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“Vai de graxa ou tinta, Mestre Gra�a?”

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| Valmir Calheiros Repórter É alagoano e vive no Agreste um engraxate de 97 anos que é provavelmente o mais antigo nesta profissão, em todo o mundo. José Miguel dos Santos, conhecido na região como ?Zé Anadia?, está entre as figuras populares mais respeitadas e conhecidas de Palmeira dos Índios, desde o tempo de profissional da graxa preferido de ?Mestre Graça?, o autor de Vidas Secas, Graciliano Ramos. Embora tenha se aposentado em 1980, ele continua engraxando, de domingo a domingo, numa barraca de madeira instalada no local do antigo Açougue Público, na Praça da Independência - existente já na Monarquia e transformada numa espécie de ?centro comercial? de Palmeira. Mora na Rua Guedes de Miranda, com a mulher, uma filha casada e alguns dos 15 netos. Completam a família sete filhos e quatro bisnetos. Caixinha a tiracolo ?Seu? José cobra R$ 1 por cada ?sessão de brilho? dada nos pisantes e, por incrível que pareça, há dias em que não fatura ?nenhum centavo para ajudar no pão?. Ele chegou a Palmeira dos Índios ainda ?molequinho, com uns quatro para cinco anos, por aí? e já conduzia, a tiracolo, uma inseparável caixa de mão, vermelha e feita de madeira: a de engraxate. Dentro dela, latas, escovas e outros apetrechos. E ficou. ### Os segredos da longevidade do engraxate O nosso personagem nunca tomou uma injeção sequer. Também jamais fumou nem tomou nenhum tipo de bebida alcoólica, conforme garante. Dorme e acorda cedo. Adora andar a pé pelas ruas da cidade. Parecem ser estes os motivos de sua longevidade, embora ele diga que só está vivo até hoje porque sabe ouvir e calar. ?O senhor sabe como é o engraxate. Ouve o que interessa e o que não interessa. Se eu fosse língua solta, principalmente em assuntos com política no meio, já tinha morrido. Se matam autoridades, gente poderosa, de prestígio, até gente da Igreja, como um franciscano, imagine o que pode acontecer com o coitado de um engraxate!?- diz Zé de Anadia, do alto de sua sabedoria. |VC ### O ?ENGRAXAR? Como surgiu esse ofício? A tradição oral napolitana remete ao ano de 1806 o nascimento do ofício de engraxate, quando um operário poliu as botas de um general francês em sinal de respeito e foi recompensado com uma moeda de ouro. Itinerante ou em local fixo O engraxate itinerante carregava uma caixa contendo verniz, escovas e espanadores. Em sua cobertura havia uma armação de madeira para o apoio, alternado, dos pés. Em local fixo, eles recebiam os clientes em enormes poltronas, quase tronos - eram inclisive cromados com dourado e forrados com veludo vermelho. No Brasil Com a imigração italiana, por volta de 1877 começaram a surgir os primeiros engraxates na cidade de São Paulo. Tinham de dez a 14 anos e percorriam as ruas da manhã até a noite, com suas pequenas caixas de madeira. ### Graciliano Ramos e seus sapatos de bico comprido Zé Anadia conheceu Graciliano Ramos quando ele ainda era um rapazote, com 18 anos. O homem que teria sob a sua autoria um dos mais respeitados conjuntos de romances brasileiros era caixeiro do pai, o ?coronel? Sebastião Ramos de Oliveira, na Loja Sincera. O estabelecimento foi fundado no ano de 1910, logo que o escritor, nascido em Quebrangulo, em 1892, passou a viver em Palmeira dos Índios, após residir em Viçosa e já procedente de Buíque, em Pernambuco. No entanto, a amizade, a admiração e os encontros - que aconteceriam pelo menos uma vez por semana - de seu Zé com o ?Mestre Graça? só viriam a se consolidar a partir do dia em que o contemporâneo autodidata, ?muito instruído e muito bem vestido?, entrou na política e, eleito em 1927, tornou-se prefeito da terra dos xucurus-kariris, no ano de 1928. A julgar pelas recordações de Zé Anadia, enquanto administrou Palmeira - o prefeito não costumava ficar ausente da cidade por mais de uma semana até renunciar ao mandato, em 1930 -, Graciliano Ramos não recorreu a nenhum outro engraxate. ?Ele foi um grande padrinho para mim. Chegava perto e me pedia para limpar os sapatos. Pegava minha caixinha, que sempre estava organizada para essas horas, e ia direto para a casa dele, lá no Pinga-Fogo, se não estou enganado. Eu passava a graxa, a tinta, a escova e o pano e dava aquele brilho?. VC ### Café, almoço e jantar na casa do escritor Zé Anadia não esconde a satisfação quando se trata de falar dele próprio. Principalmente ao dizer que, apesar de Graciliano Ramos ser ?um homem importante, dessas pessoas fechadas de poucas conversas e pão-duro, sempre dava um cruzado a mais da quantia que eu pedia pelo trabalho?. Com esse dinheiro, completava a feira. ?Quase fiquei azul de comer carne. Ele ainda me entregava dois tostões de coroa a fim de que eu comprasse fumo para seu cachimbo. ?Seu? Graciliano me chamava de Zezinho. E nas épocas de eleição, sempre me perguntava: ?Zezinho, vai votar??, mas sem nunca me pedir voto?.|VC ///

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