Cidades
Residentes aprendem a salvar vidas
| MARCOS RODRIGUES Repórter O dia-a-dia caótico de um hospital público, que vive do sacrifício e da lentidão no repasse de verbas públicas, esconde uma luta diária travada pelos médicos residentes que salvam vida enquanto se especializam. Por um salário em torno de R$ 1 mil, eles são a alma dos hospitais e dos plantões de fim de semana. Em Alagoas as residências oferecidas são realizadas no Hospital Universitário (HU) e na Universidade de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal). A troca saudável, entre necessidade de aprender e a vontade da população em ter atendimento, cria as condições ideais para a formação acadêmica. ?Na residência, o médico aprende a hierarquia da profissão. A postura que deverá adotar com o paciente, como deve se vestir, se apresentar. Além de compreender a missão que terá ao longo de sua vida profissional?, diz o chefe do Departamento de Cirurgia Geral do Hospital Universitário, Alberto Fontan. Essa etapa na vida de qualquer profissional é marcante. O próprio professor Fontan relembra quando atuou no Hospital dos Servidores, Rio de Janeiro. À época, 1970, ele conheceu o médico Ivo Pitanguy, que começava a dar os primeiros passos na cirurgia plástica e se notabilizou quando atendeu vítimas de um incêndio num circo. Para o médico, que hoje orienta residentes, esse trabalho vai além de ensinar as técnicas. ?Passamos os conceitos da ética médica e, principalmente, os de humanização, já que a maioria dos nossos pacientes é humilde e exige atenção diferenciada?. Os profissionais chegam a morar em pequenos alojamentos para conseguir dar conta da pesquisa, estudo dos casos acompanhados e o atendimento. A morada nos hospitais dura, no mínimo, dois anos, mas em algumas áreas já estão sendo exigidos três anos de acompanhamento. Durante esse período o médico será acompanhado e acompanhará outros profissionais em seus procedimentos. É uma espécie de aprender fazendo. O envolvimento é tanto que mesmo longe das unidades profissionais, mestre e aprendiz dividem informações sobre os pacientes que estão tratando. ### Dificuldades revelam os profissionais Ingressar numa residência renomada ajuda, inclusive, a projetar o futuro especialista, mas requer sacrifícios, como abdicar da família e, muitas vezes, da diversão. Esses momentos são substituídos pelo descanso que será necessário para o próximo plantão de 24h, que, normalmente, caem nos fins de semana. Para compor uma equipe médica, em qualquer especialidade, o residente enfrenta um segundo vestibular. A concorrência para o ingresso nas faculdades se repete. ?É uma peneira cada vez mais difícil. Nossa realidade mostra que só 30% dos que concluem conseguem ingressar numa residência?, diz o diretor-técnico do Hospital Universitário, Paulo Luiz Teixeira. Aprendizado O aprendizado durante a residência, além de ser direto com os profissionais que já dominam a especialidade, reflete no trabalho do próprio residente. Isso porque eles também dividem conhecimentos com os futuros médicos que participam de algumas aulas práticas. Além disso, como desenvolvem suas atividades em hospitais públicos eles acabam lidando com a realidade difícil de quem depende da burocracia para funcionar. No caso do Hospital José Carneiro isso é visível. Segundo o vice-diretor, Eraldo Tenório, a unidade atende 50% acima da cota que é remunerada pelo Ministério da Saúde. ?Ainda assim não deixamos de oferecer nossa residência e primamos pela humanização e qualidade no atendimento. Aqui contamos com duas especialidades: clínica cirúrgica e pediátrica. E estamos na perspectiva de implantar a residência em clínica médica?, disse Tenório. Com uma estrutura física de 40 anos, o hospital tem repasses de R$ 140 e 145 mil, que ainda sofrem atraso. Mensalmente, o José Carneiro fecha com um déficit de R$ 40 mil. As dificuldades financeiras, entretanto, não interferem no ritmo de trabalho. Pelo contrário, é motivo de envolvimento de médicos e residentes. O envolvimento com a vida hospitalar, desde a falta de equipamentos até insumos, acaba por revelar a capacidade de superação dos profissionais. O médico cardiologista José Wanderley Neto conta que quando foi se especializar no Rio de Janeiro, 1974, no Instituto de Cardiologia, foi orientado pelo professor Jesse Teixeira. Lá, ao lado do mestre, viveu períodos difíceis com a falta de materiais. Até espaço adequado para ficar alojado era problema. Não foram poucas as vezes que ele teve de dormir no chão, apenas num colchonete. Os primeiros procedimentos cardíacos eram realizados em cachorros. ?Mas isso não era motivo para desanimar. Partíamos para resolver. Teve um momento que precisávamos de uma válvula usada nos procedimentos e não a possuíamos. Fui enviado a São Paulo para aprender e nos tornarmos autônomos?, contou Wanderley. O esforço deu certo. O envolvimento com a equipe do hospital projetou José Wanderley a ponto de ele ser adotado pela equipe do médico cardiologista Eurípedes Jesus Zerbine, anos depois. ?Tive a chance de aprender com um ex-aluno dele e em seguida eu mesmo estava ao seu lado, acompanhando alguns procedimentos. Os mesmos que hoje ensino, porque essa ainda é a melhor maneira de aprender?, declarou o cardiologista responsável pela formação de 70% dos profissionais que atuam nesta área no Estado.|MR ### Rotina árdua não é empecilho; ajuda E o filme se repete. A Gazeta encontrou no HU o médico baiano Leonardo Gomes, 26, oriundo do município de Tabatinga. Na cidade há sete meses, ele foi o primeiro colocado na seleção que teve 72 inscritos, para cirurgia geral. O jovem médico recebe uma bolsa de R$ 1.286 para uma rotina de trabalho que começa cedo, visitando o ambulatório e os pacientes operados pelo seu tutor o médico Alberto Fontan. Ao todo são 60h semanais que incluem 14 plantões. A distância da família é uma barreira, mas Leonardo está decidido a ir até o fim. ?Ainda não decidi se vou fazer cirurgia plástica. Como a cirurgia-geral é a base para essa outra especialidade, estou achando tudo gratificante?, revela. A rotina em Alagoas é dividida com o médico e professor Vinícius Murtinho. ?Foi ele quem me incentivou. Estou sempre conversando sobre o que tenho feito por aqui. Como não sou de família de médicos, pego orientações com ele?, diz Leonardo com um olhar saudosista. Caso realmente opte por se especializar em cirurgia plástica, Leonardo terá de se submeter a uma nova seleção e estudar mais três anos a especialidade médica. Monitoramento E a tendência é que o tempo aumente ainda mais. Segundo a médica Márcia Rebelo, as novas tecnologias têm aumentado o período de especialização. Ela integra a Comissão Estadual de Residência Médica, do Conselho Regional de Medicina, responsável pelo acompanhamento e fiscalização das atividades. ?Analisamos as condições de trabalho, as instalações, o número de horas trabalhadas. Isso influencia no credenciamento ou descredenciamento de uma residência?, explicou Márcia. Para ela, a seleção pública para as vagas também representa a perspectiva de inclusão de profissionais com mais condições. ?O resultado sem dúvidas será sentido no atendimento porque ajuda a melhorar o quadro clínico?, finalizou. |MR