Cidades
Motociclista bate recorde em acidentes
| REGINA CARVALHO Repórter Na capital e no interior tem crescido de forma assustadora o número de acidentes envolvendo motociclistas. O destaque negativo fica com Arapiraca - cidade recordista em acidentes com motos, tanto o motoqueiro sendo vítima, como causador do acidente. Em 2005, deram entrada na Unidade de Emergência do Agreste, em Arapiraca, mais de 3.300 vítimas que conduziam motocicletas. No mesmo período, em Maceió, na Unidade de Emergência (UE) Armando Lages, foram atendidas quase 1.700 pessoas com o mesmo problema e somente na primeira quinzena de janeiro deste ano, 196 condutores de motos receberam atendimento médico em Arapiraca. O diretor-médico da Unidade de Emergência em Maceió, José Gonçalo da Silva Filho, relata que acidentes envolvendo motoqueiros normalmente são graves, principalmente naqueles que não usam capacete. O mais comum é o traumatismo crânio-encefálico (TCE) e lesões graves de membros inferiores, que podem acarretar em amputações. ?O mais preocupante é que a maioria dessas vítimas é jovem. Quando isso acontece temos uma equipe de psicólogos que conversa com a família e o paciente sobre o problema. Já que é uma situação muito delicada?, conta o diretor-médico. Uma dessas vítimas é o motoboy Josivaldo dos Santos Alves, de 28 anos. Há uma semana ele sofreu um acidente no bairro do Jacintinho, em Maceió. Lembra pouco o que realmente aconteceu e não sabe sequer quem foi o responsável pelo acidente. ?Não sei se a culpa foi minha ou de um carro que estava próximo de mim, porque apaguei na hora. Não me lembro de nada?, conta o motoboy. Habilitado para guiar motocicletas há seis anos, Josivaldo já sofreu pelo menos outros três acidentes, sempre quando estava trabalhando. Mas nenhum deles foi tão grave como o último, que lhe custou uma cirurgia na perna e até agora nenhuma previsão de alta médica. ?Trabalho no Procon entregando notificações. Ando de moto de 200 a 250 quilômetros por dia. É muito trabalho. Quando sair daqui vou ter que voltar a trabalhar usando moto novamente. Essa é única forma que tenho para sustentar minha família. Dependo dela para viver?, relata o motoboy, que está internado na UE. Josivaldo conta que não sabe ao certo quantas pessoas conhecidas já sofreram acidente com moto. ?Não tenho nem idéia é muita gente mesmo. Conheço pessoas que morreram inclusive. É muito perigoso?,lamenta. Na Unidade de Emergência do Agreste, por exemplo, acidentes de trânsito envolvendo motocicletas ocorrem com mais freqüência do que com carros e bicicletas. Enquanto os acidentes com motos foram mais de 3.300 casos no ano passado, os de carros ficaram em torno de 750. E de ciclistas, que também tem crescido nos últimos meses, foram mais de 1.300 casos. ### Arapiraca: moto é meio de sobrevivência As lesões sofridas pelo motoboy Josivaldo fazem parte de um levantamento ressaltado pelo diretor-médico da Unidade de Emergência Dr. Armando Lages. Segundo ele, nos acidentes de moto normalmente as fraturas são expostas, ou seja, o osso quebra em vários locais. ?Para piorar a situação, o motoqueiro ainda acaba se contaminando no local, quando cai da moto. Às vezes até a lama complica a situação. Ele fica muito exposto e existe sujeira em muitas localidades?, lembra o médico José Gonçalo. embiaguez O diretor-médico da UE lembra, ainda, que a maioria dos acidentes tem como principal vítima pessoas que trabalham usando motocicletas. No caso, os motoboys. ?Isso só muda nos fins de semana, principalmente aos domingos, quando muitos acidentes acontecem por causa da embriaguez ou provocados por pessoas que estavam a passeio?, destaca Gonçalo. Estatística revelada pela UE em Maceió atesta que entre janeiro e dezembro do ano passado o traumatismo crânio-encefálico, que ocorre em decorrência de acidentes sejam de carro ou motocicleta, foi a 6ª causa de óbitos na unidade hospitalar. A primeira delas é o Acidente Vascular Cerebral (AVC); a segunda é a hemorragia digestiva alta; terceira, pneumonia; quarta diabetes e em quinta colocação insuficiência cardíaca. ?Vale lembrar que não contam casos de vítimas que tiveram morte instantânea?, enfatiza. Dados da coordenadoria de segurança do trânsito do Detran revelam que no primeiro semestre de 2004 foram 198 acidentes com motocicletas em Maceió e no mesmo período do ano passado esse número saltou para 327. Vítimas No mesmo período de 2004 e 2005, segundo o Detran, diminuiu o número de vítimas que tiveram ferimentos, respectivamente no primeiro semestre de 2004 e 2005 foram 120 e 96. Ocupando a terceira colocação, seguida de acidentes com passageiros e condutores de veículos. Entretanto, cresceu a quantidade de óbitos, de dois para três casos envolvendo motociclistas. O primeiro no ranking de vítima fatal de acidente foi o pedestre. MototÁxi Em Arapiraca, segunda maior cidade de Alagoas, a motocicleta virou principal opção de sobrevivência e de circulação pelos municípios e localidades vizinhas. São inúmeras motocicletas que atuam como mototáxis. Em outros casos, como ressalta o Detran, os acidentes advêm da imprudência, envolvem motociclistas inabilitados, sem capacete ou mesmo embriagados. Por várias vezes os motociclistas foram vítimas e vitimaram outras pessoas. Dados de 2004 do Detran mostram a frota de veículos na capital e em todo o Estado. A constatação é de que das mais de 51 mil motocicletas existentes em Alagoas, 15 mil estão em Maceió. A motocicleta na capital e no interior tem se tornado alternativa e substituído o automóvel. Principalmente pelas vantagens que apresenta em relação à manutenção, que é mais econômica, baixo consumo de combustível, e o preço de compra, que é muito menor do que o de um carro. ### A difícil luta para superar o trauma Em 1999, o mestre de capoeira Marcelo José dos Santos Cardoso sofreu um grave acidente de motocicleta. A perna esquerda teve de ser amputada e atualmente Marcelo usa prótese. ?Na época comprei a moto para dar mais agilidade, já que trabalhava em quatro localidades diferentes e dava aulas de capoeira?, revela. Sobre o acidente, o mestre de capoeira conta que lembra de muito pouco. Apenas que era noite e aconteceu numa ladeira de Fernão Velho, quando saía com a mulherde uma festa. Ela quebrou a perna. Dez cirurgias Nos últimos sete anos, desde a data em que perdeu a perna, ele já fez 10 cirurgias. A mais recente aconteceu há cerca de três meses e outras duas terão de ser realizadas nos próximos dias. ?Sofri muito na época, mas não tive tempo de ter depressão por causa do acidente. Estava mais preocupado em me restabelecer para dar continuidade à vida?, conta. Ele ficou dois meses internado, em dois hospitais diferentes de Maceió, em conseqüência do acidente. Por causa do acidente, Marcelo teve de adiar projetos que almejou por muito tempo. Um deles já estava em andamento e seria ir para o Japão, onde ensinaria capoeira. Apesar de tudo, ele continua trabalhando e montou um centro de treinamento no Clima Bom I, Tabuleiro do Martins, onde também desenvolve um projeto social com crianças e professores, dando treinamento para profissionais. ?Com o acidente aprendi muita coisa. Uma delas é resolver os problemas com mais calma. Corria muito atrás das coisas?, lembra o mestre de capoeira. Hoje com 35 anos e quatro filhos, ele lamenta os obstáculos que os portadores de deficiência têm de enfrentar no dia-a-dia. ?Já viajei muito e vejo que muitos banheiros não são adequados para deficientes. Além de outros problemas que temos de enfrentar?, declara. Em outubro de 99, quando sofreu o acidente, Marcelo ressalta que procurou não culpar ninguém pelo ocorrido. Posição que mantém até hoje. ?Lembro apenas de que abri muito na curva e que vinha um veículo. Sei que as pessoas que estavam no local tentaram até linchar o motorista?, conta o mestre de capoeira. Ele confessa que houve descuido, porque tinha comprado a motocicleta há apenas dois meses e que havia ingerido bebida alcoólica antes de dirigir. ?Tenho consciência do erro?, completa ele. A constatação de que o índice de acidentes com motocicletas tem crescido nos últimos anos é feita a partir de levantamento realizado pela Unidade de Emergência de Maceió. Em 99 foram 317 casos; em 2000, 448; em 2001, 542; 2002 saltou para 645; em 2003 para 945 casos; em 2004 foram mais de 1.500 e no ano passado 1.700.