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Especula��o empurra fam�lias para vilas

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| FÁBIA ASSUMPÇÃO Repórter A falta de uma política de habitação popular obriga muitas famílias de baixa renda a morar em casas de aluguel que, muitas vezes, não passam de cubículos. Na periferia, esse tipo de moradia se espalha em inúmeras vilas, formadas por casas conjugadas, muitas com apenas um vão e, em alguns casos, com um único banheiro e lavanderia para todos os moradores. Sem contar os esgotos, que correm a céu aberto. Há dois meses, Josinalda Cecília Alves mora com o marido e o filho de oito meses numa minúscula casa, numa das inúmeras vilas que se espalham pelo bairro da Ponta Grossa. Por esse ?luxo?, ela paga um aluguel mensal deR$ 80,00 . Por causa do espaço restrito, os móveis têm de ser o mínimo possível: uma mesa com quatro cadeiras, um fogão e um armário, um rádio, uma cama de casal e um berço. Josinalda, que antes vivia em outra vila com a sogra, diz que gostaria de morar numa casa mais espaçosa. Mas, com o que o marido ganha trabalhando num lava jato - R$ 70,00 por semana -, ela diz que não encontraria um local ao preço do que paga na vila, que já inclui as taxas de água e luz. Mesmo assim, Josinalda reconhece alguns incovenientes em morar na vila, principalmente a falta de banheiro dentro de casa. ?Tem gente que toma banho no emprego, para evitar esse transtorno, principalmente no final de tarde, quando todo mundo que trabalha está retornando para casa?. Também na Ponta Grossa, na Vila São Sebastião, mora Janeide Macário da Silva. A casa dela ocupa um espaço bem maior e dispõe de banheiro. Por causa disso, o aluguel também é mais caro: R$ 100,00 por mês. Janeide ganha menos de um salário mínimo por mês, trabalhando como empregada doméstica. O marido também ganha o equivalente. Por isso, fica difícil alugar casa em outro lugar. O maior incoveniente de morar numa vila, segundo Janeide, é a falta de privacidade. ?Se alguém falar um pouquinho mais alto, todo mundo escuta?, comenta. Janeide disse que se o governo financiasse um programa de moradia, em que o custo corresponde ao que hoje paga de aluguel, ela poderia realizar o sonho da casa própria. ?Hoje, o dinheiro que a gente poderia juntar para comprar uma casa própria, a gente paga de aluguel?. Qualidade de vida Não é apenas na periferia da cidade que existem vilas. Em bairros considerados nobres, como Ponta Verde, Jatiúca e Mangabeiras, é possível encontrar muitas delas. Algumas de bom padrão e que oferecem condições de vida para os moradores. Só que nesses bairros, aos poucos, essas vilas estão desaparecendo, cedendo espaço para os edifícios de apartamentos. Na Rua Desembargador Valente de Lima, em Mangabeiras, as casas vão dando lugar aos edifícios de apartamentos. Mas, no meio do emaranhado de prédios, existem ainda antigas vilas, onde os moradores podem desfrutar da tranqüilidade de uma pequena cidade. A costureira Rosalina Maria da Silva mora há três anos numa dessas vilas. E não se arrepende da escolha. São 10 casas, coladinhas uma na outra, todas no mesmo estilo: sala, dois quartos, banheiro. Lá, todo mundo se conhece. Rosalina trabalha na costura com a janela de casa aberta. Coisa cada vez mais difícil de ser ver, já que os muros encobrem a visão das casas. Baiana, Rosalina disse que veio para Maceió reencontrar a filha, que mora na cidade há mais de 18 anos. ?Eu tenho casa própria na Bahia. Minha filha morava em apartamento, mas nunca gostei. Por isso, ela decidiu vir morar comigo aqui na vila?. A casa, com dois quartos, foi alugada por R$ 220,00. Rosalina reconhece que dificilmente encontraria uma casa por esse preço numa área tão valorizada. Na vila, ela diz que se sente mais feliz. Mas, não tão segura. ? Se fosse colocado um portão na frente, eu me sentiria mais seguro, porque o tempo hoje é outro?, comenta. Marlene e Moacir Pereira, proprietários da vila, construíram as casas há quase 30 anos. ?Quando a gente construiu a vila não tinha nenhuma casa aqui?, conta Marlene. Hoje, em volta da vila além de casas de alto padrão, há vários edifícios; a área passou a ser cobiçada pelas construtoras e imobiliárias. ### Aperto é compensado por tranqüilidade Essa especulação imobiliária, tem empurrado as vilas para a periferia da cidade. Na Ladeira do Calmon, em Bebedouro, existem dezenas. Na Vila Santana, mora Elza Eduarda de Santana, 56. Ela e os irmãos herdaram do pai a vila com sete casas, construída há mais de 60 anos. Entrar na Vila Santana é como estar num pequeno vilarejo no interior. As casas são todas iguais, sem forro, com telhados à mostra. Do lado de fora da vila, o movimento de carros é intenso. Mas dentro tudo é tranqüilidade e os vizinhos podem bater papo à porta de casa. Segundo Elza Santana, não existe espaço para bagunça na vila. A maioria dos moradores é família. A diretora-técnica da Superintendência Municipal de Controle do Convívio Urbano (SMCCU), arquiteta Creuza Lippo Lages, explica que o conceito de vila corresponde a casas conjugadas dentro de um mês lote. Segundo ela, muitas dessas vilas têm um padrão de construção restrito, como os chamados cortiços. Segundo Creuza, muitas dessas construções são irregulares, distorcendo o conceito do que pode ser legalizado, como a existência de casas sem qualquer tipo de ventilação. Ao contrário do conceito de vida das pequenas vilas ainda encontradas nas cidades, muitos moradores de áreas nobres estão se reunindo e se fechando em condomínios fechados por causa da insegurança, diante da crescente onda de criminalidade. Aos poucos, algumas ruas de loteamentos acabaram se transformando em bairros, como Murilopólis, Stella Maris e Aldebaran, e estão sendo fechadas com grades, portões e guaritas com segurança. De acordo com a diretora-técnica da SMCCU, legalmente não há no Código de Edificações e Urbanismo (Lei 5.353/2004) um dispositivo que contemple o fechamento de ruas. Ela disse, no entanto, que tomando como base pareceres da Procuradoria Geral do Município tem sido permitido o fechamento das ruas, considerando alguma situações atípicas. Segundo ela, o principal motivo para as pessoas solicitarem o fechamento de ruas é por questões de segurança. Ele cita como exemplo um caso recente ocorrido no Jardim Petrópolis I, onde estavam ocorrendo vários assaltos, arrombamentos de casas e até estupros. Os moradores fizeram um abaixo-assinado e até conseguiram um parecer favorável da Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (SMTT) para o deslocamento da linha de ônibus que passava pelo local, permitindo assim que a área fosse fechada com portões e guaritas. Creuza ressalta, no entanto, que para que as ruas possam a ser fechadas, elas não podem restringir a passagem dos serviços públicos, como carros de recolhimento de lixo e ambulâncias, além do próprio acesso às pessoas que vão visitar um amigo. | FAS

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