Cidades
Ref�ns e quebra-quebra marcam 3� dia
FÁTIMA ALMEIDA ODILON RIOS REGINA CARVALHO Repórteres Concentrados em Maceió desde terça-feira, 22, os seis mil trabalhadores rurais ligados aos quatro principais movimentos pela reforma agrária no Estado voltaram ontem a invadir prédios públicos - com servidores feitos de reféns - e apoiar manifestações de estudantes contra aumento da tarifa de ônibus urbano, que terminou em quebra-quebra no prédio da prefeitura, na Praça dos Martírios. Manifestantes do MST, CPT, MLST e MTL invadiram, no começo da manhã, o prédio do Ministério da Fazenda, na Avenida da Paz, e mantiveram como reféns, por mais de duas horas, vinte e cinco funcionários do órgão. A Polícia Militar foi acionada, mas não conseguiu negociar com os sem-terra. Luís Almeida dos Santos, integrante do Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL), disse que os trabalhadores rurais continuarão no prédio. ?Ficaremos aqui até que nossa reivindicações sejam atendidas?, ressaltou Santos. Até ontem os agricultores mantinham sob ocupação as duas sedes do Incra (no Edifício Walmap e na Praça Sinimbu), a sede do Ministério do Desenvolvimento Agrário, a Delegacia Regional da Agricultura, o Ministério da Fazenda, a Ceal, e as sedes estaduais das secretarias de Infra-estrutura e Agricultura e o Instituto de Terras de Alagoas (Iteral). Segundo a coordenação da mobilização, novas ocupações poderão ocorrer caso o ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, não compareça para a discussão da pauta apresentada. A mobilização deve ganhar força com a chegada de mais trabalhadores rurais sem-terra em Maceió. Mas o movimento pode arrefecer, depois de uma reunião, ontem, das lideranças dos sem-terra com o vice-governador Luis Abílio (PDT). Ficou acertado que em troca do empenho do governo em intermediar a vinda do presidente nacional do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Rolf Hackbart, a Alagoas, os manifestantes desocupariam as sedes da administração estadual, o que já começou a ocorrer desde ontem. ### Servidores vivem momento dramático durante ocupação REGINA CARVALHO Repórter A sede provisória do Ministério da Fazenda, na Avenida da Paz, foi mais um prédio público invadido pelos trabalhadores rurais ligados ao MST, CPT, MLST e MTL. Em uma investida ousada, o grupo manteve como reféns, por mais de duas horas, 25 funcionários do órgão. A Polícia Militar foi acionada, mas não conseguiu negociar com os sem-terra. A situação ficou tensa durante o tempo em que os funcionários eram mantidos como reféns. Integrantes gritavam para que ninguém entrasse, desafiando os policiais que permaneceram no lado externo. Parentes dos servidores chegavam ao local e também eram impedidos de entrar. Os policiais militares informaram que não puderam entrar porque se tratava de um órgão federal e que somente a Polícia Federal poderia intervir. Um policial civil, que não quis se identificar, informou que recebeu uma ligação da irmã, que trabalha no Ministério da Fazenda. ?Ela me disse que todo mundo foi colocado numa sala e que todos estavam com medo. Os sem-terra desligaram o ar-condicionado e colocaram os servidores no 1º andar?, relatou o policial, que tentou, em vão, entrar no prédio. Depois de negociação com os próprios funcionários do órgão, aos poucos os trabalhadores foram liberando os reféns. Depois de passar mais de duas horas em poder dos integrantes, Carlos Barromeu disse que estava aliviado. ?Eu estava trabalhando normalmente, quando comecei a ouvir gritos dos meus colegas de trabalho. Todo mundo estava apavorado e começou a correr para dentro das salas?, informou o servidor do órgão. Ele confirmou que um idoso, de Caruaru, que estava dentro do prédio chegou a passar mal quando foi abordado. O expediente foi encerrado e mesmo liberando os servidores os cerca de 200 trabalhadores rurais continuaram ocupando a maioria das salas e o pátio. ?Não tem mais clima para continuar trabalhando depois do que aconteceu?, contou Carlos Borromeu. Uma das lideranças que comandaram a ocupação no Ministério da Fazenda, José Correia, informou que os trabalhadores não têm pressa de desocupar órgaõs públicos de Maceió. ?Enquanto não negociar, a gente não sai daqui?, ressaltou o membro do Movimento Sem Terra (MST). Seis mil integrantes de quatro movimentos chegaram na última terça-feira a Maceió, onde ocupam várias repartições públicas estaduais e federais. ### Estudantes e agricultores agitam Centro FÁTIMA ALMEIDA Repórter Tumulto e destruição no centro de Maceió. Uma passeata de estudantes, engrossada com a presença do movimento sem-terra e partidos políticos, acabou em depredação do prédio da prefeitura. Dois veículos particulares que estavam estacionados no pátio foram danificados. Os manifestantes destruíram grades, derrubaram uma pilastra e quebraram os vidros das janelas a pedradas, antes de invadir o prédio da prefeitura. Do lado de dentro, eles derrubaram uma porta no corredor que dá acesso ao gabinete do prefeito Cícero Almeida, mas foram contidos por funcionários e agentes da Guarda Municipal. Segundo o secretário de Comunicação da prefeitura, Marcelo Firmino, não havia nenhuma solicitação de audiência formulada, e nenhuma pauta de reivindicação foi entregue. ?Eles chegaram, realizaram o ato público e partiram para a invasão. Era um grupamento de estudantes, integrantes do movimento sem-terra e pessoas portando bandeiras de alguns partidos políticos?, diz ele. A assessora do gabinete do prefeito, Fátima Breda, teve o seu carro, um Honda Civic 2003, danificado com pedradas e amassões provocados pela queda da coluna e das grades. ?Vou prestar queixa e quero ser ressarcida dos danos materiais. Alguém tem de responder por isso?, disse ela. ?Tem de entrar com uma queixa-crime contra os dois movimentos (estudantil e sem-terra) e contra os partidos políticos que participaram desse ato de vandalismo?, destacou o secretário-adjunto do gabinete, Paulo Gondim. Ontem mesmo o diretor-geral da Guarda Municipal, delegado João Mendes, registrou ocorrência na delegacia do 1º Distrito. Ele estranhou que o tumulto não tenha mobilizado nenhuma guarnição da Polícia Militar. ?Houve vários chamados e não veio ninguém?, disse ele. Até mesmo estudantes que participaram da passeata consideram um exagero o desfecho da manifestação. ?A maioria dos estudantes saiu quando a situação tomou esse rumo?, disse Hítalo Viana. Ele ponderou, no entanto, que a atitude da prefeitura, em fechar as portas e mandar tirar fotos dos manifestantes provocou a reação. A manifestação dos estudantes era contra o aumento das passagens de ônibus, e pelo passe livre. Eles saíram do Centro Educacional de Pesquisas Aplicadas (Cepa) e desceram rumo ao Centro. A passeata foi engrossada por bandeiras de partidos políticos (PSTU, PSOL e PCR). O trânsito ficou tumultuado ao redor do Centro, e teve de ser desviado em alguns pontos. Ontem à tarde, a Prefeitura divulgou nota oficial repudiando o ato e responsabilizando os partidos políticos ?envolvidos nas ações de vandalismo?. ### Abílio fecha acordo e tenta trazer Incra ODILON RIOS Repórter O governo do Estado vai intermediar a vinda do presidente nacional do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Rolf Hackbart, a Alagoas para conversar com os movimentos sociais que lutam pela terra. A informação foi dada ontem, no começo da tarde, pelo vice-governador Luis Abílio (PDT), depois de uma reunião, a portas fechadas, com os movimentos dos sem-terra, na sede da Vice-Governadoria, no Farol. Após mais de duas horas de reunião, os movimentos resolveram desocupar os prédios públicos da administração estadual e o governo ficou de agilizar a vinda do presidente nacional do Incra a Alagoas. ?Eles solicitaram que tivéssemos um contato com o presidente do Incra em Alagoas. Eu me comprometi que o Estado será intermediário dessa solicitação e espero que o Incra atenda a esse pleito do movimento?, disse Abílio. os prédios da administração federal continuam ocupados, segundo as lideranças dos sem-terra, até que o governo federal sinalize para o cumprimento da pauta dos sem-terra. Brasília Segundo a assessoria de Hackbart, em Brasília, não estava prevista a vinda do presidente ao Estado. Pelas informações da assessoria do presidente nacional do Incra, ele estava ontem na Bahia. ?Há uma proposta boa de uma vinda de Rolf a Alagoas e de irmos a Brasília?, disse o coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Carlos Lima. Se vier a Alagoas, esta será a segunda vez que Hackbart dialoga diretamente com os movimentos no Estado. No começo do ano, os trabalhadores rurais sem-terra ocuparam a Praça Sinimbu e a sede do Incra, pressionando para a queda do superintendente estadual do Incra, Gino César. O presidente nacional do Incra convenceu os sem-terra a desocupar a praça e o Incra alagoano. Ainda na reunião de ontem, que teve representantes da Secretaria de Educação, do gestor de Articulação Colegiada, Pedro Alves, e do secretário de Agricultura, Pesca e Abastecimento, Kléber Torres, o vice-governador se comprometeu a pedir ao governo federal recursos para o mapeamento fundiário do Estado, que justifica não ter R$ 18 milhões, valor do projeto. Na reunião com Luis Abílio também ficou acertada a construção de creches, de um centro de formação na cidade de Atalaia, para os sem-terra, e a distribuição de sementes. Abílio afirmou que o centro começará a ser construído em 15 dias.