Cidades
Marisco � fonte de renda no litoral de AL
| FERNANDO VINÍCIUS Maragogi - Sol e praia significam lazer e descanso para muita gente. O mesmo cenário que encanta turistas em Maragogi, Litoral Norte de Alagoas, serve como local de trabalho para centenas de mulheres que catam mariscos à beira-mar. As chamadas ?marisqueiras? exercem uma atividade manual que garante comida na mesa e poucos recursos para completar a renda familiar. Quando a reportagem da Gazeta chegou à praia de São Bento, três gerações da mesma família estavam reunidas catando mariscos. Creuza Maria dos Santos é sogra de Vanderléia Maria de Oliveira da Silva, mãe de Erllany da Silva Santos. Juntas, elas tinham acabado de encher mais um balde com o fruto do mar ainda protegido pela casca e estavam indo para casa preparar o almoço do dia. O marido de Vanderléia, Severino Paulo dos Santos, trabalha em um grande hotel da região e garante o sustento da família. Ela confessa que não vai à praia todos os dias, mas precisa catar mariscos para ?ter o que comer?. Como não tem com quem deixar a filha, carrega a criança que aprende brincando a tarefa de escavar a areia onde o marisco vive. ### Molusco é comercializado em feira livre Maragogi - A poucos metros da família de Vanderléia Maria, Rosana Silva está sozinha desempenhando a mesma atividade. Casada e mãe de uma filha, ela mantém o balde preso à boca enquanto procura os mariscos com as mãos ágeis. Diferente de Vanderléia, vai todos os dias para a praia porque vende o molusco na feira de Maragogi. Seu marido não tem profissão e vive de trabalhos eventuais. O movimento contínuo das ondas não impede que Rosana consiga pegar a quantidade de mariscos que renda pelo menos um quilo ?despinicado?, vendido por R$ 10 na feira livre. Ela garante que consegue atingir a medida em cerca de 15 minutos por conta da fartura encontrada nas praias de São Bento. PRATO TÍPICO O prato do maçunim já ?despinicado? é vendido aos bares e restaurantes por R$ 3 ou R$ 3,50. No cardápio dos estabelecimentos, o preço varia entre R$ 8 e R$ 10, geralmente preparado com coco. Rosana, outra marisqueira, confessa que cata mariscos desde menina e ?se não fosse assim passaria necessidade?. Além de vender, ela também usa o marisco - o popular maçunim - como alimento e conta que seu preparo é simples. Depois de lavado e fervido, o molusco é retirado da casca e preparado com água, verduras, coco, limão e ?bastante coentro?, ensina. Aproveitando a maré vazante em outro dia de trabalho, Rosana Silva está, desta vez, fora da água. Apoiada nos punhos, procura sozinha na areia da praia de São Bento o chamado ?marisco de olho?. Com uma faca de mesa, faz buracos que deixam estranhas marcas ao redor da marisqueira, uma espécie de rastro que mostra o esforço empreendido na tarefa. FV ### Trabalho dura horas e exige muito esforço Maria Cícera da Silva e Creuza Maria dos Santos estão a cerca de 50 metros de Rosana. Elas catam o alimento que será servido nas mesas de suas casas. Creuza estava sem a companhia da nora e da neta, mas conversava com a amiga Cícera, nascida em Porto Calvo e morando há 16 anos em Maragogi. Cata marisco desde então e atualmente mantém, sozinha, três netos, uma filha e um filho. O marido a abandonou, o que aumentou sua jornada de trabalho. Quinta-feira, 3, ela saiu de casa às 8 horas e voltou depois das 18h. Fui jantar quando já era umas nove horas e só fui dormir ?por? onze porque ainda precisei lavar, cozinhar e despinicar o marisco?, relatou Cícera da Silva. ?O meu botijão de gás ?tá seco faz mais de ano??, comentou sobre a necessidade de ir pegar lenha para o fogão onde prepara as refeições e o ganha-pão. Ela voltou quando já era noite com um feixe na cabeça, enquanto a filha carregava o carrinho de mão por quilômetros. Sua morada fica no alto da Grota, bairro pobre de Maragogi, e ela precisa subir toda a escadaria para enfim chegar em casa. Apesar da jornada pesada, acordou às 4h da sexta-feira, como faz todos os dias, ?para preparar alguma coisa ?pros? meninos comerem de manhã?, explicou. Tamanho esforço agrava as dores na coluna provocadas pelas posições que precisa ter durante a procura por mariscos. Sentadas, ajoelhadas, as marisqueiras sentem no corpo as conseqüências do exercício da profissão. |FV ### Mulheres perdem direitos por desconhecer profissão Maragogi - A Associação das Marisqueiras de Maragogi (AMM) tem mais de um ano de funcionamento, mas apenas uma entre as mulheres entrevistadas disse ter a carteira de pescador, documento emitido pelo governo federal. A falta de informação das marisqueiras fez com que perdessem a oportunidade de adquirir o documento durante o recadastramento realizado em Maragogi, no período de 26 a 30 de setembro. Promovido pela Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca (Seap), o objetivo é identificar os falsos pescadores e regularizar quem comprovadamente vive da pesca ou depende dela para sobreviver, como as marisqueiras. Elielba Rocha, secretária da AMM, informa que existem 150 filiadas, sendo que 70 possuem a carteira de pescador profissional. Ela ressalta que, nos meses de inverno, cerca de 300 marisqueiras podem ser encontradas nas praias de São Bento. FV