Cidades
Ano-novo � est�mulo para solidariedade
| FÁBIA ASSUMPÇÃO Repórter Ano-novo é tempo de solidariedade e de esperanças renovadas, quando as pessoas ficam mais focadas na ajuda ao próximo, principalmente aos mais carentes. É esse espírito de solidariedade que toma conta de todos, que sentem a necessidade de retribuir o que conquistaram ao longo com ano, ajudando os mais pobres ou instituições filantrópicas. Brinquedos, roupas, medicamentos e tantas outras coisas chegam em boa hora para quem enfrentou muitas dificuldades ao longo do ano. Na Casa dos Pobres, no Vergel do Lago, que tem abrigados cerca de 80 velhinhos, as doações são mais do que bem-vindas. Segundo o presidente da instituição, Cláudio Barbosa, ao longo do ano sempre há doações, mas é no Natal e ano-novo que mais o espírito de solidariedade das pessoas se manifesta. Ele lembra, no entanto, que no Natal se comemora o nascimento de Cristo, cujo ensinamento de amor ao próximo tem que ser lembrado durante todos os dias do ano. Mantida pela Arquidiocese de Maceió, a instituição vive de doações e da ajuda dos governos municipal, estadual e federal. Pelo menos, é o que consta no seu estatuto. Mas, a ajuda dos governos, por exemplo, praticamente não tem chegado. ?A única ajuda que temos do governo do Estado é o Programa Cidadão Nota 10, mesmo assim, só podemos usar o dinheiro para obras físicas?, explica Barbosa. Manter a instituição não é nada fácil. No último trimestre, por exemplo, a Casa dos Pobres teve uma receita de R$ 34,8 mil, mas teve um prejuízo de mais de R$ 37 mil. Na casa, além dos quase 90 velhinhos, vivem também14 irmãs religiosas. Só a folha de pagamento de 43 funcionários consome R$ 13 mil da arrecadação da instituição, fora os encargos sociais. Só fraldas geriátricas são gastas mais de 500 por mês. Por isso, as doações são mais que bem-vindas. Cláudio explica que um dos motivos que estimula as pessoas a fazer doações é a destinação adequada de tudo o que é recebido, voltado principalmente para o bem-estar dos velhinhos. ?O amor é quem conduz a essa necessidade de ajudar ao próximo?, diz ele. ### Lar São Domingos muda vida de menina Ser solidário pode ajudar a mudar muitas vidas. Há três anos, a vida da família de Josicléa Maria dos Santos, 13 anos, mudou, depois do apoio recebido do Lar São Domingos. A instituição assiste 1.197 pessoas, entre elas 450 crianças de 3 a 12 anos, 60 idosos, 35 nutrizes e gestantes, além de garantir um acompanhamento social de uma média de 300 famílias. Boa parte desse trabalho somente pode ser desenvolvida pela instituição graças à solidariedade de centenas de pessoas. Solidariedade que se manifesta ainda mais no final de ano, quando aumenta o número de doações. Josicléa, por exemplo, ganhou de presente de Natal o tão sonhado tamanquinho, ao ser uma das dezenas de crianças que escreveram cartas para a promoção ?Árvore dos Sonhos?, do Shopping Center Iguatemi. Filha adotiva do pedreiro João José dos Santos e de Maria José dos Santos, Josicléa cursa a 6ª série do Colégio Padre Pinho, no Jacintinho. Mas, além de se dedicar aos estudos, ela participa de atividades do Lar São Domingos como cursos de informática e palestras sobre orientação sexual. Foi graças a esse apoio do Lar São Domingos que as coisas melhoraram para a família de Josicléa. ?Mudou muito a minha vida?, diz Maria José Santos, mãe de Josicléa. ?A gente não tinha nada. A casa era de taipa e a única coisa que tinha dentro dela era um fogão?. A casa fica na rua com o sugestivo nome de ?Novo Horizonte?, próximo à grota que ficou conhecida como ?Morro do Ari?, lugar onde a maioria da população vive em condições precárias. Financiamento Com o acompanhamento social da instituição, Maria José conseguiu um financiamento de R$ 500, do programa de Microcrédito. Começou a vender roupas, o que lhe permitiu comprar um carrinho para vender acarajé na praia. A casa, antes de taipa, hoje é de alvenaria e ganhou até um primeiro andar. No final do ano, graças ao espírito de solidariedade, o marido ganhou da dona da casa onde fez uma reforma duas lavanderias, que servem tanto para Maria José lavar suas roupas como também as duas filhas, já casadas e que moram próxima a ela. A coordenadora-geral da Unidade de Promoção Integral do Lar São Domingos, psicóloga Cristiane Sousa, diz que o povo alagoano é muito solidário e acredita que somente não ajuda mais com doações por causa da condição econômica. No fim do ano, entretanto, são muitas as doações desde brinquedos, roupas e alimentos até geladeiras e fogões. ?Acho que as pessoas esperam o fim do ano para fazer isso, porque estão em condições de darem mais do que podem durante o ano?. Mas a instituição não espera apenas o fim do ano para buscar ajuda. Com um serviço de telemarketing, o Lar São Domingos faz um trabalho de formiguinha para buscar doações. ### Empresas dão sustentação a projetos Cláudio Haddad também não se arrepende da decisão de aumentar a família, depois de ter criado os três filhos mais velhos. Para ele, a chácara que compraram no Tabuleiro do Martins para abrigar a família não se compara a uma creche. ?A creche é uma coisa profissional. Aqui temos uma vida em família?. Apesar dos parceiros, para garantir o sustento da família eles tiveram de colocar, literalmente, a mão na massa, produzindo os deliciosos biscoitos da ?Vovó Ina?. Colaboradores, como a Pimentel Lopes, ajudaram a dar um toque a mais nos biscoitos com a produção de caixas em marcheteria. O grande sonho de Celina agora é comprar uma fazenda para que possa, juntamente com os filhos, plantar. Os biscoitos da Vovó Ina podem ser encomendados pelos telefones 3322-1191, 9302-1424 e 9302-1525. Mantenedores Já o Lar São Domingos não enfrenta dificuldades para se sustentar porque tem como instituição mantenedora o Lar Fabiano de Cristo, com sede no Rio de Janeiro, que recebe ajuda da Capeme, uma caixa de pecúlio dos militares. Os recursos repassados pelo Lar Fabiano garantem o pagamento da folha dos 119 funcionários do Lar São Domingos. Em 1998, o projeto Ninho de Passáro, desenvolvido pelo Lar, foi premiado nacionalmente pela Itaú, pela sua dimensão social. A assistente social Hegladja Sousa trabalha há seis meses no Lar São Domingos. Ela integra a equipe que faz o acompanhamento social das famílias assistidas pela instituição. Segundo Hegladja, o acompanhamento é feito pelo menos durante cinco anos. ?Quando essas famílias atingem a promoção social, elas são desligadas do projeto para que outras tenham oportunidade de participar?. Todos os anos, centenas de famílias pobres das dezenas de grotas do bairro do Jacintinho se inscrevem para ter seus filhos atendidos pela instituição. Triagem Como o espaço é limitado, é preciso fazer uma triagem dessas famílias. ?Nós fazemos um cadastro, identificamos o perfil de atendimento e fazemos uma visita domiciliar para confirmar as informações?, explica a coordenadora da Unidade de Promoção Integral, Cristiane Sousa. Segundo ela, além de atender crianças, o projeto desenvolvido pelo Lar São Domingos busca inserir os pais no mercado de trabalho. Risco social A instituição foi fundada há 78 anos, com a finalidade de atender menores carentes em regime de internato. Ao longo deste período, muitos tiveram a grande chance de se tornar pessoas respeitáveis dentro da sociedade, sendo que alguns tiveram a oportunidade de ocupar cargos importantes nos setores político, econômico e administrativo do Estado de Alagoas. Recentemente, com as modificações implementadas na legislação a que estão sujeitas, as entidades filantrópicas que cuidam de menores passaram por uma reforma estrutural, ampliando consideravelmente a forma de atendimento a jovens carentes em situação de risco social. ### Casal adota 23 filhos e critica o egoísmo Tem muita gente que não espera apenas o Natal para ser solidário. Para essas pessoas, é preciso praticar o ensinamento de Jesus Cristo de ?amar ao próximo com a ti mesmo? o ano inteiro. É essa lição que ensina a geógrafa Maria Celina de Medeiros Chaves Souza e o engenheiro aposentado Cláudio Haddad Sousa. Além de três filhos biológicos, eles adotaram, até agora, 23 ?filhos do coração?. E se dependessem da solidariedade das pessoas apenas no final do ano, certamente enfrentariam muitas dificuldades para manter ?essa grande e amorosa família?. Seguidores do kardecismo (Akan Kardec, líder do Espiritismo), Celina e Cláudio lamentam que o espírito de solidariedade das pessoas só apareça no Natal e ano-novo. ?Se eu voltasse numa próxima vida ao mundo na condição de uma pessoa abandonada, eu gostaria que tivesse alguém para me acolher?. Abandono É isso que ela e Cláudio fazem: acolhem crianças que são rejeitadas não somente pela família como pela própria sociedade. ?Tem gente que diz que quer adotar uma criança, mas branquinha de olhos verdes. Então, ela não está querendo um ser humano, ela quer um boneco?. Egoísmo Celina prefere não receber solidariedade de pessoas que colocam como condição para ajudá-la que pare de adotar crianças. ?O que impera, infelizmente, é o egoísmo. Eu não engulo mais sapo, tem gente que vem aqui uma vez por ano e ainda pede para eu parar de adotar crianças?. Celina disse que seus verdadeiros parceiros nunca pediram para ela parar. São médicos, dentistas e profissionais liberais que ajudam o ano inteiro, sem impor limites ou condições. Gente como o diretor da Escola Atheneu, no Tabuleiro, que deu condições para que todos os filhos fossem matriculados numa escola particular, depois de muitos ?nãos?. ?Eles estudavam em escola pública e não estavam aprendendo nada?. Celina lamenta que as inúmeras reportagens que já fez com a família não tenham sensibilizado as pessoas sobre a importância da adoção. ?Para mim, o maior presente seria que uma pessoa chegasse aqui e dissesse que adotou uma criança depois de ler a reportagem?. Xodó da casa Celina diz que menino, negro e doente são os mais rejeitados por quem procura adotar uma criança. Na casa de Celina e Cláudio, todos os filhos são amados, independentemente de cor, sexo ou raça. Um dos xodós da casa é o pequeno Marcelo, de 1 ano e 4 meses. Ele nasceu prematuro e passou quatro meses numa UTI. Com problemas de desnutrição, enfrentado pela mãe durante a gravidez, Marcelo tinha apenas 2,4 quilos quando Celina o adotou. Foram várias noites sem dormir, já que ele acordava à noite sufocado por secreções. Hoje, Marcelo tem o corpo franzino de um bebê de seis meses e ainda não anda. Mas o sorriso com os primeiros dentinhos que lhe aparecem na boca mostra que o amor de Celina e Cláudio o fez renascer. A história dos outros filhos adotados pelo casal não é muito diferente.