Cidades
Encontro revela talentos infantis
| CARLA SERQUEIRA Repórter Sheila Nunes Pereira, 13 anos, perdeu a infância quebrando fumo nas plantações de Arapiraca. Everlando Luís da Silva, 13, também não brincou muito quando era criança. Em Viçosa, era obrigado a pegar na enxada todos os dias para ?cortar mato? na roça da família. Na capital, foi a violência que forçou a pequena Sheila Daiane de Lima, 10, a amadurecer antes da hora, cuidando dos irmãos mais novos. Inscritos no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) em Alagoas, hoje, os três conseguem vislumbrar um futuro que há três anos sequer imaginavam existir. ?Toda manhã eu tinha que ir estalar fumo. O sol era quente demais e a gente acabava ficando com dor de cabeça?, contou Sheila Pereira, que ontem apresentou a performance da ?Boneca de Pano? ao lado do primo, Gabriel Farias, 14 anos. ?Agora está tudo melhor. Estou mostrando a minha arte e o povo tem gostado. Quero ser bailarina profissional e sei que vou conseguir?. O pequeno Everlando se tornou o melhor aluno de capoeira de sua cidade, segundo o monitor da turma, Ezequiel dos Santos. ?Quero crescer na capoeira e também quero estudar computação?, revela. Já Sheila Daiane mora no Tabuleiro do Martins e diz ter dúvida do que pretende fazer quando adulta. ?Estou pensando ainda. Ou vou ser dançarina ou atriz?, adianta. Ao todo, mais de 500 crianças compareceram ao Teatro Gustavo Leite, em Jaraguá, ontem para assistir ao 3º Encontro Estadual do Peti, onde foram apresentados trabalhos desenvolvidos no ano 2005 por mais de 20 Petis de Alagoas. O programa atende 34.815 crianças e adolescentes nos 102 municípios alagoanos. Na abertura do evento, a procuradora-chefe da Procuradoria Regional do Trabalho, Virgínia Gonçalves, entregou ao vice-governador Luis Abílio uma réplica do documento assinado pelo governador Ronaldo Lessa em agosto do ano passado, se comprometendo a atuar no combate ao trabalho infantil em Alagoas. ?Ainda enfrentamos a falta de apoio do governo?, diz a procuradora. ?Apelamos para que as prefeituras também se empenhem nesta luta que é de todos os gestores?, alertou. Luis Abílio afirma que o trabalho infantil só será erradicado com uma parceria dos governos federal, estadual e municipal. ?Este evento é sem dúvida uma vitória, mas ainda temos muito o que fazer?, reconhece, ao lembrar dos meninos de rua. ?Fundamental é dar oportunidade a estas crianças?, avalia. Criado em 1997 pelo governo federal, o Peti é um programa de transferência de renda para famílias carentes que contam com os filhos para arrecadar dinheiro usado no sustento familiar. Cada criança inscrita tem direito a R$ 40 na capital, e no interior, a R$ 25. O secretário-executivo de Inserção e Assistência Social, Jurandir Bóia, acredita que a solução para diminuir o trabalho infantil depende de oportunidades. ?Aqui a gente pode ver que existem artistas natos. Talentos que estariam sendo desperdiçados se não fosse dada oportunidade?, disse. Estiveram presentes o promotor do Núcleo de Defesa do Direito da Criança e do Adolescente, Ubirajara Ramos, a secretária municipal de Assistência Social, Elizabeth Marques, e o juiz do Trabalho, Afonso Júnior.