Cidades
Mortalidade infantil em AL supera pa�ses da �frica
NIVIANE RODRIGUES Repórter É fim de tarde e os ônibus começam a chegar trazendo de volta os trabalhadores rurais que estavam no campo desde a madrugada. Na porta de casa, dezenas de crianças brincam na lama que corre nos esgotos a céu aberto. Outras ajudam a mãe a apanhar água na única torneira onde o líquido ainda é encontrado, próximo de um esgoto. Esta situação de pobreza, onde falta saneamento básico, saúde e educação, faz o município de Campo Alegre, no Agreste, liderar a taxa de mortalidade infantil em Alagoas. São 92,8 mortes para cada mil crianças menores de um ano, provocadas principalmente por diarréia e desnutrição. A taxa, divulgada pelo Unicef, é superior a de países da África, como Benin, Gabão, Ruanda e do Paquistão, na Ásia. Associados a outros índices, os números da mortalidade infantil colocam Alagoas na liderança dos estados do semi-árido brasileiro com piores indicadores sociais, seguido do Maranhão e de Pernambuco. Em Alagoas, municípios como Colônia Leopoldina estão com todos os indicadores sociais no vermelho, ou seja, abaixo da média. Entre os 46 inscritos no Selo Município Aprovado, Maragogi tem a menor taxa de mortalidade infantil, com 5,7 óbitos por mil nascidos vivos. Apesar disso, todos os indicadores de educação estão negativos. Barra de São Miguel detém o maior número de grávidas com atendimento pré-natal completo, enquanto São José da Tapera tem a pior cobertura: 4,9%. O relatório do Unicef indica que o quadro de desnutrição infantil mais grave está em Feliz Deserto, onde 19,4% das crianças menores de dois anos apresentam sintomas de desnutrição. Já em Quebrangulo, onde o Unicef apóia o Programa Fazer Valer os Direitos, a taxa de desnutrição é de 0,4%. Delmiro Gouveia tem apenas um indicador acima da média, o de desnutrição infantil. Santana do Ipanema está com apenas dois indicadores (mortalidade infantil e acesso ao pré-natal) acima da média do seu grupo. Os outros sete estão no vermelho. ### Lixo e lama aumentam casos de diarréia entre crianças O consultor de Comunicação do Unicef, Inácio França, diz que o relatório revela uma situação curiosa no quesito educação infantil. Em Pindoba, a taxa de acesso de crianças de até seis anos à escola é de 111,9%, a maior entre os 46 municípios inscritos no selo no Estado. ?Provavelmente porque crianças de municípios vizinhos estão matriculadas na rede municipal de ensino?, diz o consultor. Inhapi, no Alto Sertão, tem a pior taxa de educação infantil. No município, apenas 9,1% das crianças menores de seis anos estudam. O consultor do Unicef revela ainda que, ?curiosamente, a melhor taxa de escolarização entre os concorrentes ao selo Unicef é a de Olho d?Água Grande, com 27,2%. No entanto, o município apresenta desempenho sofrível nos indicadores de saúde. O relatório do Unicef indica ainda que Olho d?Água Grande, Porto Real do Colégio, São Sebastião e Feliz Deserto são os municípios de pior desempenho na microrregião do baixo São Francisco. No Alto Sertão, os municípios que detêm os piores indicadores são Água Branca, Inhapi e Delmiro Gouveia. Já no Litoral Norte, os piores índices concentram-se em Novo Lino, Jundiá e Jacuípe. falta saneamentO Enquanto ações não são implementadas pelos municípios que buscam a conquista do selo do Unicef, a população pobre dessas regiões sobrevive em meio a condições subumanas, como os milhares de moradores de Campo Alegre. Com 40 mil habitantes, o município carece principalmente de saneamento básico e água encanada. Nas ruas, a pobreza chama a atenção de quem entra na cidade pela primeira vez. Josefa Silva da Conceição, 49, divide a casa com nove pessoas, entre filhos e netos. Reclama da falta de água no bairro. ?Aqui mosquito, lixo e lama é o que não falta?, diz, reclamando das doenças provocadas pela falta de saneamento. ?As crianças são as que mais sofrem. É muito menino doente por causa dessa fedentina?, diz. Nas ruas ao lado, uma favela habitada por trabalhadores do corte da cana, o sofrimento dos moradores não é diferente. Com manchas vermelhas por todo o corpo, Pedro Henrique, de 7 meses, chora enquanto a mãe, Erisvânia Tavares, reclama dos esgotos. ?Meu filho vive doente por causa desses esgotos?, diz. No Posto do Programa Saúde da Família (PSF) são constantes os casos de diarréia e desnutrição infantil atendidos, segundo a diretora Jacklyny Smith.|NR