Cidades
Nova Ceasa exclui 250 varejistas e abre crise social
| Fátima Almeida Repórter A transferência da Central de Abastecimento de Alagoas (Ceasa) para o Tabuleiro, no fim deste mês, vai deixar à deriva cerca de 250 varejistas que trabalham amparados na estrutura do antigo prédio, no bairro da Levada, e no seu entorno. Eles já sabem que não terão lugar na nova Ceasa e procuram alternativas para a sua sobrevivência. Na última quinta-feira, setores do Estado e do município ligados ao processo de transferência se reuniram com representantes desses comerciantes para discutir a situação. ?Tem gente que atua na Ceasa há mais de 20 anos e não sabe para onde vai, nem o que vai fazer para ganhar a vida?, diz o presidente da Associação dos Comerciantes da Ceasa, Ismar Bonfim. Ele destaca que o projeto inicial da nova Ceasa é muito bom, mas não coube tudo na área que foi desapropriada pelo governo. ?Tiveram que cortar 1/3 do projeto e acho que não vai dar para subir todo mundo agora. As pessoas estão angustiadas, sem saber se vão e como vão se integrar a essa mudança?, comenta. Segundo o presidente do Instituto de Desenvolvimento Rural e de Abastecimento de Alagoas (Ideral), Corintho Campelo, o problema não é este. Ele afirma que há espaço suficiente para todos nas 192 lojas da nova estrutura. Mas ressalta que o critério básico é atuar como atacadista. ?A Central de Abastecimento é um local de vendas no atacado. Não cabe comerciantes varejistas?, justifica. Segundo Corintho, houve um equívoco ao longo dos anos que permitiu que varejistas e atacadistas dividissem espaço na antiga Ceasa. ?O problema é que muita gente tem contrato de atacadista e vende no varejo?, diz ele. Alternativas A situação, no entanto, não se esgota no discurso de quem está certo ou errado. E tanto a associação dos comerciantes quanto os gestores públicos têm clareza da situação social desses comerciantes varejistas. ?É interesse de todos que essa transferência ocorra sem maiores traumas?, diz Corintho Campelo. Isso inclui a participação da prefeitura, que integra a comissão da transferência e estuda a proposta de absorção dos varejistas e a sua acomodação em outros espaços, de acordo com a realidade de cada um. Na reunião de quinta-feira, na Secretaria Municipal da Indústria, Comércio e Agricultura, com a participação do secretário-adjunto Andrei Tenório, discutiu-se a possibilidade de acomodar alguns no Mercado da Produção e outros em feiras livres, nos bairros onde moram. ?Iniciamos entrevistas com os comerciantes, para saber a situação e as pretensões de cada um?, diz Corintho. Segundo Andrei, nada é definitivo neste momento. ?Esse processo de acomodação vai ganhar força após a transferência dos atacadistas para o Tabuleiro?, afirma. ### Clima entre varejistas é de apreensão As entrevistas citadas por Corintho Campelo incluem, também, as situações irregulares. O presidente da associação entregou, na última quinta-feira, uma lista com 88 nomes de comerciantes que, segundo ele, atuam na Ceasa do bairro da Levada e estariam com a situação indefinida em relação à transferência. A relação não inclui os varejistas que atuam no entorno do mercado atacadista e que, segundo a própria associação, somariam cerca de 150 pessoas que não sabem do próprio destino após a mudança. ?Esse pessoal trabalha aqui há muito tempo e o clima é de angústia e incerteza?, diz Ismar. Algumas idéias são discutidas nos corredores. ?Eles poderiam desapropriar uma nova área e separar um espaço para os varejistas?, diz o líder classista. Outra alternativa defendida por eles seria abrir espaço para os varejistas comercializarem seus produtos na nova Ceasa, compartilhando com os atacadistas, nos fins de semana. Falta definição Sobre o futuro, nem mesmo os atacadistas têm certeza. Segundo Ismar, são 14 lanchonetes na antiga Ceasa e na nova só tem espaço para 5. Até agora, também não foi liberada a lista de procedimentos para a adaptação dos comerciantes ao novo espaço. A falta de definição está tirando o sono de comerciantes como Cícero Marques Ferreira, que atua há 26 anos no setor de cereais. ?Não sei como vai ficar. Estou preocupado, temendo ficar sem espaço. Tenho uma vida aqui, cumpro minhas obrigações sem atrasar um dia. Espero ter meu direito assegurado. Para tirar daqui, tem que haver um lugar, senão seremos muitos desempregados?, destaca. Cícero tem cinco familiares adultos trabalhando com ele. Para o permissionário Aguinaldo Bezerra, que atua no ramo de frios, os procedimentos da transferência para o Tabuleiro já deveriam estar definidos, até porque mudança requer despesas, sobretudo para quem, como ele, trabalha com câmaras frigoríficas. Custos ?Existe o custo de instalação. Aqui nós trabalhamos com câmaras de alvenaria. Lá em cima, parece que vai ser modulada. Isso custa uma média de R$ 5 mil por metro quadrado. Imagine quem precisa de 15 metros quadrados. Precisamos de definições para nos preparar?, diz ele. Mais do que isso, na opinião do vice-presidente da associação da classe, José Bonfim Filho, os comercantes precisam saber como será feita a transferência para a nova Central de Abastecimento; se o espaço na nova Ceasa vai ser mais caro; quem vai subir. ?Ninguém fala em incentivo à viabilidade econômica da mudança; em prazo de carência para adaptação do comerciante. Não há um plano. Está tudo meio solto?, destaca. |FAL ### Destino da antiga Ceasa ainda é incerto A princípio, segundo o presidente do Ideral, Corintho Campelo, todos os atacadistas que têm contrato com a Ceasa estão assegurados no novo espaço, desde que exerçam a atividade comercial como tal, e não como varejista. Segundo ele, todos serão procurados para conhecer os critérios. Se forem enquadrados e quiserem subir, terão seu espaço na nova Ceasa. Até mesmo os casos específicos, de alguns grandes comerciantes que necessitam de espaço maior, serão estudados, garantiu Corintho. ?Temos uma consultoria dialogando com cada um. Vamos estudar cada situação e procurar soluções possíveis?, afirma. Shopping Popular O destino da antiga Ceasa também ainda é incerto. Segundo o presidente do Ideral, Corintho Campelo, não foi registrado nenhum indício de disputa de interesse sobre a área, mas existem projetos, desenhados ainda na gestão da ex-prefeita Kátia Born, que apontam para uma parceria entre o Estado e o município que poderia transformar a área em shopping popular para os camelôs ou numa estação de transbordo para o transporte coletivo. Isso incluiria a absorção e o gerenciamento da área, que é do Estado, pelo município. Há poucos dias o vereador Marcus Alves, que foi secretário de Abastecimento do município, colocou o assunto em pauta no Legislativo, ao propor a criação de uma comissão especial na Câmara Municipal, para acompanhar o processo de transferência e fazer um levantamento de todos os projetos existentes para transformação da antiga Ceasa. Ele lembrou que, se for transformada em shopping popular, a área deve abrigar cerca de 10 mil camelôs, inclusive os que hoje estão instalados provisoriamente na Praça da Cadeia, e os que estão indo esta semana para o estacionamento adaptado pela prefeitura, na Praça dos Palmares. ?É um projeto importante, por isso acredito que deve contar com o acompanhamento da Câmara?, destacou ele. A área para onde serão levados, amanhã, cerca de 250 camelôs do Centro, é provisória. Foi alugada pela prefeitura por um período de dois anos a um custo de R$ 16 mil, enquanto se define um local específico para instalá-los, que pode ser a área da Ceasa. A prefeitura trata o assunto com cautela. ?Ainda é muito cedo para falar sobre isso. Nem foi feita a transferência! Só podemos resolver alguma coisa, depois que a área estiver desocupada; depois de discutirmos com o próprio Estado?, pondera o secretário-adjunto Andrei Tenório. Na outra hipótese, que seria a instalação de uma estação de transbordo, a área passaria a receber linhas de ônibus de todos os bairros de Maceió que passam pelo Centro, fazendo conexão, inclusive, com o trem que liga o centro da cidade aos bairros de Bebedouro, Fernão Velho e Rio Novo e aos municípios de Satuba e Rio Largo, passando pelo Mercado. |FAL ### Arquiteto defende corredor cultural Se dependesse da opinião do arquiteto e urbanista Pedro Cabral, o espaço da antiga Ceasa passaria a integrar o circuito de um corredor cultural de Maceió, que passaria pelo começo da Pajuçara, circulando por Jaraguá, Praça Sinimbu, Centro e Mercado. A idéia seria incorporar a feira livre do Mercado nesse circuito, como patrimônio inestimável, transformando-o em local de turismo, como em vários lugares do Brasil e do mundo. A Turquia é um exemplo disso. ?Nesse meu sonho, a feira continuaria lá, com todas as suas características. Mas é preciso investir, pelo menos, em limpeza. Imagine a Feira do Passarinho onde pudéssemos encontrar, além do Galego do Veneno e da correria dos vendedores que expõem suas mercadorias na via férrea, quando ouvem o apito do trem; onde ainda é possível comprar um carrinho de brinquedo, feito com lata de óleo; pudéssemos encontrar também livros, discos, artesanato, apresentação de danças, tudo em um ambiente higienizado!? - diz ele. Paisagem urbana Na visão de Cabral, as mudanças para a nova Ceasa envolvem muito mais do que a transferência dos comerciantes de uma área para outra. Funcionando há 26 anos vizinha ao Mercado da Produção, a Central de Abastecimento foi incorporada à paisagem urbana do bairro da Levada e implantou hábitos na população que vive e que passa nos seus arredores, que podem e devem ser preservados. Ele considera a mudança positiva, sobretudo do ponto de vista da mobilidade urbana. ?Essas centrais de abastecimento devem se localizar na periferia e próximas às principais vias de acesso à cidade, porque atraem um grande fluxo de transportes pesados, que precisam de espaço para suas manobras?. O arquiteto só não tem certeza se as alterações urbanísticas que a nova Ceasa vai levar consigo ao Tabuleiro serão positivas. ?Acho a proximidade com o aeroporto um tanto perigosa, porque um empreendimento desse porte não chega sozinho. Atrai em torno de si uma série de outros serviços e muitas pessoas. Novas construções urbanas e negócios vão surgir, entre elas as granjas, que geram vísceras, atraem pássaros e se tornam uma ameaça para as aeronaves. Além disso, o crescimento urbano ao redor dos aeroportos causa enormes males à saúde da população, por causa do barulho constante dos aviões?, constata ele. |FAL