Cidades
Festa c�vica vira piquenique na Avenida
FÁBIA ASSUMPÇÃO Repórter Longe do sentimento de civismo e da atual crise na República, mas principalmente pela falta de opções de lazer em Maceió, mais de cinco mil pessoas foram ontem pela manhã à Praia da Avenida da Paz, para comemorar os 116º da Proclamação da República e a inauguração oficial do Memorial à República. Longe das autoridades, protegidas por cordões de isolamento, as pessoas só tiveram acesso ao novo monumento após a festa política. Mas o que eles queriam ver mesmo eram as acrobacias da Esquadrilha da Fumaça e o show do grupo de pagode Exalta Samba, sob um forte calor de mais de 30 graus. Mas tudo terminou em piquenique. A empregada doméstica Joseilma da Silva dos Santos chegou à Praia da Avenida por volta das 8h30. Ela veio de ônibus da Chã de Chaqueira, trazendo os quatro filhos, somente para assistir à apresentação dos aviões da Esquadrilha da Fumaça. Antes mesmo do show aéreo começar, Joseilma e a família se deliciaram com as ?quentinhas? trazidas de casa. Somente perto do meio-dia, depois do desfile militar por tropas do Exército, da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros, é que a Esquadrilha da Fumaça tomou conta do céu da Praia de Avenida, fazendo acrobacias que deixaram muita gente sem fôlego. O ziguezague dos aviões nos céus da Praia da Avenida parou o trânsito da Avenida da Paz. Muitas pessoas que se dirigiam às praias do Litoral Sul pararam os carros no meio da rua para ver as acrobacias dos pilotos da esquadrilha. As areias da praia também foram tomadas por uma multidão. Ambulantes Os ambulantes aproveitaram a oportunidade para tentar conseguir alguns trocados no feriado. O ambulante Paulo Jorge percorre praticamente toda a cidade em busca de lugares onde tenha muita gente reunida. ?Hoje quero aproveitar para ganhar dinheiro?, disse, animado, ao ver o grande número de pessoas na Praia da Avenida. Muitos ambulantes que vendem produtos infantis aproveitaram o grande número de crianças para aumentar os lucros. ### Luxo no Memorial e sujeira no coreto LUIZA BARREIROS Repórter A imponência e o luxo da obra do Memorial à República contrastam com a sujeira e o abandono do Coreto da Praia da Avenida, localizado bem em frente ao monumento inaugurado ontem. Habitado por uma família de sem-teto, o histórico e tradicional coreto, inaugurado em 1º de janeiro de 1928, é hoje um retrato do abandono e do descaso com a história arquitetônica e a paisagem urbana de Maceió. Depois de ter sido reformado durante as obras do projeto de revitalização de Jaraguá, a prefeitura parece ter desistido de manter o local como ponto turístico da capital. Nos dias anteriores à inauguração do Memorial, quando a reportagem da Gazeta esteve no local, várias pessoas que passavam perguntavam, preocupadas, se a nova obra inaugurada pelo governo do Estado terá o mesmo destino do coreto. Ontem, na festa de inauguração do Memorial, o coreto ficou estrategicamente escondido atrás das arquibancadas. Mas depois que estas forem retiradas - provavelmente hoje -, haverá necessidade de que sejam tomadas medidas urgentes para a preservação do coreto, principalmente agora que se pretende fazer do Memorial um ponto de visitação turística. ### Praça dos Marechais: ócio dos excluídos FÁTIMA ALMEIDA Repórter Uma das invenções do regime republicano, símbolo do exercício da cidadania, as praças públicas estão cada vez mais distanciadas do seu papel. Abandonadas à própria sorte ou entregues ao ócio dos excluídos, elas mantêm sua importância histórica, mas há muito deixaram de ser o ponto de encontro onde pessoas de todas as idades trocavam idéias e discutiam ideais. A falta de cuidado, a depredação, são fatores que contribuem para o abandono. Mas a presença ostensiva de moradores de rua; de usuários de substâncias psicoativas (os chamados cheira-cola); e a falta de policiamento são as principais causas de esvaziamento das praças de Maceió, entre elas a Praça Deodoro, que homenageia o proclamador e primeiro presidente da República brasileira, e a Floriano Peixoto (Praça dos Martírios), homenagem ao vice-presidente do governo provisório, e sucessor de Deodoro na presidência da República, ambos alagoanos. Nas duas praças, monumentos lembram os dois marechais da República. Mas aos seus pés, as vítimas da exclusão social são a própria negativa dos ideais republicanos, de cidadania e melhor qualidade de vida. ?O abandono das praças simboliza também o desgaste desses ideais, com o crescimento da violência e da exclusão social?, avalia o historiador Douglas Apratto Tenório. ?As praças, todas elas, são um lugar republicano por excelência, pela capacidade de aglutinação. Antes, as mulheres não saíam de casa. Com a descoberta das praças como local de convergência, as mulheres passaram a frequentá-las na era republicana; pessoas de todas as idades iam para lá passear, conversar, trocar idéias, exercer sua cidadania?, destaca o historiador Douglas Apratto. Na sua avaliação, as praças de Maceió, de uma maneira geral, não são bem cuidadas, não têm atrativo e precisam de maior atenção do poder público. A Praça Floriano Peixoto, onde fica o Palácio do governo estadual e a sede do governo municipal, passou por uma reforma geral. A fonte luminosa foi restaurada e reativada, a estátua de Floriano foi limpa, e a criação de um espaço para eventos deu um ar mais funcional e moderno ao ambiente. No entanto, os antigos problemas permanecem. A praça continua habitada por drogaditos e não são raros os registros de pequenos furtos no local.