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Bombeiros lutam contra sucateamento

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| GILVAN FERREIRA Repórter O incêndio que provocou a destruição do pavilhão de artesanato Cheiro da Terra, na Jatiúca, na última terça-feira, deixou à mostra novamente a precaridade do Corpo de Bombeiros Militar, considerada, segundo pesquisa divulgada pelo IBGE, em maio do ano passado, uma das instituições de maior credibilidade entre a população. Os relatos dos oficiais e soldados do Corpo de Bombeiros (CB), que participaram do combate ao incêndio no Cheiro da Terra, ?deixaram no ar? a impressão de que a população de Alagoas e os próprios bombeiros, que são reconhecidos pelo esforço pessoal e atos de bravura nas ações de salvamento, resgate e de combate a incêndios, estão sob risco devido à falta de estrutura da corporação, que desde sua fundação, em 1947, não recebe grandes investimentos por parte das autoridades da área de segurança pública a quem está vinculado. Atualmente, o Corpo de Bombeiros conta com apenas cinco viaturas de combate a incêndios (duas em Maceió e três no interior do Estado), a maioria tem mais de 25 anos de uso e está em condições precárias; seis unidades de resgate (ambulâncias) e cinco viaturas de busca e salvamento. A escada Magirus da corporação está parada há 10 anos, mas o seu conserto já teria sido autorizado, a um custo de R$ 200 mil. ?Não temos nenhuma estrutura. Temos dois carros de combate a incêndios para atender toda a cidade de Maceió, que hoje tem uma população de mais de 1 milhão de habitantes, mas no dia do incêndio do Cheiro da Terra nós utilizamos apenas uma viatura, já que a outra estava na oficina?, disse um dos integrantes da brigada de incêndio do Corpo de Bombeiros que pediu para não ter seu nome revelado, por temer uma punição do comando da corporação. ?Se não fosse a ajuda de carros-pipa de uma empresa que vende àgua a situação poderia se agravar, já que havia o risco de o incêndio se propagar e atingir uma cachaçaria, que fica ao lado do Cheiro da Terra e outros pontos comerciais. Nós só tínhamos 10 mil litros de água, que podem ser consumidos em apenas cinco minutos. Claro que o incêndio naquele local era de difícil controle, porque existia muito material inflamável, mas se tivéssemos mais veículos de combate a incêndios teríamos condições de debelar o fogo e evitar toda aquela destruição?, completou a fonte. ### Comandante minimiza problemas no CB O comandante do Corpo de Bombeiros Militar de Alagoas, Jair Cordeiro de Melo, que assumiu o cargo depois da crise provocada pelas críticas do major Carlos Buriti, tentou minimizar a falta de estrutura da corporação e negou as informações sobre a ausência de investimentos e a precariedade dos equipamentos do Corpo de Bombeiros. ?Nós chegamos ao local cerca de 20 minutos após o incêndio e agimos dentro das nossas possibilidades. O sinistro no Cheiro da Terra foi do tipo A, que ocorre quando temos a presença de produtos com grande capacidade de combustão. Naquele local tinha muita palha, madeira, tecido, cachaça, entre outros produtos de fácil propagação. Nós utilizamos a única viatura que tínhamos à disposição naquele momento, mas recebemos o apoio de dois carros-pipa de uma empresa particular?, afirmou o comandante. Ele completa: ?Não faltou água ou esforço dos bombeiros para combater o fogo, mas, infelizmente, não foi possível evitar a destruição do local?, diz o comandante. O depoimento do bombeiro que participou da equipe de combate a incêndio no Cheiro da Terra foi reforçado por um dos oficiais do CB, que confessa o seu temor de enfrentar uma situação de maior risco. ?Nós rezamos para que não aconteça uma catástrofe, um acidente de muita gravidade ou incêndio de grandes proporções, porque ainda não estamos preparados para atuar em casos desse tipo, por não termos estrutura e nem equipamentos adequados?, afirma o oficial, que por temer represálias do comando não se identificou. Segundo o oficial CB, o ideal seria que o Bombeiros tivesse vários carros de combate a incêndios, plataformas de combate de incêndios e equipamentos para uso dos bombeiros. ?Para se ter uma idéia, nossos equipamentos utilizados para o treinamento de resgate (afogamento) estão ultrapassados, até academias de mergulho têm equipamentos mais sofisticados que os nossos, que na verdade são apenas quatro máscaras, quatro tubos de oxigênio e quatro nadadeiras?, afirma. A fonte também revelou à Gazeta que ?os veículos de combate a incêndios têm mais de 25 anos de uso?. ?No ano passado, uma equipe do Bombeiros chegou a ser vaiada em Arapiraca, tudo porque a viatura de combate a incêndio estava com o tanque furado e no percurso entre a base (o quartel) e o local do incêndio quase derramou toda a água que serviria para apagar um incêndio em uma oficina de veículos. O comandante do CB de Arapiraca enviou o carro para Maceió e, ainda hoje, permanece na garagem do quartel do Trapiche da Barra?, diz o oficial. ### Comandante do CB pede o pagamento da taxa de incêndio O comandante do Corpo de Bombeiros (CB), coronel Jair Cordeiro, comanda um orçamento de R$ 100 mil por mês, que é utilizado, de acordo com o oficial, para o pagamento de salários do efetivo de cerca de 700 bombeiros. Ele chega a reconhecer as dificuldades financeiras, mas garante que já há previsão para a chegada de seis viaturas de combate a incêndios, cinco unidades de resgate e equipamentos de apoio. Ele também citou um convênio que foi assinado com a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp). Algum dia ?Nós ainda não temos data para a chegada desses equipamentos, mas todo o processo já foi encaminhado para a Secretaria da Fazenda (Sefaz), que deve aprovar uma verba suplementar. Eu tenho certeza de que um dia esses equipamentos virão para o Corpo de Bombeiros. Também fizemos um convênio com o governo federal e vamos receber quatro caminhões de comabte a incêndios, que inclusive deveriam ter sido entregues ainda em dezembro, mas eu não sei o que aconteceu que ainda não recebemos?, lamenta Cordeiro. Hidrantes O coronel Jair Cordeiro reconheceu a precariedade da estrutura de apoio utilizada pelo Corpo de Bombeiros no combate a incêndios. Ele citou o exemplo dos hidrantes instalados em Maceió. Dos 300 hidrantes, somente 60 teriam condições de uso, alguns de forma precária. ?Logo que asssumi o comando do Corpo de Bombeiros determinei que fosse feito um levantamento de todos os hidrantes de Maceió, que mostrou que mais 80% estavam imprestáveis. Isso nos traz um problema adicional, que tem dee ser sanado, mas para que isso aconteça precisamos da ajuda da Casal, da população, que não deve destruir os hidrantes, como vem acontecendo, e de outros setores da sociedade?, cobrou. Inadimplência O comandante do Corpo de Bombeiros reclamou da alta taxa de inadimplência da taxa de incêndio. Cordeiro disse que ?fazer? Corpo de Bombeiros seria ?caro? e não poderia ser feito sem a ajuda da população. ?Não se faz Corpo de Bombeiros sem ajuda da população. Corpo de Bombeiros é caro, por isso, necessitamos de altos investimentos. Nós precisamos que a população pague a taxa de incêndio, hoje somente 20% dos contribuintes pagam essa taxa. Em 2005, o Corpo de Bombeiros arrecadou mais de R$ 470 mil com a taxa de incêndio, ainda estamos com cerca de R$ 150 mil em caixa, mas essa arrecadação deveria ser de R$ 3 milhões. Esses recursos são utilizados para a compra de equipamentos, por isso, necessitamos que a população nos ajude a fazer o Corpo de Bombeiros?, concluiu Jair Cordeiro. ### O caso do major punido por fazer crítica Em abril do ano passado, o major CB Carlos Buriti encaminhou e-mails às redações de jornais e TVs criticando a falta de investimentos do governo do Estado no Corpo de Bombeiros. Ele criticou a liberação de R$ 500 mil para as reformas do Estádio Rei Pelé, para receber a Seleção Brasileira, que vinha a Maceió para enfrentar a seleção da Colômbia, e a compra de 150 viaturas para as polícias Civil e Militar, sem que fosse liberado nenhum recurso para a compra de equipamentos para o CB. O episódio provocou a queda do então comandante, coronel Jadir Ferreira, que foi substituído pelo coronel Jair Cordeiro, e abriu uma grave crise interna na corporação. As críticas do capitão Carlos Buriti chegaram a irritar profundamente o governador Ronaldo Lessa (PDT), mas serviram de alerta sobre a necessidade de investimentos para reforçar a estrutura do Corpo de Bombeiros(CB). O desabafo do major Buriti foi respaldado pela maioria dos oficiais e soldados do Corpo de Bombeiros. O e-mail distribuido a jornalistas revelou o drama de integrantes da corporação e as dificuldades diárias e, por outro lado, também cobrou investimentos para melhorar a estrutura do Corpo de Bombeiros. ?Jamais conseguirei explicar a sensação de ser acordado a qualquer hora, tempo ou local para cumprir o meu juramento e pedir a Deus que, caso venha a morrer, seja salvando uma vida. Jamais conseguirei entender por que tenho de passar pela frustração de não conseguir explicar a meus homens o motivo pelo qual, num investimento de 10 milhões de reais em viaturas, não virá nada para o Corpo de Bombeiros?, dizia um trecho da nota. O capitão prossegue em sua ?alfinetada?. ?Jamais conseguirei explicar para meu soldado o porquê de num incêndio ele precisar revezar o capacete e respirar fumaça ao invés de ter o seu próprio equipamento de segurança, e quando passar mal ser atendido nos corredores lotados de um hospital?, dizia ainda. ?Jamais conseguirei?, prosseguia Buriti, ?explicar para os meus homens o motivo pelo qual, em uma noite de futebol, onde a milionária Confederação Brasileira de Futebol (CBF) apresenta seus milionários craques, o Estádio Rei Pelé passa por uma reforma de 500 mil reais enquanto o sargento Everaldo começa a enfrentar o câncer de pele adquirido nos 29 anos salvando vidas nas praias e sabendo que com muito menos que 500 mil reais eu construo postos cobertos e protejo aqueles que se orgulham de enfrentar a natureza para salvar vidas?, diz outro trecho. Punição Depois da divulgação do e-mail, o major Carlos Buriti foi detido por cinco dias no quartel do Corpo de Bombeiros, mas ganhou liberdade por decisão do juiz da Vara Militar, James Magalhães, que considerou a sua prisão ?ilegal? e ?imoral?. O major Buriti perdeu o comando de operações do Corpo de Bombeiros. O capitão Paulo Marques também foi punido por reforçar as declarações de Buriti, ele foi afastado da Assesssoria de Comunicação do Corpo de Bombeiros. Interior No interior, o quadro ainda é pior, de acordo com e-mail de Buriti. ?O nosso pessoal também sofre muito no interior, geralmente eles não têm nem fardamento e têm de superar todas as dificuldades estruturais, como a falta de equipamento e de condições de trabalho?.

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