Cidades
M�dico alerta para doen�a em bovinos
MARCOS RODRIGUES Repórter Rio Largo - O consumo de carne bovina sem procedência ou inspeção estadual ou federal está expondo uma parcela significativa da população - aproximadamente 60% do Estado - a diversas doenças transmitidas por bovinos. O alerta é do presidente do Sindicato dos Médicos Veterinários de Alagoas e coordenador da Vigilância Sanitária de Rio Largo, Eduardo Pursel. Ele constatou que a tuberculose aviária, vinda principalmente de rações à base de frango, capim e raspa de madeira - a chamada cama de galinha - contamina os bovinos, que por sua vez contaminam o homem, está se alastrando em cidades alagoanas. De acordo com o médico, a situação já é crítica em dois municípios: Viçosa e Rio Largo. ?Conheço as duas realidades e constatei elevados índices de tuberculose na população. Em Rio Largo, por exemplo, se avaliarmos proporcionalmente, encontraremos num universo de 10 mil habitantes, 6,5 indivíduos com a doença?, revelou o veterinário. INTERDIÇÃO Mas, ao invés de causar alarme Purcel quer apontar saídas para evitar o avanço da doença. Ele defende a interdição, pelo Instituto do Meio Ambiente (IMA) e Vigilância Sanitária, dos matadouros municipais sem processo de higienização, poluídos e contaminados, e ao mesmo tempo investimentos em ponto de vendas padronizados. Alagoas tem apenas dois matadouros frigoríficos industriais - Mafrial (Satuba) e Mafrips (Rio Largo) - com fiscalização federal. Com a criação dos matadouros especializados, ele acredida que cerca de 28 municípios poderiam passar a ter carne de primeira. ?O objetivo é acabar com essa diferença que deixa uns poucos com carne de qualidade e a maioria com carne de terceira e sujeito à doenças?. ### Em matadouros de Alagoas, abate de bovinos é no chão Messias - O maior problema detectado nos matadouros municipais refere-se à higiene. Se por um lado o gado é exposto a doenças, esse ciclo se completa nestes locais. A infra-estrura mínima não compensa os desvios na fase de engorda. Nesse período os riscos ficam por conta do consumo da chamada ?cama de galinha?. O material é oriundo de uma mistura de feno, fezes de galinha e das rações que elas consomem e raspas de madeira. ?Em média as aves desperdiçam entre 2% e 5% de alimento. Então o que fica no chão forma essa cama, que depois é dada ao gado. O problema é que ela está proibida por estar associada à chamada febre da vaca louca, mas ainda assim é praticada por alguns criadores?, destacou o presidente do Sindicato dos Médicos Veterinários e Zootecnistas de Alagoas, Eduardo Purcel. higiene Depois de passada essa etapa, o maior problema do gado é o abate. A higiene é o fator mais desrespeitado. O sacrifício do animal na maioria dos matadouros municipais é feito no chão. Ou seja, no mesmo local onde o animal é aberto em pedaços, estão as fezes que escorreram de seu intestino. Todo o processo é artesanal. O resultado é que tanto o sangue, quanto os dejetos do animal acabam seguindo para o rio. ?É por isso que além de um problema de saúde pública existe também o problema ambiental. Minha proposta é intensificar a fiscalização, inclusive com o apoio do Instituto do Meio Ambiente, e criar mecanismos para melhorar os pontos-de-venda?, sugeriu Purcel. Cultural O desafio será grande. Unir a fiscalização federal, estadual e municipal ainda é algo distante de acontecer. A Gazeta pode constar que a questão do tratamento da carne é cultural. No município de Messias, distante 35 km da capital, famílias inteiras vivem do abate de boi e porco que ocorrem às sextas-feiras. Lá, como a maioria, o boi ou o porco tem sua pele retirada no chão. Para compensar, um funcionário joga um balde com água após o término da operação, que exige muita força. Depois o animal é repartido e tem suas partes nobres lavadas com água corrente. As instalações, aparentemente precárias, são tidas como um avanço, já que no passado os animais eram amarrados num tronco até ser abatido. O processo foi acompanhado por dois técnicos da Vigilância Sanitária Municipal. ?Nós observamos se a carne apresenta alguma alteração. Caso exista ela não segue para a feira?, garantiu o técnico Mário Melo. Depois de repartidas, as víceras do boi são vendidas às ?fateiras?. O quilo é repassado a elas por R$ 20. ?Se quisermos comprar o fígado é mais caro, R$ 40. Depois, aqui mesmo, agente escalda e prepara a feira de sábado?, revelou Djanete Ferreira, 56, que há trinta anos sobrevive do matadouro, apontando para os caldeirões no fogo. MR