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Assentados se rendem � agroecologia

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| FERNANDO VINÍCIUS Repórter Maragogi - Vivendo desde 1997 no assentamento Bom Jesus, José Barbosa dos Santos, o ?seu? Zuza, apostou no cultivo baseado na agroecologia e já colhe os frutos gerados pela opção. Aos 60 anos mostra com orgulho o plantio de maracujá, fonte principal de receita que mantém toda a sua família no campo. Ele lembra que ao chegar às terras, que ficam a 26 quilômetros do centro de Maragogi, foi orientado por técnicos da época a plantar inhame, mas perdeu os 4 mil pés cultivados por causa de fatores climáticos. ?Só deu as varas?, relembra seu Zuza. O pequeno agricultor conta que no ano seguinte a assistência técnica o fez optar pela mandioca. Como a variedade da raiz oferecida não era resistente à chuva - durante o período de inverno a região apresenta um dos maiores índices pluviométricos de Alagoas - ele perdeu toda a produção que ocupava os três hectares da sua parcela. Abandonando as culturas tradicionais de subsistência, passou para a fruticultura, especificamente laranja, maracujá e coco. A escolha tinha como fundamento sua experiência pessoal com plantações de variedades frutíferas, opção presente na vida de quase todas as 102 famílias que moram em Bom Jesus, o assentamento mais produtivo de Maragogi. A maioria dessas pessoas veio da zona rural de Penedo, Piaçabuçu, Igreja Nova e São Sebastião. Algumas também moraram em Pindorama, experiência de cooperativismo bem-sucedida que tem sua área dentro dos municípios de Penedo e Coruripe. Recebendo assistência técnica e social do Movimento Minha Terra (MMT), uma organização não-governamental alagoana fundada em 1996 especializada em elaborar e executar projetos agroecológicos, pequenos agricultores como seu Zuza estão diversificando suas atividades. Grupos que vivem nos assentamentos São Bento, São Pedro, Espírito Santo e Itabaiana, além do Bom Jesus, foram selecionados entre os 17 existentes em Maragogi devido à boa aceitação por parte dos agricultores em relação aos fundamentos da agroecologia. ?Aqui ninguém toca fogo em nada, nós aproveitamos o mato porque ele vira adubo?, esclarece seu Zuza, caminhando entre as filas de coqueiro-anão, 150 pés plantados há cerca de três anos. A aparente falta de cuidado vista no chão, em volta da base dos troncos, revela as chamadas ?coberturas mortas?. O técnico agrícola do MMT José Vasconcelos da Silva Junior, 23, orienta os trabalhos desenvolvidos por seu Zuza e afirma que a cobertura morta ?impede o crescimento de ervas daninhas, conserva a umidade do solo e torna-se adubo ao se decompor naturalmente?. Outro exemplo de reaproveitamento do que teria como destino o lixo são as ?sopas de plantas?, denominação para a mistura formada por vários ingredientes, incluindo esterco fresco, restos de frutas, açúcar, ?pó de rocha? MB4 - importante fonte de potássio - e leite. Diluída na proporção de meio litro de ?sopa? para 20 de água, a mistura é pulverizada nas plantas como forma de adubação foliar. ?O preparado é tão forte que se for usado sem a adição da água queima a planta?, informa o técnico Vasconcelos Junior. O manejo ecologicamente correto preserva ecossistemas e proporciona melhoras econômicas para quem segue os princípios da agroecologia. Seu Zuza passou por dificuldades financeiras por causa das perdas sofridas anos atrás. Hoje tem uma renda mensal que chega a R$ 600, descontadas as despesas com transporte dos produtos para as feiras que comercializam exclusivamente produtos certificados pelo MMT em Porto Calvo e Maceió. ### De volta ao campo e aos bancos oficiais Em outra parcela do assentamento Bom Jesus mora João José da Silva, 60, mais conhecido como ?João Padeiro?, agricultor que seguia princípios da agroecologia antes mesmo de ter conhecimento formal sobre o assunto. Morando há oito anos no lote com a esposa Isaura da Silva, conseguiu trazer os filhos de volta de São Paulo porque ?as coisas por aqui melhoraram?. Entre os que voltaram está Eliana Alcântara, 30, atual presidente da Associação dos Agricultores de Maragogi (Agromar), entidade que reúne 62 famílias que seguem a filosofia da agroecologia. Eliana passou um ano e meio longe de casa e eleita para presidir a entidade, destaca a luta que resultou na concessão de financiamento do Pronaf A - linha de crédito do governo federal - para nove produtores associados, um avanço que deve ser comemorado já que praticamente todos os assentados estão endividados junto aos bancos oficiais, situação que impede a liberação de novos empréstimos. Sobre as dificuldades encontradas na Agromar, cita a divisão de despesas para o transporte dos produtos até as feiras. ?A divisão do custo é proporcional à quantidade de produtos que cada um coloca no caminhão e tem gente que não aceita bem isso. Não é justo fazer com que o agricultor que está mandando menos mercadorias pague igual ao que está levando mais?, esclarece a presidente da Agromar. Problemas à parte, Eliana participa do cotidiano da família e raspa mandioca na casa de farinha, enquanto seu pai se aproxima com uma garrafa de manipueira para mostrar à reportagem da Gazeta. Dentro da garrafa de embalagem PET, João Padeiro guarda o líquido utilizado como inseticida natural. Sub-produto da mandioca, é empregado para o controle de pragas como lagartas, insetos, formigas e vermes como o hematóide que ataca a raiz das plantas. A manipueira passa por um processo de fermentação durante três dias em ambiente fechado para poder ser usada. Sobre os agrotóxicos, João Padeiro diz que sempre acreditou que eles fazem mal às plantas e às pessoas, por isso nunca usou. |FV ### Diversificação reforça sistema adotado Cícero José da Silva, 43, vive no lote localizado no assentamento São Pedro e também adotou o sistema agroecológico para cultivar bananas prata e comprida. Morando com sua esposa Vera Lúcia e mais quatro filhos, Cícero lembra as necessidades vividas há sete anos. ?Quando eu cheguei aqui quem me sustentava era minha mãe. Ela tem uma venda em São Bento e toda semana eu ia lá apanhar uma feira. Passei um ano nessa situação porque o dinheiro que eu tirava daqui era muito pouco?, recorda. Sua renda mensal atual gira em torno de R$ 600, média alcançada pela maioria dos assentados que optaram pela agroecologia. Ele é um dos beneficiados pelo financiamento do Pronaf, viabilizado por intermédio da Agromar. Com os recursos vai diversificar suas atividades comprando galinha de capoeira, vacas e ovelhas, além de investir novamente em hortaliças, atividade que colocou em segundo plano porque não conseguia comercializar o que plantava. A escolha pelos animais não é feita de forma aleatória, faz parte do ciclo existente dentro do sistema adotado. Um exemplo é o uso de urina da vaca, ?uréia pura e fonte de potássio e nitrogênio?, explica Marcílio Souza Silva, estudante de Agronomia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) que acompanhava a visita. Ele é membro do Grupo de Estudos Agroecológicos Craibeiras (GAC) formado atualmente por 20 alunos que reivindicam a absorção dos conceitos agroecológicos pela universidade, fazendo o caminho inverso da extensão tradicional. ?Ao invés de levarmos o conhecimento acadêmico para a sociedade, estamos trazendo informações de fora para dentro da universidade?, comentou o estudante, que está no último ano do curso. A resistência encontrada dentro do mundo acadêmico pela nova filosofia defendida no GAC também pode ser observada além das cercas da Ufal. No retorno da visita aos assentados, encontramos fogo em um resquício de mata, provavelmente para formação de pasto, prática condenada pelos seguidores da agroecologia. Queimadas e restrição ao conhecimento são práticas que remetem à Idade Média, mas pelo jeito fazem eco até hoje. |FV

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