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�gua no Sert�o levar� mais uma d�cada

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NIVIANE RODRIGUES Repórter Delmiro Gouveia - Considerado a redenção do semi-árido alagoano, há 14 anos o projeto do Canal do Sertão anda a ?passos de tartaruga?. Água para irrigar e tirar da terra o sustento é um sonho acalentado pelo sertanejo há séculos, mas parece que ainda vai levar muito tempo para se tornar realidade. Enquanto isso, o sertanejo vê a indústria da seca se perpetuar, principalmente em época eleitoral. Iniciado em 1992, no governo de Geraldo Bulhões, o Canal do Sertão já passou pelas mãos de quatro governadores e continua, até hoje, levantando polêmica e dúvidas sobre sua concretização. Em 2004, o custo total da obra era de R$ 531,4 milhões. Hoje, o projeto está orçado em mais de R$ 600 milhões. Foram investidos até agora, segundo a Secretaria de Infra-estrutura (Seifran), R$ 53 milhões. Previstas para serem concluídas em 12 anos, as obras passaram pelo menos 10 anos paralisadas por falta de estudos técnicos que garantissem sua viabilidade. E agora deverão levar pelo menos mais 12 anos para serem finalizadas. Sem esses estudos, o governo federal decidiu ?fechar as torneiras?, ou seja, parou de enviar dinheiro público para o projeto. Retomada Somente em 2002, após a execução de um amplo estudo técnico que envolveu ministérios, órgãos federais e estaduais, a partir de um convênio com a Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Chesf), o Estado pôde comprovar a viabilidade do canal, apontando as alternativas socioecônomicas, de engenharia e os impactos ambientais com vistas ao aproveitamento da água de parte da bacia hidrográfica do Rio São Francisco, desde o lago do Moxotó, no município de Delmiro Gouveia, próximo à Usina Apolônio Sales, até as imediações de Arapiraca, numa extensão de 250 quilômetros. ?Os estudos resultaram na aprovação de todos os projetos propostos?, afirma Denison Tenório, diretor de Obras da Seifran de Alagoas e coordenador do Projeto do Canal do Sertão. Segundo ele, a partir desses estudos, o governo federal vem conjulgando esforços no sentido de viabilizar o projeto. Na opinião do diretor, esta não é uma obra de um só governo, mas um projeto cuja viabilização e cronograma estão estimados em 12 anos. Na última quinta-feira, a Gazeta esteve na estação de bombeamento de água, no município de Delmiro Gouveia, no alto sertão de Alagoas, onde começa o canal, e mostra, nesta reportagem, o andamento das obras. Mostramos, ainda, a eterna peleja do sertanejo em busca de água. A luta desse povo que nem mesmo diante do sofrimento provocado pelos efeitos da seca, que mata os animais e dizima as plantações, desiste de ter esperança de dias melhores. ### Se concluída, obra deve beneficiar 41 municípios O Canal do Sertão encontra-se ainda em sua primeira fase, que compreende a infra-estrutura de captação, com a construção da estação de bombeamento, 45 Km do canal adutor e os projetos de irrigação de dois mil hectares. Quando for concluído, o canal vai beneficiar 41 municípios, que correspondem quase a metade do território alagoano em mais de 13 mil km quadrados. Os principais objetivos, segundo o Ministério da Integração Nacional, são a garantia do desenvolvimento sustentável do Sertão e do Semi-Árido, com oferta de água para os núcleos urbanos e rurais ao longo de toda a extensão do canal; geração de renda e oferta de alimentos; remanejamento das adutoras coletivas existentes diminuindo os custos de operação e manutenção para a companhia de abastecimento do Estado, a Casal; desenvolvimento de piscicultura, abastecimento de água para os projetos de irrigação, revertendo o quadro de miserabilidade principalmente durante o período da estiagem. Os primeiros núcleos de irrigação a serem beneficiados ficam no município de Parinconha, no alto Sertão. O projeto prevê também a exploração de lotes agrícolas de 20 hectares aproximadamente, sendo cinco irrigados para pastagem, fruticultura e horta familiar. Se concretizado, o projeto deve colocar o sertão de Alagoas entre os pólos de exportação no Nordeste, como ocorre com Petrolina, em Pernambuco. Terras desapropriadas Há uma semana, o governo do Estado fez publicar no Diário Oficial decreto desapropriando 41 lotes de áreas próximas ao canal, para dar continuidade à obra. A desapropriação foi realizada a partir da identificação, cadastramento e avaliação das áreas pelo Instituto de Terras de Alagoas (Iteral). Foram investidos R$ 196 mil, já que todas as áreas eram pequenos lotes rurais. Segundo o diretor da Seinfra, Denison Tenório, a estação de captação de água, no lago do Moxotó, está com 95% das obras concluídas, faltando agora a instalação dos equipamentos eletromecânicos, ou seja, bombas, quadros de comando e dispositivos elétricos que só devem ser colocados quando a estação estiver pronta para operar. O diretor revela que em dezembro de 2005 o governo de Alagoas assinou um convênio com o Ministério da Integração Nacional no montante de R$ 92 milhões, com contrapartida de 10% do Estado, para o início do canal até o Km 24,6, onde está prevista a tomada d?água para o primeiro perímetro de irrigação, de Pariconha I e II. ?Os recursos, que já foram empenhados, vão ser divididos em 12 meses e a primeira parcela deve ser liberada em fevereiro próximo?, diz Tenório. Canteiro de obras No canteiro de obras da empreiteira Odebrecht, responsável pela estação de bombeamento, em Delmiro Gouveia, 100 homens trabalham para acelerar os serviços e entregar essa etapa até abril. A maioria dos trabalhadores é da própria região. A Gazeta esteve no local para conferir como funcionará a estação, que vai bombear a água para irrigar o solo e matar a sede do sertanejo. NR ### Canal seguirá a céu aberto pelo Sertão de AL Estação depende agora da construção de uma subestação de energia elétrica e da aquisição de bombas para começar a funcionar De longe, a construção mais parece um imenso galpão no meio da caatinga. Com 80 metros de comprimento e 16 de largura, a estação está quase concluída, aguardando agora a instalação das bombas e construção da subestação de energia elétrica. Sem ela, não há como os equipamentos funcionarem. Quando instaladas, as bombas levarão água até a chamada primeira estrutura de transição, um reservatório com 10 metros de altura, de onde seguirá até uma segunda caixa de concreto, onde funcionará o sifão, um aparelho destinado a transportar líquidos de um nível a outro. Daí a água será levada, por força da gravidade, para todo o Sertão e Agreste, por um canal a céu aberto, segundo explicou o técnico da Odebrecht, responsável pela construção da estação, Wilton Santos. A construção do canal a céu aberto caberá à construtora Queiroz Galvão, cujos técnicos estão no local realizando os primeiros levantamentos. |NR ### Sertanejo enfrenta uma eterna peleja em busca de água Todos os dias, o agricultor João Esteves de Lima, 67, sai pelo menos duas vezes com um carro de mão onde transporta quatro botijões em busca de água que mina de uma pequena barragem no meio da caatinga. Bastante suja e amarelada, a água servirá para beber e abastecer a casa até que ele consiga dinheiro para comprar água do carro-pipa, considerada ?de qualidade?, como diz. ?Água de carro-pipa aqui é limitada. Além do mais, a gente não tem dinheiro pra comprar?, afirma. Morador do município de Pariconha, o primeiro a ser beneficiado com projetos de irrigação do Canal do Sertão, o aposentado ressalta que a vida no Sertão ?nunca foi fácil. Sempre carreguei água para viver?. Ele perdeu a mulher num acidente de carro. ?Isso faz uns 16 anos. Nunca mais casei e tive que trabalhar muito para criar meus dez filhos sozinho; no cabo da enxada?. O ano de 2005 foi considerado de ?fartura? para os sertanejos. Choveu muito e a produção foi uma das melhores dos últimos anos. Mas nem sempre é assim. Na maioria das vezes, o sertanejo enfrenta a seca. Promessas Quem vive na peleja por água há tantos anos procura manter a esperança de um dia a situação mudar. Muitos, porém, já não acreditam nas promessas que se repetem a cada ano. É o caso do agricultor José Miguel da Silva, 60, que vive com a mulher e cinco filhos em uma pequena casa em Pariconha, um município de pouco mais de 10 mil habitantes. Beneficiado pela construção de uma cisterna no quintal de casa, ele diz que a situação melhorou, embora ainda enfrente muita falta d?água. ?É que essa cisterna só reserva 16 mil litros de água. Como a gente tem que distribuir com os vizinhos, acaba antes mesmo de o carro-pipa passar para reabastecer?, afirma. A cisterna foi construída pela Fundação Nacional do Índio (Funai), que além dos índios da tribo geripancó, que habitam a região, beneficiou outros moradores de Pariconha. No dia em que a Gazeta esteve na cidade, a cisterna estava quase vazia. ?Se o carro não passar logo, não sei como vamos ficar?, reclamava o agricultor, que não acredita na construção do Canal do Sertão. ?Faz anos que ouço falar nesse canal e não acredito que isso agora vai aparecer. Só tem promessa. Água que é bom, tá difícil?, diz. O irmão dele, Manoel da Silva, que mora numa casa ao lado, também diz não acreditar no Canal do Sertão. ?Só fazem falar e não dá em nada. Vou morrer e isso não sai do papel?, afirma. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e membro da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag) em Alagoas, José Correia de Souza, 63, diz que foram construídas 150 cisternas no município, principalmente na zona rural. Segundo ele, a Defesa Civil continua levando água para abastecer as casas, o que amenizou a situação. ?Nem mesmo na cidade todos têm acesso à água?, diz. No município de Piranhas encontramos uma espécie de ?procissão? de carros de boi transportando sem-terra em busca de água. Os trabalhadores rurais são do acampamento Margarida Alves, onde 75 famílias vivem. Diariamente eles deixam o lugar para buscar água na rede que abastece parte da cidade. ?Às vezes a gente fica oito, quinze dias sem uma gota d?água. Aí tem que aproveitar quando chega a água pra encher os tonéis. É uma vida difícil. Só Deus pra ajudar?, lamenta Valdenice Gonçalves , 41, mãe de oito filhos. NR ### Mudança no traçado aumenta custos O primeiro estudo para a construção de um canal que pudesse resolver os efeitos da estiagem no sertão de Alagoas e garantir o desenvolvimento econômico da região surgiu em 1978, segundo o engenheiro e consultor Marcos Carnaúba. Neste ano, diz ele, o governo do Estado encomendou ao Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo um levantamento técnico chamado de Aqueduto do Sertão de Alagoas. O projeto visava levar água do Rio São Francisco até Batalha, garantindo a produção leiteira, à época em plena expansão. ?O estudo concluiu pela viabilidade do projeto apontando a captação de água no lago do Moxotó como a melhor das três opções pesquisadas?, lembra o engenheiro. Filho de sertanejo, conhecedor da realidade da região, ele diz que a partir de 1981 passou a se dedicar ao estudo do projeto e percebeu que o canal poderia ser ampliado. ?Durante o governo de Geraldo Bulhões ele me recebeu em audiência, onde demonstrei que a viabilidade do projeto se tornaria maior se o canal fosse desviado pela parte alta do Sertão, indo a Palmeira dos Índios e descendo por Arapiraca, onde existem 80 mil hectares de terra com alto potencial de irrigação?, revela Carnaúba. O governo, segundo ele, endossou a proposta, modificou o traçado e iniciou serviços de terraplanagem nos 21 km iniciais. Em 1995, a obra parou, sendo retomada somente em 2002. A retomada do projeto, no entanto, segundo Carnaúba, veio com mudanças no traçado original. ?Até o Km 101 o projeto é o original. A partir daí, o canal tende novamente à proximidade com a Bacia Leiteira?, diz, ressaltando que isso ocorreu ?por interferência da bancada federal de Alagoas junto à Codevasf?. A mudança, segundo ele, vai resultar em aumento de custo do projeto. NR

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