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Nº 5752
Cidades

A beleza escondida no centro de Macei�

CARLA SERQUEIRA Repórter Só quem se dispõe a caminhar olhando para o alto pode ver a beleza que tem o centro de Maceió. Em todas as ruas, casarões e sobrados sustentam a sua história e, por meio da arquitetura, remontam ao desenho de suas origens. D

Por | Edição do dia 11/12/2005 - Matéria atualizada em 11/12/2005 às 00h00

CARLA SERQUEIRA Repórter Só quem se dispõe a caminhar olhando para o alto pode ver a beleza que tem o centro de Maceió. Em todas as ruas, casarões e sobrados sustentam a sua história e, por meio da arquitetura, remontam ao desenho de suas origens. Diante de seu valor histórico, em 1997 o Centro foi reconhecido como Zona de Proteção Rigorosa. Hoje, prestes a ter seu mais novo piso inaugurado, é nas paredes que estão as marcas do abandono. Não é difícil flagrar fachadas em completa degradação. Entre os prédios antigos da Rua do Comércio, o que mais chama a atenção, tanto pela beleza como pelo abandono em que se encontra, é um sobrado de dois andares, o único no Centro coberto por azulejos portugueses. Ele data do início de 1900 e é hoje patrimônio da União, sob a responsabilidade do município. Edvaldo Peixoto da Silva tem 22 anos e desde os dez comercializa aparelhos eletrônicos. Certo dia, após uma manhã chuvosa, um pedaço do prédio acertou em cheio a sua cabeça. “Pensei que fosse algum trombadinha, mas reconheci os detalhes da cerâmica”, conta. Após o acidente, ele mudou de calçada. “Canso de ver turistas lamentando o seu estado quando o percebem. Falaram em restaurar, mas até agora, nada”, comenta Edvaldo. O sobrado, segundo Paulo de Tarso, membro da Gerência Regional do Patrimônio da União em Alagoas, foi cedido para o município há cerca de quatro anos. A intenção da prefeitura era alojar a Procuradoria Geral do Município lá. “Mas eles não fizeram a restauração. O prefeito mudou e até agora não encontramos solução para ele”, diz. Existe um projeto para recuperar o prédio, concebido pela coordenadora-geral do Patrimônio Histórico de Maceió, a engenheira Gardênia Caetano, a mesma profissional que assina as obras de requalificação do Centro. “Ainda estamos discutindo a função que ele terá”, diz, sem revelar maiores detalhes. “O grande problema é a verba. O prédio está destruído e qualquer restauração não custa menos de R$ 1 milhão”, observa ela. ### Detalhes da arquitetura revelados em 150 imagens Foi com uma máquina fotográfica que a psicóloga Viviani Duarte conseguiu desvendar a beleza escondida do Centro de Maceió. Quando não estão tomados por fungos e cupins, os casarões e sobrados estão distantes dos olhos dos pedestres por conta da poluição visual. “Estamos em 2005, daqui a algum tempo pode ser que não exista mais patrimônio histórico. Muitos prédios já desapareceram, mas quando terminei o trabalho, me surpreendi com a quantidade de imóveis centenários que ainda temos”. Foram cinco meses de pesquisa. De suas andanças no calçadão, Viviani extraiu mais de mil imagens. As melhores - cerca de 150 fotografias - podem ser vistas na Associação Comercial de Maceió até o final de janeiro na exposição intitulada Centro no Foco. A psicóloga mora próximo ao comércio e admite que só conseguiu reparar os detalhes de alguns prédios depois das fotos reveladas. “A beleza do prédio da Escola Técnica do Comércio me surpreendeu. Até as igrejas eu comecei a ver de outra forma”. Ela lembra que o Centro de Maceió serviu como referência para muitas gerações passadas. “As reuniões e as festas aconteciam no Centro. Hoje a juventude mal o freqüenta. É preciso levar para lá atividades culturais, valorizar o seu potencial turístico. Os shows que estão ocorrendo na praça dos Martírios já são um começo”, avalia ela. CS ### Desenhos mostram influências distintas A arquitetura do Centro de Maceió foi constituída em épocas distintas. Alguns prédios datam do período colonial, como boa parte das igrejas, palácios e armazéns. Outros exemplares são originários do começo do século passado, entre eles boa parte dos sobrados e lojas ainda hoje existentes. Uma terceira linhagem surge após a década de 1920 e se estende até os dias de hoje, com o aditivo da tecnologia. Professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), o urbanista Pedro Cabral explica que “em cada momento da história a arquitetura expressa seu modo participativo, tentando falar a linguagem contemporânea. Mas nunca esquece de dialogar com o passado, na intenção de guardar a memória de um povo”. De acordo com Cabral, a maior parte dos edifícios que formam o conjunto arquitetônico do Centro foi construída no final do século 19 e início do século 20 - entre eles os diversos sobrados e algumas lojas ainda existentes no comércio. “Estes prédios representam o período de transição, marcado pelo ecletismo”. Essa escola é caracterizada pela mistura de tendências, com a presença significativa de detalhes e ornamentos. Tal variação multiplicou-se tentando se afirmar nas fases de mudanças. Sobre a dinâmica social, o professor faz um alerta. “A dinâmica social, movida pelos processos evolutivos, muitas vezes atropela as marcas culturais da vida urbana. Assim, edifícios que narram momentos econômicos, sociais, históricos e até culturais desaparecem nos entulhos do progresso”, observa. Efeito modernista Outros prédios históricos do Centro são mais recentes, mas não menos importantes para entender a formação de Maceió. Eles foram concebidos a partir das inovações trazidas pelo modernismo, após a década de 1920. “Esse movimento”, diz Pedro Cabral, “ainda representa fortemente a arquitetura contemporânea da cidade”. Ele explica que os pós-modernistas decretaram o fim do modernismo em 1960, mas não conseguiram superar seus conceitos. “Para muitos estudiosos, o modernismo na arquitetura ainda é a contemporaneidade”. Em Maceió, esse estilo arquitetônico é representado pelo uso de pilotis - quando a tecnologia permitiu a utilização do concreto armado, a exploração de aberturas maiores nas fachadas e interiores planejados com vãos mais amplos. “Um exemplo é o prédio que abriga o Tribunal de Contas da União, construído com aço e vidro, na Praia da Avenida”. Outros exemplos de edificações modernistas são os dois monumentos construídos este ano em Maceió - o da República, em Jaraguá, e o Memorial Teotônio Vilela, na Pajuçara. Mas os primeiros exemplares de prédios chamados modernos estão no Centro e podem ser representados pelo Edifício Breda, o Edifício Luz - sede da Secretaria Executiva de Ressocialização -, e o prédio conhecido como Montemáquinas, instalado diante da antiga Telasa, hoje Telemar. “O estilo modernista se divide em duas vertentes: a funcionalista, presente nos prédios citados, e a chamada orgânica, quando houve uma aproximação entre a arquitetura e a natureza, valorizando o conforto do usuário. São mais comuns em residências unifamiliares”, explica Cabral. CS ### Fachadas originais foram modificadas Desde 1997, o Centro de Maceió foi estabelecido como uma Zona de Proteção Rigorosa. O decreto municipal de número 5.700 diz que as edificações são de interesse histórico e arquitetônico e estão sujeitas a um rígido controle. No entanto, o que se flagra bem no seio desse espaço são prédios centenários caindo aos pedaços. A responsabilidade, segundo Aderciany Souza, da Unidade Executora Municipal (UEM), setor da Secretaria de Planejamento que monitora as intervenções em prédios históricos, é, principalmente, da sociedade. “O poder público faz a sua parte e a população precisa fazer a dela”, afirma, ao se referir à valorização do patrimônio da cidade. “O essencial é que cada proprietário de prédios antigos como os encontrados no Centro procure os órgãos competentes antes de realizar alterações nas fachadas”, diz ela. Outro problema comum que muitas vezes acompanha a degradação da Zona de Proteção Rigorosa é a falta de informação. No mesmo decreto estão assegurados descontos em impostos que podem durar até dez anos para quem resolver investir em seus edifícios conservando suas características originais. Elenilce Solon da Silva é dona da San Remo, uma das poucas lojas do Centro que manteve a fachada original do edifício e nele anexou um leve letreiro para não encobrir a beleza do prédio. “Mas a gente percebe que estas portas estreitas não são favoráveis para o comércio. O cliente não está habituado, parece que se intimida. Se pudéssemos, alargaríamos um pouco a entrada”, observa a comerciante. O proprietário das farmácias São Luiz, Élcio Sampaio, tem suas lojas instaladas em dois monumentais edifícios - um na rua Moreira Lima e outro na rua do Comércio. Ele se diz um apaixonado pela arquitetura de seus imóveis. O primeiro é um casarão de dois andares construído em 1902. O segundo é um exemplar do chamado estilo eclético. Na fachada, a forma curiosa de uma ferradura. Élcio conta que quando adquiriu o imóvel modificou as portas. “Na época eu não tinha a visão que tenho hoje. Se eu pudesse voltaria no tempo e deixava como era”. Ele diz que nunca foi procurado pela prefeitura e também nunca a procurou para fazer valer os seus direitos. “Mas dou o maior apoio para quem investe na manutenção da arquitetura original dos prédios. Em Recife, o Centro é todo conservado e nele funciona todo tipo de atividade. Maceió também pode chegar lá”, torce. |CS ### Proposta de habitar Centro é discutida Uma das alternativas estudadas para garantir a manutenção dos equipamentos urbanos do Centro de Maceió é incentivar a moradia no bairro. Com o objetivo de descobrir qual o perfil da população que viria a habitar o Centro, a professora Maria Emília de Gusmão Couto, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), coordenou a pesquisa intitulada Centro Histórico: Lugar de Moradia?. Para chegar aos resultados, ela contou com a colaboração das bolsistas Geisa Brayner, Márcia Acioly, Elza Maria, Raquel Santa Rita e Letícia Brayner durante um ano - de julho do ano passado a julho deste ano. Financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal), a equipe conversou com 40 usuários do Centro e 22 ‘intelectuais’ (todos com nível superior), além de moradores e ex-residentes do bairro. O estudo levantou que até 1950 o Centro de Maceió manteve uma razoável harmonia entre moradia e comércio. Depois de 1960, o aumento da população e o crescimento da cidade definiram novos espaços urbanos, enquanto a arquitetura moderna induziu a outros hábitos, desencadeando exigências inéditas no ato de morar. Desse modo, o Centro foi perdendo os seus moradores, permitindo que as casas fossem ocupadas pelo comércio e serviços da época. As bolsistas observaram que grande parte dos edifícios, hoje, só têm o térreo ocupado - por isso, há espaços para futuras residências. A maioria das pessoas consultadas, no entanto, observou as questões da falta de infra-esturura e da violência como pontos negativos para a instalação de moradias no Centro, embora tenham salientado a vantagem de morar perto de bancos, padarias, escolas e demais serviços. O relatório final do estudo diz que os jovens são mais favoráveis à idéia de morar no Centro. Já entre os idosos foi unânime a negativa quanto a voltar a residir próximo ao comércio - a proposta foi considerada um retrocesso. Já o grupo dos intelectuais apresentou atitudes positivas ao alegar o resgate da identidade local, vinculada aos valores históricos e patrimoniais. CS ### Requalificação exclui prédios históricos A idéia de incentivar a moradia em prédios antigos também foi discutida nas assembléias do Plano Diretor de Maceió. No entanto, na opinião da coordenadora da Unidade Executora Municipal (UEM), Adeciany Souza, um futuro repovoamento do bairro do Centro seria mais viável com a instalação de novos serviços, como hotéis, escolas e atividades recreativas. Coordenadora geral do Patrimônio Histórico de Maceió, Gardênia Caetano acredita que é necessária primeiro a conscientização dos proprietários diante do valor histórico de seus prédios. “A idéia de atrair moradores demandaria recurso financeiro e para se realizar qualquer obra de grande porte é essencial que haja uma campanha para arrecadar verba junto ao governo federal. A obra de requalificação do Centro, por exemplo, está sendo pleiteada desde a década de 1990”, diz. Gardênia explica que os casarões e sobrados que compõem a Zona de Proteção Rigorosa não foram incluídos no projeto de requalificação do Centro da cidade por se tratar de bens privados. “Não podemos investir dinheiro público em imóveis particulares”, justifica. “Mas acredito que a conclusão desta primeira etapa do projeto vai incitar os proprietários a realizar investimentos na aparência de seu próprio estabelecimento”, pondera. Poluição visual Outro problema observado no Centro de Maceió é a presença exagerada de letreiros nos edifícios históricos. “Este problema só será resolvido com campanhas educativas. Os donos destes estabelecimentos precisam entender que eles têm edifícios representativos da história da cidade, por serem únicos. É, inclusive, uma questão cultural de valorização. O que a gente nota são investimentos isolados. Quando os empresários perceberem que fazem parte de um todo, vão começar a mudar o seu relacionamento com o Centro”, acredita Gardênia. O empresário Climério Correia Ferro está instalado próximo à Praça Montepio desde o ano de 1986. Ele mantém um bar e um laticínio em dois edifícios históricos distintos. “É bom para a clientela. Muita gente vem em meu bar por causa da fachada. Recebo turista de tudo que é lugar. Já veio gente até da Alemanha”, diz o comerciante, que não acredita no sucesso do repovoamento do bairro. “Ainda moro no Centro, mas sou o último de minha rua. Seria preciso melhorar muito a infra-estrutura. Além disso, creio que muita gente não viria. Está perigoso por aqui”, alerta. Diferente de “seu” Climério, outros empresários escondem a arquitetura original com peças publicitárias. “Seria muito bom que todos investissem na preservação dos imóveis. Temos um Centro muito elogiado pelos turistas, mas pouco reparado pelos maceioenses”, diz ele.|CS

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