Cidades
Sem-terra ocupam sete pr�dios p�blicos
FÁTIMA ALMEIDA BLEINE OLIVEIRA Repórteres Mais de seis mil trabalhadores sem-terra chegaram ontem a Maceió. Desta vez não vieram em grupos isolados, mas numa articulação que reúne todos os movimentos que lutam pela reforma agrária no Estado. ?Viemos sem data pra voltar e o clima é tenso?, diz o coordenador do MST, José Roberto Silva. Segundo ele, lideranças e trabalhadores do Movimento Sem Terra (MST); Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL); Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST) e Comissão Pastoral da Terra (CPT) apresentam duas exigências básicas para a negociação. O coordenador do MST diz que para reduzir a pressão no campo e, agora, na cidade, o movimento unificado dos sem-terra bate o pé e diz que só sai da capital com a mudança na direção da Superintendência do Incra em Alagoas, o que significa o afastamento de Gino César Menezes e a garantia de aceleração dos processos de desapropriação. Com uma pauta de reivindicações unificada, os trabalhadores ocuparam, ontem pela manhã, sete prédios onde funcionam órgãos públicos estaduais e federais. Eles querem agilidade nos processos de reforma agrária, audiência com o governador do Estado, e exigem a presença ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rosseto, em Maceió, para negociar a pauta federal, que inclui desapropriação do complexo Agrisa/Incra e cumprimento imediato da meta do Incra, de assentar três mil famílias no Estado. Os sem-terra começaram a chegar nas primeiras horas da manhã, de ônibus e de caminhão, de diversos pontos do Estado. Montaram acampamento na Praça Sinimbu, e iniciaram a ocupação simultânea das duas sedes do Incra (na Praça Sininbu e no escritório do edifício Walmap); secretarias estaduais de Infra-estrutura e da Agricultura; delegacias regionais dos ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário; e Companhia Energética de Alagoas (Ceal). De acordo com os números do movimento, em Alagoas existem 80 acampamentos e 100 assentamentos, totalizando cerca de 18 mil famílias, e a pauta de reivindicações é, praticamente, a mesma dos últimos cinco anos. ?Ainda existem três mil famílias sem energia elétrica, e mesmo os locais atendidos com eletrificação não agüentam uma bomba ligada?, diz Débora Nunes, do MST. Exibindo uma fatura de consumo de uma família assentada, no valor de R$ 151, eles querem também a revisão das contas de energia elétrica. ### Secretarias suspenderam atendimento REGINA CARVALHO Repórter Susto e tumulto ontem na Secretaria de Infra-estrutura (Seinfra), quando aproximadamente 450 trabalhadores rurais ocuparam os 3º e 4º andares do prédio, que fica na Rua do Sol, no centro de Maceió. Vinte policiais militares foram acionados para impedir o avanço dos integrantes. Os funcionários da secretaria deixaram o prédio rapidamente e o expediente chegou a ser encerrado por causa da ocupação. Os militares pediram aos trabalhadores que fazem parte do movimento que desocupassem os corredores do prédio e ficassem em apenas uma sala da Secretaria de Infra-estrutura. A medida impediu que eles tivessem acesso a equipamentos da secretaria. De acordo com a assessora de imprensa do MST, Charlene Araújo, os trabalhadores devem continuar ocupando simultaneamente os prédios em Maceió. ?A gente não tem previsão de saída. Enquanto não houver negociação vamos continuar nos prédios. Na nossa pauta, reivindicamos dentre outros itens as casas de farinha, creches e centros de formação que foram prometidas pelo governo?, destacou a assessora de imprensa. Já a integrante do MST Vânia Silva informou que os trabalhadores devem continuar em Maceió por pelo menos três dias. Já a ocupação da sede do Incra suspendeu o expediente do órgão. Os funcionários esvaziaram o local de trabalho, deixando a área livre para os sem-terra. Os líderes do movimento concederam entrevista coletiva (leia matéria ao lado), na ante-sala do gabinete do superintendente Gino César, que não apareceu. Na Secretaria da Agricultura, o expediente foi mantido. Pelos corredores, funcionários tinham dificuldades de se locomover entre pessoas sentadas e deitadas, colchonetes, sacolas e outros apetrechos. ### Líderes insistem na queda de Gino De acordo com Carlos Lima, da CPT, este ano ocorreram 35 ocupações; o incra foi ocupado por 15 vezes; rodovias foram bloqueadas em diversas ocasiões; houve audiência com o governo, com representantes regionais e nacionais do Incra; com o ouvidor agrário, mas os processos não andaram. ?Queremos reforma agrária na terra, e não na TV. Já conversamos com todo mundo, até com o ouvidor. Agora queremos falar com o fazedor?, diz José Cícero, do MST. A pauta, segundo as lideranças, é fruto de uma construção coletiva, numa articulação da Via Campesina. ?Percebemos que a unidade do movimento é o ato mais importante. O Incra não consegue dar respostas às famílias acampadas e nem promover a reforma agrária?, explica Carlos Lima. Queda da diretoria A queda da diretoria regional do Incra, antiga reivindicação do MST, continua na pauta, mas as lideranças dos quatro movimentos unificaram o discurso para acusar o órgão de promover ?ciladas e armadilhas para colocar em rota de colisão os movimentos do campo?. Documento As críticas vão além da atual gestão. ?O Incra é uma máquina velha, enferrujada e cheia de vícios. Passou por duas gestões políticas que não conseguiram enfrentar os crônicos problemas internos, nem dar respostas eficazes à bravura das 12 mil famílias acampadas que lutam por reforma agrária?, diz um documento assinado conjuntamente pelos quatro movimentos. ### BR-104 ficou bloqueada por seis horas IVAN NUNES Repórter Murici - Integrantes do Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL) ocuparam ontem pela manhã parte da rodovia federal que liga Alagoas ao Estado de Pernambuco, na altura do quilômetro 63 da BR-104, entre os municípios de Messias e Murici, provocando congestionamento na região. Eles reivindicavam do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária de Alagoas (Incra) a distribuição de 120 cestas básicas para os trabalhadores da fazenda Cavaleiro Dois, também conhecida como Bulangi, aguardadas há quase quatro meses, além da vistoria nas terras da fazenda, para fins de reforma agrária. A manifestação teve início às 9 horas e durou até as 15 horas, quando toda a pista foi liberada pelos sem-terra. Segundo o patrulheiro Souza, da Polícia Rodoviária Federal, a manifestação foi pacífica. ?Eles liberavam metade da pista a cada 15 minutos de espera, para evitar prejuízos aos motoristas?. O bloqueio chegou a provocar um engarrafamento de até três quilômetros, segundo o patrulheiro, que acompanhou de perto o protesto do movimento. Um dos coordenadores do MTL, José Alves, responsabilizou o Incra pela manifestação. ?Tudo isso está acontecendo devido à falta de palavra do Incra de Alagoas. São 120 famílias que esperam pela vistoria das terras da fazenda Cavaleiro Dois, a Bulangi, que se encontra em regime de arrendamento com a Usina Santa Clotilde num plantio de cana de açúcar. Precisamos apenas da liberação de 13 hectares de terra para que a gente possa trabalhar?, alega José Alves. Coube ao coordenador do MTL manter alguns trabalhadores interditando a BR-104 enquanto lideranças do movimento se encontravam em Maceió participando das invasões em prédios públicos. José Alves também denunciou clima de tensão no assentamento, por causa de supostas ameaças feitas por um gerente de campo da Usina Santa Clotilde. ?Ele chega amedrontando os trabalhadores, isso acontece sempre altas horas da noite, além de derrubar todos os barracos de lona de membros do MTL?, diz o coordenador do movimento acrescentando: ?Ele chegou até a colocar uma arma na cabeça de um menor, filho de uma ativista do movimento conhecida como Elisana?. Negociação Durante o bloqueio da BR-104 o ex-governador Manoel Gomes de Barros ficou retido, mas, ao ser reconhecido por um membro do MTL, teve a passagem liberada imediatamente. Algumas pessoas chegaram a justificar perante a coordenação do bloqueio terem compromissos com hora marcada e escaparam do engarrafamento provocado pelo movimento. Foi o que ocorreu com um ônibus de estudantes universitários do município de União dos Palmares. A manifestação acabou às 15 horas, com a promessa do ouvidor do Incra de liberar as cestas básicas para os trabalhadores haja vista elas estarem disponíveis na sede do Incra. A entrega vai ocorrer na próxima terça-feira, 29, pela manhã, com todos os assentados da fazenda Cavaleiro Dois.