espírito permanece muito forte. O corpo já dá sinais de debilidade?, definindo seu próprio estado de saúde. Firme no propósito de só encerrar a greve de fome diante do envio de documento do governo federal revertendo o projeto, o bispo dom Luiz foi questionado pela Gazeta com relação à possibilidade de se tornar um mártir. ?Acho que o principal mártir é o povo nordestino. Essa gente vive martirizada há tanto tempo?, completou. Segundo apurou a Gazeta, dom Luiz também registrou em cartório documento ratificando o compromisso. ?Permanecerei em greve de fome até a morte, que só será encerrada mediante documento do presidente revogando o projeto de transposição. Caso venha a falecer, que meus restos mortais sejam sepultados junto a Bom Jesus dos Navegantes, em minha diocese, na cidade de Barra?, afirmou. MM ### CPT diz que governo vai rever posição Cabrobó - O bispo de Goiás (GO), dom Tomás Balduíno, que também é coordenador nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), afirmou à Gazeta que o gesto de dom Luiz Cappio é mobilizador. ?O gesto vem da base popular. É de baixo para cima. Era o que faltava para despertar o povo nordestino e brasileiro para barrar o projeto de transposição. Cedo ou tarde, acredito que o governo federal vai rever sua posição?, afirmou o religioso. EXEMPLO Dom Tomás Balduíno, que é um dos maiores articuladores dos movimentos sociais de base no País, afirmou que o gesto do bispo tem semelhança com a eclosão de movimentos sociais que trouxeram grandes reflexos na história de países como Bolívia e Venezuela. Além dos milhares de fiéis católicos e defensores da revitalização do São Francisco, dom Luiz Cappio também recebeu, ontem pela manhã, solidariedade de políticos de todo o País, dentre os quais o ex-ministro José Sarney Filho, o deputado federal Fernando Gabeira (PV) e João Alves Filho, governador de Sergipe e principal crítico do projeto de transposição em todo o Nordeste. Briga na justiça Escolhido para discursar durante missa campal, celebrada pelo próprio dom Cappio, o governador disparou contra o projeto do governo federal e contra os defensores do projeto. João Alves também confirmou à Gazeta que o governo de Sergipe contratou o jurista Ives Grandra Martins para mover ações judiciais contra o projeto de transposição. ?Vamos mover pelo menos três ações para tentar barrar o projeto?, prometeu o político. Ao final de sua fala, o governador sergipano - que patrocinou a viagem de mais de 1.500 pessoas a Cabrobó - pediu a dom Cappio que encerrasse a greve de fome. ?Pelo amor de Deus, suspenda essa greve por alguns dias. O senhor é nosso símbolo. Precisamos do senhor vivo para vencer essa luta contra o governo?, finalizou. Até ontem à tarde, dom Cappio mantinha sua greve de fome. |MM ### Em Penedo, igreja critica posição de Lula e transposição Centenas de pessoas reuniram-se ontem pela manhã em Penedo para protestar contra o projeto do governo federal referente à transposição de águas do Rio São Francisco. Estudantes de escolas públicas e particulares foram liberados das aulas para acompanhar a manifestação que tomou as ruas da cidade histórica e terminou no porto das balsas. Organizado pela Central das Organizações de Agricultura Familiar do Baixo São Francisco o protesto contou com apoio de empresas privadas, órgãos estatais, prefeituras, câmaras de vereadores, colônias de pescadores e pequenos produtores rurais da região. Um carro de som foi utilizado para repercutir a indignação contra a obra que promete levar água para populações do Semi-árido que vivem no CE, RN e PB. O bispo de Penedo, dom Valério Breda, lembrou de um encontro que teve com o presidente Lula, oportunidade em que expôs as dúvidas que pairam sobre o projeto. ?Depois da explanação, não sei se por cinismo ou se por outra razão, ele (Lula) nada respondeu?, declarou. Para o coordenador da Central das Organizações de Agricultura Familiar do Baixo São Francisco, Antenor Nerys, a manifestação alcançou seu principal objetivo, que era alertar as populações da região sobre a transposição. Ele declarou que se depender da vontade do governo Lula o projeto será iniciado, mas acredita que a mobilização nacional será capaz de barrar o processo. Nerys aproveitou para criticar a operação que pretende dessassorear o rio no trecho usado para a travessia de balsas entre Penedo e Neópolis-SE. FV ### Religiosos alagoanos seguem em jejum A greve de fome do bispo diocesano de Barra (BA) Luiz Flávio Cappio repercutiu em Alagoas e recebe a adesão de membros da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que fizeram jejum de 24 horas, contra o projeto de transposição da águas do Rio São Francisco. Treze integrantes da CPT em Alagoas começaram o jejum na noite da última segunda-feira em solidariedade ao bispo. ?Resolvemos ficar em sintonia com a ação do dom Luiz, que é extrema, mas no sentido de doação. O jejum e a oração têm força?, ressaltou o coordenador estadual da CPT, Carlos Lima. Desde que resolveram fazer jejum, os membros da comissão tomam apenas a água de um pote de barro. O objeto, segundo a coordenação da CPT, simboliza a luta do bispo que faz greve de fome em Cabrobó (PE) desde o dia 26 do mês passado. ?O pote vai ficar aqui durante todo o período que dom Luiz estiver fazendo greve de fome?, informou Carlos Lima. Alguns integrantes da comissão ficaram abatidos e fracos, mas conseguiram cumprir a meta de permanecer 24 horas em jejum. ?Nós torcemos e vamos nos mobilizar para que o objetivo dele (do bispo) seja alcançado. Muita gente está sensibilizada com a atitude dele?, disse Lima. A CPT acredita que o projeto do governo federal de transpor as águas do Rio São Francisco não vai beneficiar os mais pobres. Segundo a comissão, a obra vai atender muito mais a interesses de pessoas que visam ao agronegócio. ?O rio não pode doar água. Ele precisa ser protegido. Esse projeto de transposição é uma balela, não vai ajudar os mais pobres?, definiu o coordenador da comissão em Alagoas. A irmã franciscana Elisabeth Raimundo é uma das que aderiram ao jejum e disse que os incômodos foram facilmente superados. ?A gente sente fome, mas quando é por uma causa, a fome é uma coisa secundária?, resume a religiosa. Os membros da CPT reforçaram que o jejum é uma prática normal entre os religiosos católicos. ?Acreditamos que o objetivo de revogar o projeto de transposição pode ser alcançado. Isso é o que deseja o bispo e nós, da Comissão Pastoral da Terra, que desde o início fomos contrários à transposição proposta pelo governo?, concluiu Carlos Lima. RC ### Deputados de Alagoas vão a Cabrobó A Assembléia Legislativa do Estado (ALE) deverá enviar, ainda esta semana, um comissão parlamentar à cidade de Cabrobó, em Pernambuco, para prestar solidariedade ao frei franciscano Luiz Flávio Cappio, bispo de Barra, na Bahia, que está em greve há nove dias. O frei protesta contra o projeto de transposição das águas do Rio São Francisco, encampado pelo governo federal. O representante da Frente de Defesa do São Francisco e Contra a Transposição em Alagoas, deputado Francisco Tenório (PMN), durante a sessão de ontem da ALE, solicitou ao presidente da Casa, deputado Celso Luiz (PMN), que designasse a comissão que vai visitar o frei Luiz Flávio. O deputado, que integrará a comissão, espera a companhia do deputado Padre Eraldo Carneiro (PSB), representante da Igreja Católica, e do deputado Jota Cavalcante, membro da Igreja Evangélica, além de outros parlamentares interessados na questão. ?A Casa tem dois representantes religiosos, vou solicitar aos dois que nos acompanhem. Mas é interessante que compareça uma comissão robusta de deputados?, disse Tenório. Da visita ao frei, Tenório espera elaborar um documento a ser encaminhado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. ?Dessa visita in loco, nós deveremos elaborar um relatório e quem sabe até um comunicado da situação que encontrarmos ao presidente República também nos solidarizando e pedindo a compreensão do presidente, que deverá nesse momento repensar a questão da transposição do Rio São Francisco?, explicou o deputado. A intenção de Francisco Tenório é partir amanhã ou sexta-feira, um vez que as condições físicas do religioso tendem a se agravar rapidamente. Em seu pronunciamento, o deputado leu a íntegra da carta enviada pelo frei ao presidente Lula. A carta foi recebida pelo presidente na última segunda-feira, mas não pareceu ter surtido o efeito esperado. Na carta, o bispo avisa que a greve de fome só será suspensa mediante documento assinado pelo presidente revogando e arquivando o projeto de transposição. ?Assumo o próposito de entregar minha vida pela vida do Rio São Francisco e seu povo?, disse o bispo em sua mensagem. PV ### Governo sob pressão pode adiar projeto EDUARDO SCOLESE Agência Folha Entidades e movimentos sociais que no auge da crise política se colocaram ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva engrossaram o coro da Igreja Católica para forçar o Palácio do Planalto a pelo menos adiar o início das obras de transposição do rio São Francisco. Ao lado da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), estão nessa lista MST, CUT, UNE e a Central de Movimentos Populares. Ontem, Lula sentiu de perto essa pressão. Enquanto aguardava o colega de Cabo Verde no alto da rampa do Planalto, o presidente ouviu, bem à sua frente, na Praça dos Três Poderes, um grupo de padres, freiras e integrantes de movimentos sociais gritarem em coro o nome do bispo Luiz Flávio Cappio, 59, que está em greve de fome há nove dias contra o atual projeto de transposição do rio que corta o Nordeste. ?Dom Cappio? e ?São Francisco?, gritavam os manifestantes. Carta Uma hora depois, no Itamaraty, ainda na seqüência da visita do presidente cabo-verdiano, Lula sinalizou que já tomou as iniciativas necessárias sobre o caso. Primeiro, ao ser questionado se pretende se encontrar com dom Cappio, afirmou: ?Eu já mandei uma carta pra ele?. Depois, indagado se o jejum do bispo era uma atitude autoritária, disse: ?Eu não vou fazer este julgamento?. Segundo auxiliares do Planalto, Lula sabe que está numa situação delicada. Se atender aos apelos de dom Cappio e engavetar o projeto de transposição, estará abrindo um precedente perigoso para futuras pautas polêmicas, além de abandonar uma das prioridades de seu governo. Mas, caso seja intransigente na negociação, pode ser responsabilizado pelas conseqüências da greve de fome. No comando da manifestação em frente ao Planalto, Delci Franzen, da Pastoral Social da CNBB, traçou um cenário pessimista a Lula. ?Se acontecer uma tragédia [com dom Cappio], acabou esse governo para o Nordeste.? A pressão ao Planalto tem se intensificado a cada dia. Ontem à noite, em reunião em Brasília, movimentos sem-terra prometeram organizar barricadas em diferentes rodovias e pontes próximas e que cruzem o Rio São Francisco.

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