Cidades
Capital resiste � mudan�a de h�bitos
| REGINA CARVALHO Repórter Profissões antigas resistem ao tempo quase que heroicamente em Maceió. Cada vez mais raras de serem encontradas, elas são exercidas com dedicação por apaixonados pelo ofício, que driblam dificuldades financeiras na tentativa de retirar o sustento a partir dos serviços hoje escassos. Um rápido passeio por alguns trechos de Maceió e lá estão alguns segmentos que hoje são considerados inusitados, mas que sem os quais era impossível viver, a exemplo de alfaiatarias, barbearias e estabelecimentos que consertam máquinas de escrever. Edson Lites do Nascimento, de 82 anos, o ?seu? Edinho, é um senhor de muitas histórias. Aposentado, viúvo há menos de dois anos e proprietário de uma barbearia no bairro da Levada desde 1937, ?seu? Edinho parou de trabalhar há dois anos, após 68 anos se dedicando à profissão. ?Queria trabalhar por 70 anos, mas o físico não me permite?. O movimento em seu salão foi intenso, segundo ele, até a implantação do Plano Real, em 1994. De lá para cá caiu quase 90%, segundo sua avaliação, devido às dificuldades financeiras da população. Onde antes trabalhavam seis funcionários, hoje existem apenas dois. ?Tem gente por aí que hoje corta cabelo por um real. Antes muitas autoridades vinham aqui?, diz ?seu? Edinho, que tem dois netos e uma filha médica. Ele também atribui à violência no bairro da Levada, onde fica sua barbearia, o afastamento de seus clientes vips. ?Acho que por causa da violência eles deixaram de vir?, julga ?seu? Edinho, mostrando objetos que ainda utiliza no seu salão, alguns deles comprados há mais de 40 anos. Papo bom O funcionário público Valdir dos Santos, 68 anos, é um dos clientes mais antigos do salão de ?seu? Edinho. ?O diferencial daqui é a conversa, que sempre é muito boa. A gente acaba criando laços de amizade?, relata. Hoje, ?seu? Edinho apenas acompanha o serviço na sua barbearia. O técnico em tomografia Ulisses de Oliveira Silva freqüenta o salão de ?seu? Edinho há três anos. Foi levado quando ainda era criança por seu pai, de 72 anos. ?Aqui é bom. A gente bate um papo muito bom, põe os assuntos em dia. Por ser um ambiente exclusivamente masculino, fico à vontade para falar sobre futebol, política, mulher dos outros e a nossa?, confessa. José Pequeno da Silva, 71 anos, é o funcionário mais antigo de ?seu? Edinho. Ainda com disposição, ele trabalha desde 1954. Natural de Atalaia e ex-trabalhador rural, ele conta que começou a exercer a profissão como barbeiro quando tinha 18 anos. ?A gente tem que fazer o que aprendeu na vida?. Costurando história Há 27 anos com ponto comercial na Avenida Moreira Lima, no Farol, José Luís da Silva despontou para a alfaiataria no início da década de 70 e mantém o ofício até hoje. ?Comecei na Ladeira dos Martírios. Essa sempre foi minha renda; aprendi esse ofício aos 17 anos?, destaca. Menino pobre do interior de Alagoas, José Luís fez do ofício - considerado uma vocação - um meio de sustentar a família. Mas o movimento de outrora na alfaiataria já não é o mesmo. Antes, o alfaiate fazia cerca de 40 peças de roupas por semana; atualmente, passa dias sem receber nenhuma encomenda de seus clientes. ?Cheguei a ter oito funcionários. Hoje, as pessoas que trabalham comigo são apenas meus filhos. Não tenho condições de contratar ninguém?, lamenta, enquanto manuseia com agilidade tesouras, régua, fita e giz. Concorrência desleal José Luís conta que tem aproximadamente 50 clientes, alguns deles de outros estados. ?Está muito difícil sobreviver com a alfaiataria. Quando abri meu negócio tinha clientes que eram autoridades políticas e do Judiciário?, ressalta. A quantidade de pontos de comercialização de roupas em Maceió também provocou a queda do faturamento na alfaiataria. ?Hoje em dia vende-se roupa até em supermercado, onde antes se vendia apenas comida. E o pior é que o preço é o mesmo que praticamos aqui?, lamenta. A alfaiataria, que fica aberta por 12 horas corridas, tem quatro máquinas de costura. Na verdade, as alfaiatarias são mais procuradas hoje para fazerem pequenos consertos em peças de roupas. ?Faço apenas de um a dois paletós por semana. A procura é maior para conserto, o que gera pouco lucro?. O motorista José Laurindo da Silva é um dos fregueses da alfaiataria de José Luís. Para ele é melhor encomendar o serviço do que tentar fazer um conserto de uma roupa em casa. Além do que, segundo ele, é muito difícil comprar uma peça de roupa que não precise de algum tipo de ajuste. ?Trago sempre peças de roupas para serem consertadas. Melhor pagar para mandar fazer e ficar bem-feito. Prefiro um trabalho profissional do que pedir a minha esposa para fazer isso?. ### Apaixonados por máquinas e penas Arlindo Lourenço de Melo, 62 anos, conserta máquinas datilográficas há 50 anos e diz ter ganhado muito dinheiro com a profissão. Ele, que mantém um ponto comercial na Ladeira do Brito, hoje vive situação financeira delicada. Por causa do fraco movimento, acaba atrasando o aluguel de R$ 100 do seu ponto comercial. ?Desde que o computador apareceu, o movimento no meu estabelecimento caiu mais de 70%?, reclama. Há pouco mais de uma década, Lourenço faturava bem com o conserto dessas máquinas, já que não existiam profissionais qualificados em Maceió para fazer o serviço. ?Eu trabalhava para 80% das usinas. Tirava um bom dinheiro com isso. Comecei a trabalhar nesse tipo de serviço aos 12 anos?, contou Lourenço. Apesar de tantas dificuldades, o profissional se diz um apaixonado pelas máquinas datilográficas e que não pretende mudar de ramo. ?Não sei fazer outra coisa. Meu mundo é esse?, declara Lourenço, em meio a um amontoado de máquinas, abandonadas pelos proprietários. ?Algumas pessoas que trazem as máquinas para serem consertadas acabam deixando-as aqui?. Em Maceió existem apenas quatro oficinas de máquina datilográfica. Paixão antiga A escritora alagoana Anilda Leão é uma das apaixonadas por ?máquinas de escrever?. Em casa guarda cinco delas, a mais antiga da década de 50, quando casou com o também escritor Carlos Moliterno. Todas pertenciam ao marido. ?Não gosto de computador. Quando escrevo uma crônica ou mesmo um artigo, faço na máquina de escrever e depois peço aos meus netos para digitarem no computador?, conta. Ela diz que, mesmo ?metida a moderninha?, aos 82 anos, não troca a máquina pelo computador. ?Escrevo numa Olivetti da década de 70, da qual cuido muito bem. Nunca nem tentei usar computador. Sei que é fácil. Várias pessoas me aconselham, mas prefiro manter a tradição, assim como o meu marido?, diz, saudosista, a escritora. A arte da paciência Uma das profissões raras e antigas é a de calígrafo. Exige concentração, paciência e disponibilidade de tempo. Qualidades e situações difíceis de encontrar. Em Maceió existem poucos profissionais nessa área. Uma delas é a arquiteta Elineide Valença de Andrade, 27 anos. Ela trabalha como calígrafa há quase seis anos. Ofício que aprendeu sozinha, embora tenha sido também incentivada pela mãe. Quando criança fazia capas de trabalhos escolares. ?Minha mãe pintava e desenhava, foi quando comecei a treinar em casa. Por ser um trabalho personalizado é uma vantagem e acaba sendo requisitado?, conta a calígrafa. Elineide é procurada para fazer convites, homenagens, certificados, livros de ouro, dentre outros. Com seus instrumentos de trabalho: canetas bico-de-pena e porosas e papéis, a arquiteta e calígrafa recebe por volta de três encomendas a cada seis meses, a maioria delas convites de casamento. ?Muitos desses trabalhos são feitos fora de Alagoas. Existem poucos calígrafos aqui?, relata. Os tipos de canetas usadas para esses trabalhos são considerados caros. Mas Elineide conta que herdou canetas de seu pai. ?Já aconteceu de eu ter mais trabalho como calígrafa do que como arquiteta?, conta.|RC