Cidades
Mortalidade infantil continua a castigar o semi-�rido de AL
CARLA SERQUEIRA Repórter Senador Rui Palmeira - Embrenhada no semi-árido alagoano, padece, aos poucos, a cidade de Senador Rui Palmeira. Entre os dez municípios com maiores taxas de mortalidade infantil do País, segundo relatório Situação Mundial da Infância 2005, divulgado pelo Unicef na Semana da Criança - Senador sequer tem posto de saúde. A seca ajuda a matar e a fome faz homens, mulheres, crianças e animais dividirem o único vegetal que brota no período de estiagem: a palma. Segundo o relatório, Senador Rui Palmeira está à frente somente do município de Pedro Laurentino (PI). Não é difícil encontrar mães que testemunharam a vida de seus filhos minguar, ainda nos primeiros dias. Adinete dos Santos tem 16 anos e deu à luz a duas meninas no dia 22 de agosto. Raiane e Raíne nasceram pesando menos de 1,5 quilo em Santana do Ipanema. Com pouco mais de um mês, Raiane morreu. A irmã Raíne continua lutando para sobreviver, ainda desnutrida. Os números da Prefeitura confirmam a miséria. Em Senador Rui Palmeira, apenas 37,28% dos moradores têm água encanada; somente 3,38% das casas contam com sistema de esgoto, e mais da metade do lixo produzido não é recolhida. Lá as mortes são causadas principalmente por diarréia e infecção respiratória aguda (IRA). Entre as crianças, de julho a setembro deste ano, 218 casos de diarréia e mais 196 de IRA foram registrados pela Secretaria de Saúde do município. Os índices são comparados aos de países africanos, considerados os mais pobres do mundo. Entre mil nascidos vivos em Senador Rui Palmeira, 60,2 morrem antes de completar um ano de idade, segundo relatório do Unicef. Os números se baseiam nas mais recentes informações disponibilizadas pelo DataSUS sobre a saúde infantil em todas as cidades brasileiras, registradas no triênio 2001-2003 e é mais que o dobro da média nacional (27,5, segundo o IBGE). A Gazeta viajou 235 quilômetros para ver de perto como sobrevivem os 12.500 habitantes de Senador Rui Palmeira. O amparo médico do lugar se resume a um ambulatório improvisado, sob o comando de duas equipes do Programa Saúde da Família (PSF), no centro da cidade. Próximo a uma unidade instalada na zona rural, foi encontrado um cemitério. Nele, metade dos enterrados são crianças. ?Já vi mães implorarem por comida, para seus filhos?, conta Nemer Ibraim, coordenador do PSF. ?Por isso que muita gente come a palma que plantou para matar a sede dos animais?. ### Falta de incentivo impede crescimento Quando nasceu, o pequeno Emanuel Weverton pesava cerca de um quilo. Para não ver o filho morrer, a mãe do menino, viciada em álcool, o abandonou na sede do Programa Saúde da Família (PSF) de Senador Rui Palmeira. O Conselho Tutelar do município saiu oferecendo o bebê às mulheres da comunidade. Sensibilizada, a agente de Saúde Silvana Inês, 35, enfermeira e mãe de três adolescentes, propôs-se a cuidar do recém-nascido por uma semana. Passado o prazo, perdeu a coragem de devolvê-lo. ?Seu filho não tem doença, tem fome?, ouviu de um médico em Santana do Ipanema. ?Dei a multimistura com leite e o resultado me impressionou?. Hoje, Emanuel caminha para os dois anos de idade e pesa mais de 13 quilos. Quem vê o sorriso em seu rosto custa a acreditar que por vários dias esteve cara a cara com a morte. Foi na bagagem de um estudante paranaense que a multimistura chegou em Senador Rui Palmeira. Ele estudava o fenômeno da seca, inserido no programa Universidade Solidária, do governo federal. ?Aprendi com ele e não parei mais de alimentar as crianças em 5 anos?, conta a dona-de-casa Aparecida Vieira dos Santos. O alimento é preparado com farinha, casca de ovo, farelo de milho, folha de mandioca, sementes de abóbora e girassol. Um prédio cedido pela prefeitura servia de sede para a fábrica. ?Fizemos um movimento na cidade. Conseguimos fogão, eletrodomésticos e ingredientes?. O grupo integrou-se à Pastoral da Criança, organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Mas a boa vontade de ?dona Cida? foi atropelada pela falta de incentivo. Certo dia, ela foi surpreendida com uma notícia: as panelas e móveis da fábrica estavam na rua. Dona Cida contou que sem comunicado, a prefeitura desocupou o prédio e abalou suas expectativas. ?Me desgastei muito. Nem mesmo o padre cumpria o seu papel na luta contra a desnutrição. Não se reunia com as mães?, critica. O secretário de Administração do município, Roberto Cabral, não soube explicar por que o núcleo da Pastoral da Criança foi desativado. ?A culpa é da antiga gestão. Estamos querendo trazer mais multimistura para a cidade e vamos apoiar novas iniciativas?. De passagem por Alagoas, Zilda Arns, presidente Nacional da Pastoral da Criança, pediu mais apoio aos políticos. CS ### Mãe da multimistura cobra investimento A Pastoral da Criança foi fundada em 1983, mas, em Alagoas, só consegue atender 11% das 255 mil crianças pobres com até seis anos. Para a presidente nacional da entidade, a pediatra e sanitarista Zilda Arns, o entrave está na falta de apoio político. ?Investir na vida infantil requer compromisso. E boa parte dos políticos não pensa a longo prazo?, diz ela, criticando os programas sociais do governo. ?Dar dinheiro aos sertanejos não resolve nada. É preciso instrui-los, por isso a urgência é investir em Educação?. Semana passada, ela esteve com o governador do Estado, Ronaldo Lessa (PDT), e com o prefeito de Maceió, Cícero Almeida (PTB). ?Sugeri a eles que firmassem um convênio conosco. Queremos aumentar em 50% nosso atendimento aqui?, conta Zilda, três vezes indicada para o prêmio Nobel da Paz. O uso da multimistura no Brasil foi difundido pela Pastoral da Criança. ?É uma solução barata, mas que precisa de quem faça. Muitas vezes os voluntários percorrem quilômetros a pé para alimentar crianças. Este gesto tem salvado muitas vidas?, ressalta. Os números da entidade traduzem este esforço. A média de mortalidade infantil entre as crianças assistidas pela Pastoral é 13,7 por cada mil nascidas vivas; a nacional é de 27,5. Já a do semi-árido brasileiro é 65, de acordo com Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). |CS ### Partos são feitos em casa, sem médicos O pré-natal de Adinete dos Santos, 16, foi resumido a exames de urina, fezes e sangue. Há dois meses, deu à luz duas meninas. Uma morreu desnutrida. Ela mora no povoado Recanto, em Senador Rui Palmeira. Todas as vezes que precisou de ajuda médica, teve de caminhar seis quilômetros até uma sede do Programa Saúde da Família (PSF). Não existem médicos concursados na cidade e há mais de três meses, a zona rural conta apenas com um auxiliar de enfermagem. A maioria dos partos é feita sem ajuda profissional, nos sítios. A prefeitura promete construir uma maternidade. ?Já temos os recursos. As obras devem ser iniciadas no próximo ano?, afirma Nemer Ibraim, farmacêutico e coordenador do PSF em Senador Rui Palmeira. Ele chegou ao município há dois meses. Com ele, assumiu também a nova secretária de Saúde, Clarice Lessa. A última gestora foi exonerada, ?porque não levava o trabalho a sério?, conforme diz o secretário de Administração Rogério Vieira Cabral. ?Encontramos uma bagunça. Tudo fora de controle?, afirma Ibraim. A prioridade, segundo ele, é salvar crianças com menos de um ano. ?Difícil é manter médicos por aqui. A maioria desiste por falta de estrutura?, relata. Na sede da secretaria é servida semanalmente uma sopa com multimistura ?emprestada? de Santana do Ipanema às crianças famintas. Na economia, a situação do município também é trágica. A arrecadação é praticamente nula e a cidade sobrevive dos R$ 8 mil do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Ibraim diz que a União destina ao município R$ 12 mil para compra de remédios, quando o mínimo necessário seria R$ 50 mil mensais. CS ### Estado fala em assessoria; município nega Procurada pela reportagem, a secretária Executiva de Saúde, Kátia Born, disse que o papel do Estado era ?assessorar? os municípios e falou das ?ações mínimas? do governo para reduzir o sofrimento dos sertanejos alagoanos. ?A prioridade foi ampliar em 100% as equipes do PSF?, diz ela. Mas, de acordo com o coordenador do PSF de Senador Rui Palmeira, Nemer Ibraim, o Estado é apenas um ?repassador? de verbas e mais nada. ?As ações do Estado são praticamente nulas?, diz. Outra medida adotada pelo governo estadual, divulgada por Kátia Born, foi a distribuição de filtros de água para a população. ?O filtro reduz as bactérias da água em 90%?, argumenta. Mas isso, quando se tem água. A prefeitura levantou que a filtração atende apenas 16% dos moradores, ficando o uso de cloro em primeiro lugar com 78,20%, e sem tratamento nenhum, a água que serve quase 5% da população. ?Este último número é muito alto e está bem acima da média aceitável pela Organização Mundial de Saúde (OMS)?, afirma Ibraim. A vacinação também foi priorizada tanto pelo Estado como pelo município e, de fato, os números indicam melhora, mas ainda não há cobertura total. Em Senador Rui Palmeira, a média de crianças vacinadas menores de um ano é de 87% de um universo de 271 crianças até setembro passado. Dessas, 16,35% estão desnutridas. O quadro piora. Aquelas com até dois anos de idade totalizam cerca de 290. Da soma, 20,42% também agonizam com a desnutrição.|CS ### Cisternas podem ajudar a salvar vidas Para abolir a indústria da seca e combater a mortalidade infantil no semi-árido brasileiro, organizações da sociedade civil firmam parcerias. Um exemplo vem da Articulação do Semi-árido (Asa), representada nos 1.444 municípios que compõem a região, sediada no Recife (PE). Lançado em 2001 com base em estudos feitos pela entidade, o Programa Um Milhão de Cisternas já alcançou 108 mil famílias. Em Alagoas, já foram construídas 3.277 cisternas pela Asa, que tem apoio do Ministério de Desenvolvimento Social. Vinte delas estão em Senador Rui Palmeira. As parcerias locais foram firmadas com as Organizações Não-Governamentais Aagra, Coppabacs e Cactus, situadas nos municípios que formam o semi-árido alagoano. O plantador de feijão Tadeu Vieira foi um dos beneficiados na cidade de Senador Rui Palmeira. Ele é pai de cinco filhos e avô de mais de 20 crianças. ?A vida melhorou 100%?, diz ele. Além de agora ter onde acumular a água da chuva, ?seu? Tadeu aprendeu como racionar a água e tratá-la para o uso doméstico. O coordenador do projeto, João Amorim, informou que a meta de 1 milhão de cisternas deve ser atingida em dez anos. ?Até agora, conseguimos implantar 10% do projeto?, disse ele, explicando que cada cisterna tem capacidade para acumular 16 mil litros. ?Nossa intenção é dar um basta à indústria da seca e tornar os sertanejos independentes dos carros-pipa que só geram roubalheiras?, afirma. A coordenadora do Centro de Apoio Comunitário de Tapera em União à Senador (Cactus), Maria da Paz, critica a transposição do São Francisco e diz que soluções muito mais eficazes podem ser feitas com pouco recurso. ?Estamos a 20 km do rio São Francisco. Uma simples adutora evitaria a morte de muitas crianças?, acredita. No programa Um milhão de Cisternas foram investidos, até hoje, R$ 102 milhões. Enquanto não são beneficiadas, Jeane Ferreira Lima, 30; e Maria José Ferreira, 56, são obrigadas a carregar, todos os dias, 15 litros de água na cabeça, para garantir comida e banho em casa. O ?luxo? de água encanada está longe da realidade delas. ?Daqui para frente vai piorar. As barragens estão todas secando. A água fica salgada, mas o jeito é beber. Animal acostumado com água boa nem toma?, diz Jeane. Em todo semi-árido brasileiro, 42,2% da população infanto-juvenil não tem acesso a abastecimento de água e 37,47% não possui sistema de esgoto. Isso explica porque 95% dos seus municípios têm taxas de mortalidade acima da média nacional. CS