Cidades
Na hora H, clientes recorrem a servi�os de emerg�ncia
| REGINA CARVALHO Repórter Requisitados nos momentos mais inconvenientes e difíceis, os serviços que funcionam 24 horas são a salvação para muitos alagoanos. Cada vez mais raros de serem encontrados, borracheiros, chaveiros e taxistas driblam o perigo de quem trabalha até ?altas horas? e surgem como ?anjos da guarda? das madrugadas, feriados e finais de semana. O evangélico Ubiray Lino de Souza exerce a profissão de chaveiro há mais de vinte anos. Ele conta episódios engraçados e outros considerados por ele constrangedores. Um desses relatos envolve freqüentadores de motéis de Maceió. ?Já salvei muita gente no motel que esqueceu a chave dentro do veículo. A pressa é inimiga da perfeição?, lembra o chaveiro, acrescentando que esse tipo de problema ocorre com mais freqüência do que se imagina: ?De duas a três vezes por mês?, contabiliza. ?Fico constrangido pelo cliente?, acrescenta Souza. O estabelecimento comercial do ?mestre Bira? fica aberto das 7 horas à meia-noite. Entretanto o serviço de chaveiro é oferecido 24 horas. ?Sem o serviço 24 horas o lucro cairia de 50% a 60%. Isso é o que salva a gente?, relata o proprietário do chaveiro, localizado no bairro de Jaraguá. Segundo Bira, o grande parceiro do chaveiro é o taxista. ?Ele traz o cliente e dá indicação do nosso ponto. Por conta disso dou 10% do valor do serviço ao taxista?, conta. Muitos anos de profissão fazem com que os chaveiros driblem ciladas que, ocasionalmente acontecem. ?Não gosto de fazer serviço em casas de praia, por exemplo. Recusei vários trabalhos porque desconfiei que poderia ser uma cilada?, diz o expert Bira. Mesmo experientes, os profissionais não estão livres do perigo. Bira conta que há mais ou menos dois anos foi acionado por uma senhora para abrir a porta de um apartamento, localizado num prédio luxuoso em bairro nobre da capital. ?Ela pediu para eu abrir a porta, então eu fiz o serviço. Ela dizia que o apartamento era dela e que tinha perdido a chave. Na verdade o apartamento era de outra pessoa. Soube disso no outro dia, quando a polícia esteve no meu estabelecimento. Pediram para eu esquecer o assunto?, lembra o chaveiro. ### Roubo e infidelidade marcam ofício A senhora, de nome não informado pelo chaveiro Ubiray de Souza, que pertenceria a uma família tradicional de Alagoas, morava, segundo ele, no 6º andar e queira roubar objetos de um apartamento do 5º andar do prédio. ?O policial veio aqui e perguntou se eu tinha feito o serviço. Eu confirmei e ele me disse que a senhora era cleptomaníaca. Daí ele pediu para eu esquecer o caso porque se tratava de uma pessoa influente, filha de um grande empresário?, destaca. Desde então, Bira só abre a porta de apartamentos quando um porteiro está presente. ?Isso serviu de lição para mim. Agora sempre chamo o porteiro?, diz o chaveiro, que fez vários cursos de aperfeiçoamento durante o exercício da profissão. crise Há cinco anos, o chaveiro de Jaraguá já teve seis funcionários, mas, com a queda do movimento conta, agora, com apenas três. ?Teve um caso de uma adolescente que me chamou para abrir um cofre da sua casa. Ao chegar lá lembrei da residência pois já tinha feito serviços para o pai dela. Percebi que ela ia fazer algo de errado. Aconselhei-a e ela desistiu de abrir o cofre?, conta Souza, ressaltando que situações de adolescentes quererem prejudicar os pais ocorrem com freqüência. ?No dia seguinte a adolescente veio aqui e agradeceu pelos conselhos. Não dá para viver só com o objetivo de ganhar dinheiro?, diz o chaveiro. Por essas e outras, o chaveiro defende que haja fiscalização rigorosa entre os que exercem a profissão. Dentre as muitas histórias contadas pelo expert Bira, uma se destaca. Segundo ele, certa vez, quando estava em seu ponto comercial, seis universitários requisitaram seus serviços para abrir a porta de uma faculdade particular. O objetivo, segundo o chaveiro, seria ter acesso aos gabaritos de provas. ?Perguntei por que e eles me responderam que já tinham ?comprado? o vigia e só faltava eu. Recusei o serviço?. Criatividade Leonilson Ramalho resolveu, por curiosidade, aprender a confeccionar e copiar chaves de cofres, veículos, arquivos e birôs. Para facilitar o trabalho que antes era oferecido ao ar livre, comprou uma kombi por R$ 2 mil e adaptou o veículo se instalando numa localidade de muito movimento: Avenida Fernandes Lima, Farol. ?Aprendi o ofício por curiosidade e, com o tempo, fui me aperfeiçoando. Há vinte anos exerço essa profissão e não quero mudar?, destacou. O ofício rende a Ramalho aproximadamente R$ 1 mil por mês, recursos que sustentam sua família. Há dois anos, ele e o irmão resolveram oferecer o serviço de 24 horas e também passaram a presenciar situações inusitadas. ?Já tem alguns anos, uma senhora veio aqui e pediu para eu abrir a casa dela, sem fazer barulho para não acordar a filha que estava dormindo?, conta. Segundo o chaveiro, não havia filha nenhuma na jogada. Ramalho estava, na realidade, ajudando a descobrir um caso de infidelidade conjugal. ?Quando eu abri a porta, ela foi logo quebrando tudo que tinha dentro da casa. Na verdade lá morava a amante do marido dela, que por sinal estava grávida. Foi muito estranho e constrangedor. Um outro filho dela ficou aguardando a confusão terminar fora da casa e eu também?, acrescenta. No currículo do chaveiro também constam idas a motéis para abrir veículos. ?Também é muito comum pessoas embriagadas perderem as chaves dos veículos?, relata. Ramalho lembra que atende em domicílio e por isso não escolhe o serviço. ?Somos chamados e fazemos nosso serviço. Não dá para saber ao certo o que vai acontecer. O cliente liga e a gente faz o trabalho?, destaca o chaveiro, lembrando que quando tinha apenas seis anos de profissão, um homem lhe pediu para ?arrastar? um carro. ?Isso nunca me interessou. Nem antes, muito menos agora?.|RC ### Perigo faz parte da rotina profissional Rubens José dos Santos, 24 anos, é proprietário de uma borracharia que funciona 24 horas na conhecida Ladeira do Óleo, em Cruz das Almas. Desde os 14 anos, ele cuida do estabelecimento que era do seu tio. Rubens trocou a vida de militar pela profissão de borracheiro. ?Estou fazendo o que eu gosto. Não me arrependo de ter mudado de profissão?, diz. Ele conta histórias divertidas que presenciou ao longo dos anos e que, quase sempre, envolvem brigas de casais. ?Presto muito socorro à noite e de madrugada e acabo presenciando algumas situações engraçadas. Tem casos de mulheres que, com raiva, furam ou rasgam os pneus do carro do marido. A gente vai fazer o serviço no local e termina ficando sem jeito?, reconhece o borracheiro. A borracharia de Rubens tem clientes fiéis e fecha apenas três vezes ao ano: Sexta-feira da Paixão, Natal e na virada do ano. ?Embora o movimento nessas datas seja maior, ainda assim eu fecho as portas. Nos demais dias do ano estamos sempre prontos para socorrer o cliente?, lembra Rubens. O estabelecimento de Rubens funciona no mesmo local há 30 anos, mas, somente há sete anos, oferece o serviço 24 horas. perigo Pedro Gomes de Oliveira, taxista, sofreu três assaltos nos últimos meses. Consciente de que exerce uma profissão arriscada, ele trabalha 24 horas seguidas em dias alternados no Terminal Rodoviário João Paulo II, no bairro do Feitosa. Conforme conta o taxista, em um dos assaltos lhe levaram aproximadamente R$ 400, que seriam para pagar a prestação do veículo. ?Dois desses assaltantes eu peguei aqui mesmo na rodoviária. Um deles estava com uma grávida, por isso não pude fazer nada?, lamenta. Em outro lhe levaram o apurado do dia, pouco mais de R$ 50. Em 15 anos de profissão, Gomes lembra ter socorrido inúmeras grávidas, algumas delas em trabalho de parto. ?Acho que já levei umas 50 grávidas para a maternidade?, acrescenta. Uma dessas gestantes, Gomes não esquece. Ela teve o bebê dentro do carro. ?Meu cunhado pediu para eu ir buscar uma grávida no hospital de Porto Calvo para trazer para a Maternidade Santa Mônica, em Maceió. Só que ela não agüentou e teve o filho dentro do carro. Faz muito tempo, mas não esqueço?, conta Gomes, que já foi caminhoneiro por vários anos. Embora não entre em detalhes, Gomes admite ter passado por algumas situações constrangedoras envolvendo mulheres. Para ele não dá para misturar relação entre passageiros e taxista. ?Passageiro é passageiro. Fico na minha. Se vier com coisinha, peço para parar?, alerta. Apesar do perigo que corre diariamente, Gomes não pensa em mudar de profissão. ?Não tenho mais idade para isso. Estou velho?, ressalta o taxista.|RC ### Serviços ficam cada vez mais escassos Os serviços que funcionam 24 horas em Maceió são cada vez mais escassos. O funcionário público José Antônio Silva lembra que inúmeras vezes precisou de táxis quando já era noite. Ele aponta a violência como fator que contribui para a diminuição de alguns desses serviços. ?É ruim quando a gente procura um táxi e não encontra. Da mesma forma fico revoltado quando tento achar uma farmácia aberta e não encontro. Esse tipo de serviço é fundamental e deveria estar sempre disponível. Acho que por causa da violência é difícil achar, por exemplo, um chaveiro ou táxi na rua?, ressaltou. O funcionário público lembra um episódio que aconteceu há quase dois anos. ?Não tinha telefone de chaveiros e precisei que abrissem a porta de uma casa de praia. Levou um tempão para achar?, destacou. Estranha O motoboy Antônio Marcos disse que, como exerce a profissão há pouco mais de um ano, não passou por situações inusitadas. Mas que trabalha com pessoas que relatam casos curiosos. ?Um amigo meu disse que ao chegar numa residência para entregar dois churrasquinhos, presenciou uma festa diferente. Ele falou que todo mundo estava vestido de preto e que tinham papéis espalhados no chão. Uma bagunça?, lembrou. O motoboy lamenta que muitas vezes tem que se arriscar nas ruas para fazer entregas e não ganha sequer uma gorjeta. ?É engraçado. Às vezes penso que vai rolar um dinheirinho quando a entrega é num bairro nobre. Tudo bem, faz parte da profissão?, reconhece. RC