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�ltimo dos grandes hot�is do Centro n�o resiste e fecha
| REGINA CARVALHO Repórter O último dos grandes hotéis do centro de Maceió fecha suas portas amanhã. O Parque Hotel, localizado na Praça Dom Pedro II, não resistiu aos prejuízos acumulados ao longo dos anos e, como muitos outros, será colocado à venda. Para quem viu toda uma estrutura ser erguida fica a tristeza e aos que convivem com o bairro há muitos anos, nostalgia. Boas lembranças das décadas de 50, 60 e 70 do século passado. ?Com esse fechamento minha sensação é péssima. Vejo nos meus parentes total insensibilidade?, contou Geraldo Gonçalves, um dos proprietários do Parque Hotel e o único entre os seis herdeiros do prédio que não aceita o fechamento. Quase dez grandes hotéis do centro de Maceió não conseguiram superar os obstáculos e decretaram falência. Nesta lista estão o Bela Vista, que hoje abriga o INSS; Atlântico, próximo à Avenida da Paz; Beiriz, onde estão secretarias de Estado; Califórnia, que virou anexo da Câmara Municipal; o tradicional e luxuoso Luxor e o Beira-Mar, onde está atualmente o Tribunal Regional do Trabalho (TRT); além do Palmares e do Jangada. Para o secretário de Turismo de Maceió, Carlos Gatto, instalar hotéis no Centro ou continuar com eles é como ?dar murro em ponta de faca?. Uma situação que parece não poder ser retomada e dificilmente será revertida, principalmente com as opções de hospedagem oferecidas na orla da capital. Novo perfil O secretário fala de forma contundente porque tem experiência no ramo. Sua família construiu o hotel Beiriz, na Rua do Sol, administrado por ele durante 20 anos. ?O fim deles tem pelo menos duas principais causas: o surgimento de shoppings na década de 70, agora uma pessoa pode fazer compras em várias localidades e não apenas no Centro; e outra causa por ser Maceió uma cidade pequena. Mesmo quem vem para cá para trabalhar prefere ficar na praia?, destacou o secretário. Sobre as décadas em que cuidou do Beiriz, Carlos Gatto conta que enfrentou muita dificuldades, mas teve de ser ?frio? no momento de dar ultimato, driblando a resistência de parentes que insistiam em mantê-lo aberto. ?Manter hotéis no Centro é inviável. Todos os grandes foram desativados?, resumiu Carlos Gatto. Patrimônio Proprietário de um buffet, Geraldo Gonçalves confirma a decadência dos grandes hotéis no bairro. No Parque Hotel trabalhavam mais de 40 funcionários, onde hoje estão menos de 10. ?Manter o hotel do jeito que está é impossível. Mas não queria vender um patrimônio erguido com tanto suor?, explicou Gonçalves. Ele lembra da época em que seu avô reuniu esforços para construir o prédio. Mesmo com tantas dificuldades ele conta que ?alimenta? esperança de ver no Centro de hoje a mesma função de muitos anos atrás. ?Por aqui passaram muitos artistas. Conheci os jogadores de futebol Pelé e Garrinha, que se hospedaram no Parque Hotel, nos anos 60. Aqui conheci ainda Roberto Carlos e Paulo Autran. Nossa taxa de ocupação chegava a 150% na década de 60. Aposto que com a revitalização do Centro poderão se instalar novos empreendimentos aqui?, acredita Gonçalves. ### Parque Hotel foi o primeiro do bairro Em 1952, o Parque Hotel começou a ser construído pelo avô de Geraldo Gonçalves, Euclides Gonçalves. Foi o primeiro prédio especificamente erguido para essa finalidade no bairro. Quase na mesma época do Edifício Brêda. ?Do teto do hotel assisti ao impeachment de Muniz Falcão (governador de Alagoas na década de 50). Meu avô comprou as duas casas e ergueu o hotel. Ele foi o centro de decisões políticas por três décadas?, destacou um dos proprietários do Parque Hotel. Uma estrutura de 105 apartamentos, oito estabelecimentos comerciais e seis andares. Com poucos funcionários que restaram, que serão demitidos, e sem previsão de comprador, estão atualmente de 15 a 20 hóspedes no hotel da Praça Dom Pedro II. A gerência resolveu, com o ultimato, deixar de receber mensalistas. ?Nenhum dos proprietários do Parque Hotel vive disso. Todos têm outras atividades, porque manter o hotel do jeito que está é inviável?, completou Geraldo Gonçalves. Com lágrimas nos olhos, Gonçalves clama para que o Parque Hotel não feche as portas. Secretarias No prédio de quatro andares do Hotel Beiriz, da Rua Sol, estão abrigadas as secretarias de Infra-estrutura e de Ciência e Tecnologia, Instituto de Criminalística, Escola do Governo e a Junta Médica. A negociação com a família do secretário municipal de Turismo Carlos Gatto foi feita por intermédio de troca com o governo do Estado. ?Trocamos com um terreno no Farol?, confirmou o secretário. O Beiriz, que era três estrelas, foi fundado em 1957 e desativado em 2004, depois de negociação com o governo do Estado. Segundo Carlos Gatto, existem por volta de oito pequenos hotéis e pensões no centro de Maceió. Entretanto, os grandes foram todos desativados. Ele atesta que é indiscutível que esse tipo de empreendimento é mais viável próximo à praia. Para o arquiteto e urbanista Pedro Cabral, o centro de Maceió está perdendo aos poucos a sua função principal, que é a de comércio. ?O desaparecimento desses hotéis é uma comprovação da morte do Centro, no que se refere a sua função?, declarou Cabral. Ele lembra do Beira-Mar e do Luxor, considerados os mais nobres, e que foram os primeiros a fechar as portas. ?Houve uma redistribuição do comércio pelos bairros e por isso o Centro perdeu sua função comercial. O que concentra mais é a atividade de serviços?diz. Ele destaca que o Comércio ainda sobrevive por causa dos órgãos públicos que foram instalados na área. Sem grandes hotéis, as opções que restaram foram poucas. São prédios que não oferecem muito conforto. O arquiteto ressalta que a requalificação do Comércio não contemplou esse segmento. De acordo com ele, o projeto da Prefeitura de Maceió foi muito tímido. ?É um contraponto. Seria preciso colocar mais estacionamentos no Centro?, ressaltou. |RC ### Decadência começou na década de 80 Na década de 70 do século pasado, considerada o auge desse segmento, foram erguidos o suntuoso Beira-Mar, ícone de hospitalidade durante décadas (que ficava na Praça dos Palmares) e o Luxor (na Praia da Avenida). Entretanto, nos anos 80 os dois fecharam. ?Foi justamente na década de 80 que começou a decadência. Os grandes hotéis começaram a perceber que o Centro não daria certo?, disse o arquiteto Pedro Cabral. Glênio Cedrin, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), informou que a entidade não possui filiados desse segmento no Centro. Ele lembrou que o turismo hoje contempla mais os bairros de Pajuçara, Ponta Verde e Jatiúca. ?Fica no Centro mais o turismo de negócios. São hotéis mais econômicos. Há a tendência que a partir do Centro de Convenções haja construções de hotéis no bairro de Jaraguá e perto do Centro?, disse. Negociação O prédio que abrigou o Hotel Atlântico, comprado pelo comerciante Manoel Simplício de Miranda, na década de 50, ainda não foi vendido. Para os herdeiros, uma possível negociação pode acontecer a qualquer momento. ?Gostaríamos de vender, mas é complicado porque são muitos herdeiros?, contou Zenaide Miranda, filha do comerciante já falecido. De acordo com ela, seu pai tinha carinho pelo prédio, um dos primeiros hotéis a serem erguidos próximo à praia em Maceió, margeando o Riacho Salgadinho. ?Por influência do dono do Parque Hotel, meu pai acabou adquirindo e se apegando ao Atlântico?, revelou Zenaide. Ela conta que o hotel, que funcionou por mais de 50 anos, foi fechado porque não havia como mantê-lo. Com três andares e térreo, a aquisição da área foi feita a partir de negociação com o governo do Estado. ?Ele foi desativado depois da morte do meu pai. Chegamos a tomar conta, mas não tínhamos condições de mantê-lo?, disse Zenaide Miranda. Estudo A professora universitária Regina Coeli, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) realizou, nos anos 90, um estudo sobre os hotéis do centro de Maceió. Na época, segundo ela, a situação já era preocupante, pois dois grandes hotéis tinham fechado as portas. ?Eu acho que isso é um prejuízo. Quando não se fortalece esse tipo de atividade, a cidade acaba perdendo essa linha de atividade econômica?, disse. Segundo ela, sem os hotéis do Centro a rede hoteleira de Maceió, que já é deficitária, pode piorar. ?É lamentável que o Parque Hotel feche. Está num local privilegiado, próximo da Catedral e numa praça importante. É preciso ver o Centro com uma visão de futuro?, afirma. Para ela, o fortalecimento desse setor deve ser motivo de discussões entre vários segmentos e não apenas do poder público. ?Maceió vive do comércio e serviços e não ter essa qualificação hoteleira no Centro, enquanto outras cidades estão tentando colocar residências, pode ocasionar esvaziamento. Isso é um contrasenso?, diz. |RC