Cidades
Pilhas e baterias de celular t�m destino incerto em AL
| CARLA SERQUEIRA Repórter Segurar uma bateria de celular, de automóvel ou mesmo uma simples pilha de rádio é o mesmo que ter nas mãos Mércurio, Níquel, Chumbo e Cádmio, elementos químicos dos mais perigosos, não por acaso chamados de ?metais pesados?. Quando acaba a vida útil destas peças, os metais precisam ser recolhidos do meio ambiente. Caso contrário, eles, por meio da água ou do ar, podem se acumular nos seres vivos e causar sérios danos à saúde, como câncer nos pulmões, disfunções nos rins e intestinos, problemas cardíacos e osteoporose. Isso quando a contaminação não leva o indivíduo a óbito. Em Maceió, grande parte das pilhas e baterias gastas, classificadas como lixo especial (formados por resíduos sólidos que merecem tratamento, transporte e manipulação especial), vai parar no aterro sanitário de Maceió. ?Aqui é o que mais tem. Todo dia eu acho um monte?, diz a catadora Gisélia Leite de Lima, 38 anos, exibindo duas pilhas novas que encontrou. ?Estas vou guardar para usar na minha lanterna. Bateria de celular também tem muita, mas não serve para nada, então dispenso?, diz. Misturado ao lixo doméstico ainda na casa dos usuários, o que era ?combustível? para controles remotos, brinquedos ou telefones, se transforma numa ameaça invisível a todo tipo de vida. Sem saber disso, o menor W. cata todas as pilhas que encontra no lixão. ?Levo para casa e coloco no meu videogame [que também encontrou no lixo]?, justifica. Expostos ao sol e à chuva no aterro sanitário, metais com poderes corrosivos e tóxicos ficam anos depositados no solo. De acordo com o engenheiro químico da Companhia Alagoas Industrial (Cinal), Isaac Gabai, não separar o lixo especial do doméstico faz com que as substâncias nocivas alcancem o lençol freático. ?Os riachos ali em Jacarecica estão ?coalhados? de metais pesados?, alerta. ### Fabricante e consumidor ignoram responsabilidade O aumento de telefones móveis no Brasil já rendeu ao País a 6ª posição entre os maiores consumidores de celulares no mundo, de acordo com o Ministério das Telecomunicações. Em 2004, o número de usuários era de 34 milhões; este ano, espera-se que o número chegue a 58 milhões. Preocupado com o destino de tantas baterias, o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) atribuiu, em 1999, por meio da resolução nº 257, aos próprios fabricantes de pilhas e baterias, o destino final ecologicamente adequado desses produtos. Mas para isso, fica a cargo dos consumidores devolvê-los às lojas. ?Falta uma cobrança maior por parte dos fabricantes?, opina o engenheiro químico Isaac Gabai. ?Antes de surgirem as garrafas ?Pet? no mercado, quem não levasse cascos de vidro, não conseguia comprar refrigerantes. Da mesma forma, deveria ser o comércio de pilhas e baterias no Brasil?, sugere o especialista. Na sede do Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA/AL), na Cambona, duas urnas coletoras estão à espera de pilhas e baterias usadas. Nos últimos quatro meses, a quantidade acumulada é desprezível, na opinião do gerente de Controle Ambiental do órgão, Paulo Costa. ?O usuário não tem costume de devolver este tipo de material aos fabricantes. Nas cidades do interior, a situação também é grave. Muitos enterram as pilhas, deixando que os elementos químicos contaminem as lavouras e os açudes?, afirma. Na capital, mais de 20 locais, entre supermercados, lojas de assistência técnica de celulares e distribuidores autorizados de baterias automotivas e pilhas estão aptos a receber baterias e pilhas usadas e encaminhá-las aos fabricantes. Vany de Oliveira Pinheiro é gerente de uma loja de celulares. ?A maioria das pessoas que depositam baterias velhas aqui é porque compram aparelhos novos. Aparecer gente só para nos entregar bateria usada é muito raro?, revela a funcionária. Já o técnico relojoeiro Isaías da Silva Ferreira, funcionário de uma loja que conserta relógios, afirma que comercializa as pilhas que acumulam. ?Nosso descarte é mais por interesse financeiro?, diz, sem pudores. ?Nunca apareceu fabricante para recolher as pilhas, então a gente vende para que seja retirado o nitrato de prata, usado pelos ourives?. CS ### Presença de metais no meio ambiente pode levar à morte Os metais extraídos das pilhas e baterias devem ser incinerados ou colocados em aterros, conforme explicou o engenheiro químico, Isaac Gabai, da Companhia Alagoana Industrial (Cinal), instalada no Pólo Cloroquímico, em Marechal Deodoro. ?Mas ninguém tem controle disso no Brasil?, revela, acrescentando que ?80% das cidades brasileiras não possuem aterros sanitários?, como Maceió. A conseqüência do não tratamento destas substâncias são doenças graves em seres humanos e animais. O chumbo, por exemplo, principal matéria-prima de baterias automotivas, é capaz de alterar o sistema nervoso e reprodutivo, causar anemia, perda de memória, alucinações, tremores musculares, depressão e insônia. Segundo Isaac Gabai, este tipo de bateria já é proibido nos Estados Unidos. Em alguns tipos de bateria e lâmpadas fluorescentes, é possível encontrar doses de mercúrio, considerado, entre os metais pesados, um dos mais perigosos. Ele pode ser inalado ou atingir o organismo humano através de orifícios da pele. Entre os males que causa à saúde, o mercúrio é capaz de promover mutações genéticas e deficiência nos órgãos sensoriais, como visão e audição. Para ilustrar ainda mais o efeito deste elemento, o engenheiro químico Gabai lembrou do episódio batizado como ?Desastre de Minamata?, ocorrido em 1967, no Japão, quando dezenas de pessoas morreram e milhares ficaram gravemente enfermas por ingestão de peixes contaminados por mercúrio, na baía de Minamata. ?Tudo na natureza?, diz ele, ?pode funcionar como remédio ou como veneno; a diferença é a dose?, teoriza. Grande parte das baterias de celular é composta por metais do tipo níquel-cádmio (Ni-Cd). O cádmio é um forte agente cancerígeno e se acumula, principalmente nos rins, fígado e nos ossos. Já o níquel provoca dermatites, distúrbios respiratórios, gengivites, cirrose e insuficiência renal. ?Estas substâncias presentes nas pilhas e baterias não são eliminadas do meio ambiente. Elas tendem a acumular em corpos, na água, mas não desaparecem. Mesmo incinerando o material, é necessário aterrar a cinza. Uma opção é reaproveitar os elementos?, diz o engenheiro. CS ### Reaproveitamento pode ser a solução O Ministério do Meio Ambiente exige que os fabricantes de pilhas e baterias, por meio da resolução nº 257 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), desenvolvam pesquisas para diminuir o uso de elementos químicos perigosos para a vida humana. Uma das soluções encontradas deu origem às chamadas pilhas secas e alcalinas. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), as pilhas secas são do tipo zinco-carbono e necessitam de menos mercúrio, apenas para revestir o eletrodo e reduzir sua corrosão. Já as pilhas alcalinas são compostas por um ?prego? de aço, envolto por zinco em uma solução de alcalina. O mercúrio em sua composição diminuiu consideravelmente. Segundo a Abinee, em 1989 era encontrado 1% de mercúrio em sua fórmula. Nos anos 90, as mesmas pilhas apresentavam somente 0,025% do metal. Para o especialista Gabai, outra solução pode ser a reciclagem destes metais. ?No Rio de Janeiro uma empresa já está se estruturando para reaproveitar os metais extraídos de pilhas e baterias?, revela o engenheiro. No Lixão de Maceió, segundo os catadores que trabalham separando plástico, papel e lixo orgânico, já existe a procura por baterias de celular, principalmente. ?Tem um rapaz que passa por aqui todos os dias em busca de baterias?, diz Maria Severina dos Santos, 26 anos. ?Quem vai achando, vai guardando para vender?. Segundo ela, cada bateria custa R$ 2. ?Ele pega aqui para consertar e revender?, diz, afirmando haver um segundo comprador, mas sendo este de pilhas de relógios.|CS