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Deficientes come�am a superar barreiras

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FÁTIMA ALMEIDA Repórter Os embaladores Júlio César de Melo, Cristiano Ferreira e Jathniel Xavier conquistaram os três primeiros lugares na seleção dos cinco funcionários que melhor desempenharam suas funções durante o mês de janeiro em um supermercado de Maceió. Na avaliação, são consderados itens como assiduidade, pontualidade, comprometimento, relacionamento com os clientes e com os colegas de trabalho, além de produtividade. A seleção é um fato corriqueiro numa loja de departamentos que trabalha com programas de incentivo aos seus funcionários. Mas para os três escolhidos a conquista tem significado especial. O primeiro é portador de deficiência auditiva e os outros dois são portadores de dirtúrbios mentais. Mais do que o orgulho de terem se destacado, concorrendo com pessoas que não têm limitações físicas, os três ostentam a felicidade de quem se sente útil, trabalha e se sustenta com o próprio salário. Eles são capazes. E bastou uma oportunidade para provar isso a si mesmo, à família e à sociedade. O processo de inserção social dos portadores de deficiência tem conquistado aliados importantes nos últimos anos. Nas escolas, no mercado de trabalho em empresas públicas e privadas, a presença deles já é percebida em proporção crescente. Dados da gerência do Programa de Educação Especial da Secretaria Executiva de Educação (SEED) mostram que o número de matrículas tem aumentado. Já são 4.766 portadores de deficiência atendidos pelas escolas estaduais e municipais em Alagoas. O número de inserção no mercado de trabalho também tem aumentado, na avaliação de vários setores. Segundo a gerente do programa educacional, Joelina Cerqueira, no qüinqüênio de 1999 até 2004 ela conseguiu encaminhar para postos de trabalho 25 portadores de deficiência (uma média de 5 a cada ano). Em 2005 subiu para 19, incluindo os portadores de distúrios mentais, até então totalmente excluídos do mercado de trabalho. E nos dois primeiros meses de 2006, já foram 21 novos cidadãos com carteira assinada. Mas o sonho de cidadania plena ainda tem barreiras fincadas no preconceito e na insensibilidade, que mantêm a maioria dos portadores de deficiência à margem da sociedade. Impulso da Igreja A abertura da Campanha da Fraternidade de 2006 pela Igreja Católica, esta semana, amplia o foco sobre a realidade social e os problemas enfrentados pelos portadores de deficiência, impulsionando, na avaliação de setores da sociedade, as perspectivas de inclusão social. O tema, ?Fraternidade e pessoas com deficiência?, traz como lema uma frase tirada do Evangelho de São Marcos, relatando o momento em que Jesus cura um homem com deficiência na mão: ?Levanta-te, vem para o meio? (Mc 3,3). Com essa campanha, segundo o padre alagoano monsenhor Pedro Teixeira, a Igreja Católica pretende promover atitudes e ações voltadas para a solidariedade humana e a fraternidade cristã em relação às pessoas portadoras de deficiência, criando a consciência sobre as dificuldades por elas vividas e a importância de se buscar soluções de integração social, quer seja por meio de políticas públicas ou iniciativas privadas, favorecendo o reconhecimento aos direitos e à dignidade desses cidadãos. Em texto publicado no site da Campanha da Fraternidade 2006, mantida pela Confederação Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB), a Igreja avalia que ?a palavra de Jesus restitui dignidade àquela pessoa com deficiência?. O texto-base da campanha analisa, à luz dos princípios evangélicos e éticos diversas atitudes pouco fraternas em relação às pessoas com deficiência e aponta ações para maior inclusão social e religiosa. ### Maior batalha é contra a discriminação A expectativa da Igreja Católica e da sociedade é de que a Campanha da Fraternidade 2006 impulsione a tomada de consciência sobre a difícil realidade enfrentada pelas pessoas com deficiência, fazendo desencadear iniciativas de efetiva inclusão. A própria igreja vai ter que adotar medidas que aliem o discurso à prática. Nos cálculos da Associação dos Deficientes Físicos de Alagoas (Adefal), cerca de 90% das igrejas não têm acesso para pessoas com deficiência. ?A escolha desse tema pela CNBB, para a Campanha da Fraternidade, é um grande ganho. Acredito que vai quebrar muitas barreiras e sensibilizar a própria igreja e a sociedade para as dificuldades dos deficientes?, aposta o presidente da Adefal e vereador por Maceió, Gerônimo Ciqueira. De fato, a Igreja ainda precisa trabalhar e absorver o tema e as frentes contra a exclusão, internamente. Entidades como a Adefal e o Conselho Municipal de Dureitos da Pessoa Deficiente não foram chamadas a participar da solenidade de lançamento da Capanha da Fraternidade, em Maceió. ?Não recebemos convite. Acho que esqueceram?, confirma o presidente da Adefal. Mas isso, na sua avaliação, é apenas um detalhe, que não tira o mérito da iniciativa. ?Nós agradecemos e parebenizamos a Igreja por ter escolhido esse tema. Temos certeza de que vai nos ajudar a quebrar tabus e barreiras que tornam a nossa vida mais difícil?, avalia Gerônimo Ciqueira. ?Vai ajudar a criar uma consciência nova sobre o problema e a levar ao público referências sobre a quem procurar, onde procurar, o que fazer quando tem um portador de deficiência na família?, acredita a assistente social Laura Ferreira, da Associação de Amigos e Pais de Pessoas Especiais (AAPPE). Na sua opinião, a maior batalha é contra a discriminação. Barreiras físicas As dificuldades apontadas por Gerônimo Ciqueira estão nas calçadas, no acesso aos prédios, no preconceito que projeta o deficiente como pessoa incapaz e na falta de oportunidades. Na avaliação do presidente da Adefal, a evolução do acesso social vem crescendo, mas está longe do índice desejável. ?A lei estabelece uma cota de 2% a 5% das vagas em empresas com mais de 100 funcionários para pessoas com deficiência, mas são as empresas menores que mais procuram?, diz ele. O maior problema, segundo Gerônimo, é a lei da acessibilidade, que existe há 6 anos em Maceió, mas não é cumprida plenamente. Para dar uma idéia da situação, Gerônimo lembra que na própria Câmara, onde ele está no segundo mandato de vereador, tem que ser levado no colo de alguém até o plenário, porque não há acesso. Ele reconhece que o prédio não oferece condições de colocar rampa ou elevador. ?Só quando comprarem outro prédio?. |FAL ### Falta de qualificação é maior agravante A falta de estrutura dos prédios é uma das maiores barreiras, também, para o mercado de trabalho, sobretudo para os portadores de deficiência que usam cadeira de rodas. ?Já houve uma inserção de 2 mil pessoas no mercado de trabalho de empresas privadas, mas nenhum cadeirante. As empresas empregam deficientes, mas preferem pessoas com mais facilidade de acesso, para não ter que mexer na estrutura do prédio?, diz o presidente da Associação dos Deficientes Físicos de Alagoas (Adefal), Gerônimo Ciqueira. O transporte é outro problema. Segundo ele, a lei prevê que 30% dos ônibus urbanos devem ser adaptados para o acesso dos deficientes. Isso significaria 180 ônibus, considerando uma frota de 600, existente em Maceió. Mas, segundo Gerônimo, apenas nove estão aptos a atender os deficientes. Isso dificulta o atendimento dos portadores de deficiência de alta complexidade, que precisariam se locomover pelo menos três vezes por semana para tratamento. Gerônimo diz que a Adefal tem 200 usuários em tratamento intensivo e, pelo menos, 400 na lista de espera, por causa da dificuldade de transporte. TRANSTORNO mental De acordo com a coordenadora do Programa de Educação Especial da Secretaria Executiva de Educação, Joelina Cerqueira, o principal problema para inserção do portador de deficiência no mercado de trabalho ainda é a qualificação. Isso já foi confirmado, também, pelos órgãos fiscalizadores das relações trabalhistas, como a Procuradoria e a Delegacia Regional do Trabalho, que vêm encampando um processo de conscientização das empresas para contratação dessas pessoas. Ainda segundo Joelina, que também atua, por meio do programa, com inserção no mercado de trabalho, os portadores de transtornos mentais são os que menos têm oportunidades. Pelo menos tinham, até pouco tempo. Já existem empresas investindo nesse seguimento, e do ano passado para cá, pelo menos 21 portadores de transtornos mentais do programa conseguiram emprego, entre eles os embaladores Cristiano e Jathniel, que trabalham em um supermercado de Maceió. O desempenho deles, segundo o coordenador de atendimento do supermercado alagoano, Luiz Barros, estimula novas contratações, independente da cota estabelecida. ?Eles são mais motivados, por descobrirem que podem ser úteis, que são capazes de trabalhar e se sustentar?, destaca. Investimento Essa mudança de percepção vem ocorrendo, também, graças aos avanços educacionais envolvendo os deficientes, segundo avalia Joelina Cerqueira. Ela destaca que desde 1992, a Prefeitura de Maceió começou a investir em educação para pessoas portadoras de deficiência, experiência que foi também adotada pelo governo estadual a partir de 2001. Hoje já são 4.766 atendidos com educação continuada, da pré-escola ao ensino médio, e a procura é crescente a cada ano. Joelina destaca que o empenho do governo federal tem ajudado na inclusão social do portador de deficiência. Segundo ela, cerca de 60 intérpretes e instrutores de Libras (Linguagem Brasileira de Sinais) atuam em salas de aula da rede pública, onde os alunos deficientes acompanham as aulas com os que não portam nenhum tipo de deficiência. FAL ### Programas contribuem para inclusão Segundo Joelina Cerqueira, coordenadora do Programa Especial da Secretaria Executiva de Educação, Alagoas é um dos poucos estados onde a rede está quase toda capacitada, do serviçal ao professor, para atuar com deficientes. Outra boa notícia é a formação de professores em nível de pós-graduação para educação especial, pelo Ibesa. O que falta, na avaliação da educadora, é um interesse maior pelo tema, e isso, na sua opinião, pode evoluir bastante com a Campanha da Fraternidade deflagrada pela Igreja. ?Foi uma idéia fabulosa?, elogia. Obstáculos No mundo inteiro, uma grande parcela das pessoas com deficiência esbarra cotidianamente em barreiras físicas, culturais e sociais que constituem obstáculos a sua vida. A baixa freqüência escolar das crianças com necessidades especiais, por exemplo, é conseqüência, também, da falta de transporte adequado, assim como da escassez de professores treinados; de equipamentos adaptados e de acesso à infra-estrutura de ensino. Segundo o Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2000, no Brasil havia cerca de 27 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência. Esse número corresponde a 14,5% da população. Superação No fim do ano passado, o governo federal anunciou investimento de R$ 1 milhão no Programa Incluir, do Ministério da Educação, para melhorar o cotidiano dos estudantes portadores de deficiência. O programa foi criado para ajudá-los a superar situações de discriminação e prevê ações de conscientização sobre o problema, além de projetos pedagógicos como cursos de extensão para que professores e funcionários atendam melhor os portadores de deficiência. Segundo a coordenadora do programa, Tatiana Grama, 33 universidades de todo o País apresentaram projetos voltados para o atendimento dos estudantes. O Ministério da Educação liberou em dezembro os recursos do Programa Incluir e está acompanhando, por meio de relatórios das universidades, o andamento dos projetos. |FAL

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