Cidades
Aposentado morre ap�s 5 horas na fila
| CARLA SERQUEIRA Repórter Um aposentado morreu ontem, na fila do posto Ary Pitombo do Instituto Nacional de Serviço Social (INSS), em frente à Praça dos Palmares, no centro de Maceió. José Júlio Filho sofreu uma parada cardíaca após dois desmaios na porta do banheiro feminino e teve morte súbita. Aos 66 anos, o aposentado, acompanhado da esposa Sebastiana Firmino da Silva e de mais outra parente, Lenira Francisca Gomes, 44, chegou ao posto às 7h para saber se teria direito ao 13º salário. Durante a longa espera, sentiu doer o peito. Pediu para ir ao banheiro e lá começou a sentir tonturas. De acordo com Lenira, José Júlio desmaiou por alguns minutos e depois recuperou a consciência. Da segunda vez não acordou mais. ?Chamamos a ambulância da Samu [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência] desde o primeiro desmaio, mas ninguém veio socorrer. Depois de meia hora ele ?apagou? de novo e foi aí que veio a médica do INSS?, disse ela. A médica, Jussara Vieira, logo que chegou ao posto, às 11h45, recebeu o chamado de urgência. ?Corri e o encontrei caído no corredor dos banheiros, já sem pulsação e sem batimentos cardíacos. Tentei reanimá-lo com massagens e respiração boca a boca, mas suas extremidades estavam roxas e frias. Havia suado muito. Logo vi que ele já estava morto?, revelou a médica, ao acrescentar que o aposentado era considerado um tabagista crônico. Segundo o gerente-executivo do INSS, Ronaldo Medeiros, o aposentado permaneceu por apenas 35 minutos na fila. ?Ele só veio aqui pedir uma informação?, afirma, dizendo que o aposentado havia ido fumar dentro do banheiro. Já Lenira Francisca Gomes, parente do aposentado que estava com ele no momento de sua morte, garante que esperaram muito no posto. ?Chegamos lá às 7h e ficamos até 12h sem ser atendidos?. Ela acredita que faltou assistência médica. ?Se a ambulância tivesse vindo assim que chamamos, ele teria o segundo desmaio na presença de médicos e poderia ter escapado?. De acordo com ela, a ambulância não chegou em nenhum momento. O corpo foi transportado num carro do INSS porque o Instituto Médico Legal (IML) só trabalhou ontem com uma viatura. ?Passamos a manhã toda no INSS e não resolvemos nada. Aconteceu esta desgraça e o gerente do posto, na frente dos repórteres, disse que iria ajudar a família no funeral, mas depois fui procurá-lo e ele negou a ajuda?, reclama Lenira Francisca, explicando que a família de José Júlio dependia dele para sobreviver. ### Reclamação é geral entre usuários do INSS Havia muita gente na manhã de ontem à espera de atendimento no Posto do INSS onde José Júlio Filho faleceu. ?Passamos muito sufoco todas as vezes que precisamos vir aqui. Está sempre cheio de gente. Já vi senhores passando fome na fila, com sede, sem assistência nenhuma?, disse a aposentada Cleonice Cavalcante, 55 anos. Cleide Menezes da Silva, 59, chegou às 8h de ontem ao posto do INSS e afirmou que José Júlio e sua esposa já esperavam na fila. ?Só ouvia ele dizer: ?estou com agonia! estou com agonia!?, disse. Maria Ivanilda dos Santos, 41, foi socorrer o aposentado quando soube que ele havia desmaiado. ?Eles estavam perto de mim na fila. A mulher dele foi ao banheiro para ver se ele precisava de ajuda e voltou desesperada, dizendo que ele estava ficando roxo. Eu acho que houve demora no atendimento médico?, afirmou. Último desejo Pai de sete filhos e avô de 15 crianças, José Júlio Filho morava no Jacintinho com a esposa e um neto de 13 anos. Foi por meio de um primo que Maria Aparecida dos Santos, 27, filha caçula do aposentado, recebeu a notícia. Emocionada, enquanto esperava a liberação do corpo pelo Instituto Médico Legal, ela falou dos últimos instantes do pai. ?Meu pai parecia saber que iria morrer. No domingo ele disse para minha mãe que estava chegando a hora dele e por isso ela fizesse a calçada que ele tanto queria?, contou. José Júlio Filho ainda bebia e fumava. ?Ele sempre reclamou de dores no peito, mas parecia estar bem. Não pensei que fosse morrer assim. Esta será a festa de final de ano mais triste de minha vida?, declarou Maria Aparecida, dizendo-se muito apegada ao pai. O gerente-executivo do INSS afirmou que vai se informar com os advogados da instituição para avaliar que procedimentos tomar. ?Aqui não é ambulatório. Não podemos nos responsabilizar?, disse ele, ao anunciar que a partir do dia 2 de janeiro o posto vai funcionar das 7h às 19h para tentar desafogar as incansáveis filas do INSS.