Cidades
Artes�os aprendem arte de comercializar
| FERNANDO VINÍCIUS Repórter Maragogi - Artesãos de Maragogi estão sendo capacitados para melhorar a comercialização dos produtos. Desde o tradicional bolinho de goma ao reaproveitamento de embalagens do tipo PET, todos os trabalhos começam a passar por um processo de organização que já identificou todos os tipos de artesanato produzido de um extremo ao outro do município, que ocupa o segundo lugar entre os destinos turísticos de Alagoas. O trabalho, coordenado pela Incubadora Empresarial de Maragogi (Iemar), teve início na última quarta-feira, 28, no encontro que reuniu 67 pessoas na sede da Cooperativa de Pequenos Agricultores Organizados (Coopeagro). A primeira reunião de uma série programada para ocorrer em janeiro serviu para identificar quais são os tipos de artesanato produzidos no município. O ponto de partida ficou a cargo da consultora independente Rita de Cássia Lima, profissional com experiência de 15 anos em metodologias participativas, contratada pela Iemar. Rita de Cássia ficou impressionada com a variedade identificada - vinte produtos ao todo -, produção que abrange comunidades da zona rural e artistas estabelecidos no centro da cidade. Atividades tradicionais como o crochê e diversos tipos de bordado juntaram-se às inovações proporcionadas pela reciclagem de garrafas do tipo PET, a difusão do uso da palha da bananeira e o reaproveitamento de escamas de peixe e algas marinhas. A etapa de identificação do artesanato gera subsídios necessários para o desenvolvimento das fases seguintes. ?Sabendo o que temos, quem faz o quê e onde as variedades são encontradas, podemos agrupar algumas atividades que vão precisar de determinada orientação mais adiante. O que uma produtora de doces caseiros necessita pode ser diferente da carência identificada entre as bordadeiras?, explicou Rita de Cássia. Apesar das diferenças, a maior dificuldade é comum para quase todos os artesãos e refere-se à comercialização dos produtos. Gargalo Maria Cícera Mendonça de Araújo, ou Carol, como é conhecida, mora no assentamento Massangana e preside a Associação de Mulheres Agricultoras Estrela do Oriente, entidade fundada em 2002 onde as associadas confeccionam e vendem bordados, trabalhos artesanais feitos com palha de bananeira e doces em calda preparados com frutas cultivadas no próprio assentamento. Todas as atividades apresentam baixo retorno financeiro, por falta de um local de vendas fora da agrovila. ?Nós até chegamos a trabalhar durante um tempo na feira de São José da Coroa Grande [Pernambuco], mas desistimos por falta de barracas padronizadas e outras dificuldades?, reconheceu Carol. Mesmo localizado em território alagoano, o assentamento fica mais próximo da cidade pernambucana do que do centro de Maragogi. O percurso entre a agrovila de Massangana e a rodovia AL-101 Norte tem cerca de 5 quilômetros de estrada de barro, distância que não é vista como empecilho. A presidente da Associação Estrela do Oriente disse que ?se a gente tivesse recebido as barracas que nos prometeram, poderíamos pelo menos montar pontos-de-venda na beira da pista. Assim ninguém precisaria ir até o assentamento pra comprar nosso trabalho?. A boa aceitação do artesanato local é comprovada durante a participação em feiras e exposições, a exemplo do evento realizado em outubro de 2005 somente com trabalhos confeccionados em cidades do litoral norte de Alagoas. A exposição no maior shopping de Maceió durante uma semana rendeu cerca de R$ 14 mil, soma resultante da venda de todos os municípios - Passo do Camaragibe, São Miguel dos Milagres, Porto de Pedras, Japaratinga e Maragogi - beneficiados por investimentos patrocinados pelo governo estadual por meio do Fundo de Microcrédito do Estado de Alagoas (Funcred) e do Banco Cidadão em parceria com o Sebrae e as prefeituras. ### De aluno a instrutor, artista sonha alto Filho de agricultores nascido e criado em Maragogi, Isaías José de Lima, mais conhecido por Isaías Artesão, descobriu na juventude as habilidades manuais que se tornaram sua principal fonte de renda. Utilizando matéria-prima encontrada com fartura na região, ?seu? Isaías especializou-se em trabalhar peças a partir de quengas de coco. Em 2000, juntamente com 27 pessoas, participou de uma capacitação promovida pelo Sebrae que ensinou técnicas direcionadas ao reaproveitamento da palha da bananeira, cultivo largamente difundindo na zona rural do município. No curso aprendeu como fazer tapetes de diversos tamanhos, jogos americanos, bolsas de modelos variados, chapéus, cintos, tranças e cordas. Dos 28 alunos concluintes, Isaías de Lima conta que apenas ele e ?dona? Helena permanecem em atividade até hoje. Os demais desistiram, segundo o artesão, porque pensaram que iriam ter rios de dinheiro quando na verdade o retorno financeiro nem sempre é imediato. ?Também é preciso ter vocação para o artesanato e gostar muito do que se faz?. Unindo sua habilidade manual às inovações aprendidas em sala de aula, Isaías de Lima passou de aluno a instrutor. multiplicador A primeira oportunidade de ensinar trabalhos artesanais com palha de bananeira, especialidade que incorporou definitivamente a sua produção, o levou em 2002 aos assentamentos Bom Jesus e Água Fria, ambos localizados em Maragogi. No ano seguinte foi convidado para repassar as técnicas em Matriz do Camaragibe e depois em Maceió, no Armazém Sebrae. Em 2005, trabalhou na capacitação promovida para cerca de 60 artesãos que vivem no Litoral Norte. ?Recebi para trabalhar em todos eles, cursos que além do dinheiro, proporcionam projeção e o reconhecimento do meu artesanato?, afirmou. Trabalhando ainda como caseiro, ?emprego assalariado?, Isaías está esperando o patrão voltar das férias para deixar o serviço e se dedicar exclusivamente à arte. ?De setembro pra cá, se não fosse pelo inverno, eu estaria fazendo em média 2 mil reais por mês trabalhando pra mim mesmo?, estimou. Com pouca matéria-prima disponível, ele não perde o estímulo e só lamenta a opção dos filhos mais novos por outras profissões. ?Se além do mais velho, os outros estivessem trabalhando comigo, estaríamos ganhando muito mais?, concluiu.|FV ### Escamas de peixe ganham novas formas Maragogi - Elas têm profissão definida, nível superior completo e o gosto por trabalhos manuais. Também fazem decoração de ambientes e festas. Ao lado de mais 23 interessados, Célia Vieira e Valéria Cavalcante participaram do treinamento desenvolvido entre agosto e setembro deste ano direcionado ao aproveitamento de escamas de peixe e algas marinhas no artesanato, uma iniciativa do Projeto Oceanus, uma organização não-governamental voltada para questões ambientais. A inovação recente já mostrou ter boa aceitação entre os consumidores locais e turistas. A disponibilidade de matéria-prima é outra vantagem encontrada no emprego dos novos materiais que introduziu um novo critério para a compra do peixe usado na culinária caseira. Formada em administração de empresas, Valéria Cavalcante conta que agora também leva em consideração a espécie e o tamanho do pescado escolhido. Ela conta que as melhores escamas são dos peixes cioba e bico-verde, além do camurim, espécie que não se encontra com facilidade em Maragogi. Após a retirada, as escamas são limpas com cloro e secadas à sombra. ?Em seguida, fazemos a seleção por tamanho para então aplicarmos em bolsas, blusas e, principalmente, bijuterias?, explica. Valéria também trabalha ao lado do marido Iremá Rezende, engenheiro civil e projetista, e aposta nas peças feitas com palha de bananeira, um bordado do tipo filé com linhas feitas a partir da fibra das folhas ressecadas. O casal está abrindo um espaço cultural no centro de Maragogi com inauguração prevista para o dia 4 de janeiro, ambiente planejado para fazer exposições permanentes de ?peças únicas, trabalhos de pessoas que se destacam pela criação artística?, frisa Valéria. Apresentações de grupos folclóricos e shows com tradicionais trios de forró pé-de-serra serão incluídos na programação noturna do local, funcionando como mais uma opção de lazer para moradores e visitantes. Já o gosto pelo artesanato na vida da professora Célia Vieira foi despertado há cerca de 15 anos, utilizando flores desidratadas no processo conhecido como ?esqueletização?. Natural de Palmares-PE e morando há nove anos em Maragogi com o marido Raul Vieira, proprietário de um restaurante, ela disse que apesar de ter participado somente de um dia da capacitação promovida pelo Projeto Oceanus, se interessou pelo uso de escamas e algas. ?Eu vi o processo e tentei fazer em casa já pensando em algo novo. Eu não gosto de copiar e procuro introduzir inovações, criar a partir das minhas idéias?, comentou Célia Vieira. Em parceria com Rosemeire Rodrigues, ela usa os novos materiais para fazer quadros e arranjos. Além das peças decorativas, aplicam em bonecas e acessórios como bolsas e chapéus. Rosemeire ressalta que as algas utilizadas são recolhidas apenas na areia da praia, ?não pegamos nada que esteja no mar?, garante. O trabalho da dupla está em exposição no hall do Espaço Café, localizado ao lado da prefeitura. Célia reclama do alto preço cobrado para alugar uma casa na cidade. Ela e os demais artesãos de Maragogi aguardam a cessão do imóvel localizado na orla da cidade, ponto privilegiado devido à proximidade com os turistas. O prédio pertence ao governo estadual e está fechado há mais de um ano, mas já foi solicitado pelo prefeito Marcos Madeira que apóia a reivindicação da Incubadora Empresarial de Maragogi (Iemar) de usá-lo como sede da entidade e ainda para o funcionamento do Armazém do Artesanato, o esperado centro de comercialização que pode gerar emprego e renda durante todo o ano para artesãos do município. FV