Cidades
Supermercados d�o cestas b�sicas para evitar novos saques
| FÁBIA ASSUMPÇÃO Repórter Dois mil trabalhadores sem-terra - de acordo com cálculos da Polícia Militar - ocuparam ontem de manhã, por mais de duas horas, o estacionamento do supermercado Bompreço da Buarque de Macedo, no Centro, para exigir a liberação de 200 cestas básicas. Essa não é a primeira vez que grupos de sem-terra invadem o supermercado. Em umadas últimas ocupações da capital, em junho, eles também negociaram cestas básicas. O supermercado teve de ser fechado às pressas e o prédio foi cercado por policiais militares, para evitar saques. Dentro do supermercado, policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) ficaram de prontidão para agir em caso de uma invasão. Assustados, clientes que faziam compras deixaram correndo o supermercado, que só reabriu no final da manhã, depois que o grupo Bompreço garantiu a liberação de 150 cestas básicas. Enquanto os sem-terra esperavam uma resposta do supermercado sobre a liberação das cestas básicas, uma comissão formada por lideranças da Comissão da Pastoral da Terra (CPT), dos Movimentos de Libertação do Sem-Terra (MLST), dos Sem-Terra (MST) e do Terra,Trabalho e Liberdade (MTL) negociava com a direção dos supermercados Extra e Unicompra a liberação de mais cestas básicas. Pressão Pressionada pela ameaça das lideranças de também levar o movimento para a porta do supermercado, a direção do Extra -inaugurado há menos de um mês - garantiu a liberação das cestas. O trabalhador rural Antônio Ferreira, membro da CPT, aguardava ansiosamente o resultado das negociações entre os oito líderes com os supermercados. ?Estou com fome. Não comi nada hoje. Trouxe apenas farinha e já acabou?. Ocupação continua A invasão do estacionamento do Bompreço foi feita por um grupo de sem-terra acampado desde a terça-feira na Praça Sinimbu, em frente à sede da Superintendência do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Mais de quatro mil sem-terra continuam ocupando sete órgãos públicos estaduais e federais - o Incra, na Praça Sinimbu e o escritório no Edifício Walmap, a Delegacia do Ministério da Agricultura, Ceal, as secretarias estaduais de Infra-estrutura e Agricultura e o Ministério do Desenvolvimento Agrário. ### Movimento só negocia com ministério O coordenador do MLST, Marcos Antônio Silva (o Marrom), disse que são necessárias seis mil cestas básicas para atender os sem-terra que ocupam os órgãos públicos desde a manhã de terça-feira. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) garantiu a liberação de mais de 50 cestas básicas pela entidade, que apoiou a ocupação do estacionamento do Bompreço pelos sem-terra. NEGOCIAÇÕES Segundo Marrom, os prédios públicos só serão desocupados quando a pauta de reivindicação for atendida pelos governos estadual e federal. ?Se a pauta do governo estadual for atendida, nós desocupamos os órgãos estaduais?, informou Marrom, adiantando que os prédios federais também só serão desocupados após a negociação com o governo federal. Na pauta federal, a aceleração dos processos de desapropriação da Agrisa, terras pertencentes ao INSS e problemas de infra-estrutura nos assentamentos. Marrom garantiu que dessa vez a articulação conjunta dos movimentos sociais não estaria colocando como condição para negociar a saída do superintendente do Incra, Gino César. Porém, o movimento não negocia com Gino César, eles só aceitam negociar com a presença de algum representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Com os dois prédios do Incra ocupados, desde ontem Gino César despacha num escritório na Rua Dias Cabral. Ele garantiu que o processo para desapropriação da Agrisa foi encaminhado ontem para a Secretaria do Gabinete Civil da Presidência da República. Com uma área de 20 mil hectares, o Incra pretende assentar mais de duas mil famílias nas terras da Agrisa. Um dos oficiais do Centro de Gerenciamento de Crises, da PM, major Marcos Sampaio, disse que a Polícia Militar está monitorando as ações dos sem-terra e procurando intervir junto aos órgãos envolvidos com a questão da reforma agrária, para que o tempo de permanência deles seja o menor possível. |FAS ### Grupo pede justiça em mortes ao TJ BLEINE OLIVEIRA Repórter Uma comissão de dirigentes dos movimentos de trabalhadores sem-terra esteve, no final da tarde de ontem, no Tribunal de Justiça de Alagoas. Reunidos com o presidente da instituição, desembargador Estácio Gama de Lima, eles reclamaram da impunidade no julgamento de acusados pelo assassinato de mais de 30 trabalhadores. Além de temas relacionados à violência no campo, as lideranças manifestaram insatisfação com o julgamento das ações de reintegração de posse, quase sempre desfavoráveis aos trabalhadores. ?Viemos discutir várias questões, mas principalmente cobrar punição para os assassinos de nossos companheiros?, disse uma das coordenadoras do Movimento do Trabalhadores Sem Terra (MST), Débora Nunes. Segundo ela, foram cometidos mais de 30 homicídios no campo, em consequência da luta pela reforma agrária, ?mas ninguém está preso?. Gino na berlinda Em Maceió desde a terça-feira, 22, mais de seis mil trabalhadores não têm data para retornar aos acampamentos. ?Não sabemos quando isso vai acontecer? - confirma Denise Nunes. As lideranças esperam ser recebidas pelo governo para discutir as queixas que têm quanto ao avanço da reforma agrária no Estado. O superintendente do Incra, Gino César Menezes, continua criticado pelos movimentos, que o acusam de não garantir as metas de assentamentos. ?É uma gestão descomprometida e vamos dizer isso ao ministro do Desenvolvimento Agrário?, afirma a coordenadora do MST. Segundo Denise, os movimentos não aceitam mais conversar com o ouvidor agrário do Incra.