Cidades
Pais devem ficar atentos � praia e piscina
| FÁTIMA ALMEIDA Repórter Época de férias, viagens e turismo; crianças livres de horários rígidos e das tarefas escolares, com tempo suficiente para novas experiências e brincadeiras; para bisbilhotar todos os cantos da casa; xeretar na cozinha; e curtir um banho de mar ou de piscina. Cuidado! Essa liberdade pode acabar em tragédia, se não for rigorosamente vigiada. Um fogão aceso; um medicamento ao alcance dos pequeninos; um minuto de descuido na água, podem ser fatais. Dados da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) mostram que os acidentes constituem o grupo predominante nas estatísticas de causas de morte em crianças a partir dos 5 anos, chegando a representar mais de 40% dos óbitos em adolescentes de 10 a 14 anos. E mais: os casos de afogamento estão entre os principais responsáveis por mortes violentas de crianças, perdendo apenas para acidentes de trânsito. TranqÜila ilusão O afogamento pode acontecer no mar bravio ou na calmaria da piscina de casa. De acordo com o pediatra José Gonçalves, representante da SBP em Alagoas, cerca de 65% das mortes por afogamento ocorrem em água doce, sobretudo nas piscinas residenciais, onde as principais vítimas são crianças de até 4 anos de idade. Ele recomenda aos pais a colocação de grades de proteção e dedicar atenção integral aos pequeninos, porque na calma aparente desses lugares muitas crianças já foram vítimas fatais de afogamento. Mais do que nas águas do mar. ?Atenção é fundamental. Os pais não devem desgrudar o olhar de seus flhos nem por um minuto. Às vezes, a morte acontece em questão de segundos?, alerta o capitão Carlos Cauper, do Grupamento de Salvamento Aquático do Corpo de Bombeiros. Recomendação ignorada Essa recomendação quase sempre é ignorada pelos pais, sobretudo nas psicinas de condomínios, que se enchem de crianças nessa época do ano. A síndica Ana Paula, de um condomínio de Maceió, diz que está cansada de recomendar sobre o perigo de deixar as crianças sozinhas na piscina. ?Mas não tem jeito. Lá estão eles, sem a companhia dos pais?, diz ela. De fato, a reportagem constatou que oito crianças, aparentando idade entre 6 e 10 anos, brincavam na piscina do condomínio, sem a presença de um único adulto. ?As pessoas pensam que não há riscos na piscina de casa. Exatamente por isso, eles se tornam maiores?, diz o médico José Gonçalves. Lição dolorida A secretária Helena Montenegro aprendeu por experiência própria que é preciso adotar medidas de prevenção. Estava com o filho de 3 anos no terraço, quando o menor acordou. Ela saiu por alguns instantes para pegá-lo no berço, e quando voltou, o outro estava no fundo da piscina, saiu quase morto. Foi salvo por um triz. ?Foi tudo muito rápido, e num momento em que estava todo mundo em casa?, diz a secretária, com alívio. A primeira providência de Helena, após o acidente, foi colocar grades em volta da piscina e, pouco tempo depois, colocou o filho numa escola de natação. ?Pra mim acabou tudo bem, mas existem muitas histórias como essa que acabaram em tragédia. O perigo é real, e basta a criança engatinhar para correr risco de cair e se afogar. Até mesmo quando sabe nadar, pode bater com a cabeça e afundar?, diz ela. Hoje, com os filhos adultos, Helena passa a lição adiante, para quando os netos chegarem. ?Tem que ter proteção na piscina, e atenção redobrada?. Aprender a nadar O pediatra José Gonçalves vai mais além na sua recomendação: ?A criança deve ser estimulada a aprender a nadar logo cedo, a partir dos 2 anos; e nunca deve nadar sozinha. Jamais superestime a sua capacidade!?, disse o médico. Afinal, dados da SBP denunciam que a cada ano, 500 mil pessoas são vítimas fatais de afogamento em todo o mundo; mais de 10 milhões de crianças entre 1 e 14 anos são internadas, anualmente, vítimas de acidentes por submersão, e uma a cada 35 hospitalizações acaba em óbito. Óbitos Dizem, ainda, que na faixa etária entre 1 e 4 anos o afogamento é a segunda causa externa de morte no Brasil, onde esse tipo de acidente resulta em sete mil óbitos por ano. Os números confirmam que é no período de férias que aumentam as ocorrências de acidentes domésticos, desde quedas sem conseqüências mais graves, até queimaduras e choques elétricos, que matam ou deixam seqüelas para o resto da vida. Os acidentes com bicicletas e ?skates? ocupam uma posição significativa na faixa etária entre os 4 e 13 anos, às vezes provocando lesões graves, como traumatismo craniano. ### Pediatra diz que crianças não sabem do risco até os 7 anos As crianças são particularmente propensas a acidentes. Isto se deve ao fato de normalmente não conseguirem prever o que pode acontecer. Desta forma, não associam o fato de atravessar uma rua ao risco de atropelamento, não ligam o fato de nadarem em uma piscina ao risco de afogamento e assim por diante. A criança adquire esta ?responsabilidade? por volta dos 7 anos. Antes disso, está sempre correndo riscos e cabe a nós, adultos, tentar evitá-los. Segundo o pediatra José Gonçalves, os casos de queimaduras em casa são mais freqüentes do que entre pessoas que trabalham em ambientes como caldeiras ou com elementos inflamáveis. E as principais vítimas são as crianças. Nesse ponto, ele é radical: cozinha não é lugar para criança. E vale até colocar anteparos que dificultem o acesso. A maioria das queimaduras domésticas tem sempre um histórico de um fogão aceso e uma panela quente, virada inadivertidamente por uma criança curiosa, num momento de desatenção do adulto. Os riscos de acidentes domésticos também se escondem em armários mal fechados, em objetos pesados ou cortantes, em armas escondidas, e até em medicamentos que não foram guardados adequadamente. Segundo o pediatra, a ingestão indevida de medicamentos ou substâncias tóxicas também constitui uma causa muito freqüente de internamento de crianças, e até de morte. ?Existem casos de crianças que morreram após ingerir veneno, soda cáustica ou outras substâncias?, diz ele. O médico aconselha que se leve a sério a recomendação de que medicamentos devem ser guardados longe do alcance das crianças, inclusive considerando a possibilidade de que elas podem subir em algum lugar para alcançá-los. |FAT