Cidades
AL longe da independ�ncia financeira
NIVIANE RODRIGUES Repórter Quinhentos anos se passaram desde que as caravelas de Pedro Álvares Cabral avistaram as primeiras terras daquele que viria a se chamar Brasil. Ocupada pelos portugueses, a nova terra viveu séculos de dominação, até alcançar sua independência. Os descobridores deixaram marcas profundas e um modelo de sociedade que ainda hoje predomina em alguns Estados, como Alagoas. Com uma distribuição desigual de renda, concentração de terras e dos espaços urbanos e uma economia baseada na monocultura da cana-de-açúcar, trazida pelos portugueses, Alagoas não conseguiu implantar uma política de desenvolvimento e alcançar sua auto-sustentabilidade. De ex-capitania de Pernambuco, o Estado tornou-se refém dos repasses de recursos federais, que representam mais de 30% do Produto Interno Bruto (PIB) alagoano, ou seja, de toda a riqueza aqui produzida em um ano. ### População cresce, mas AL produz pouco Alagoas concentrou praticamente todo investimento econômico em Maceió, atraindo para a capital a população rural. O ritmo de migração provocou uma explosão na capital, cuja população saltou de 242.987 habitantes, nos anos 60, para 903.464 em 2005, um percentual de crescimento de 30%. ### De coronéis da economia para a política Durante décadas o Nordeste brasileiro viveu sob o chamado regime dos coronéis. Mandava quem tinha mais poder econômico, terras e dinheiro. Eram os coronéis que decidiam os rumos políticos dos Estados e até questões de ordem familiar. Dificilmente alguém ousava desobedecê-los. Eles também detinham o poder de polícia. Com o tempo e as mudanças sociais os coronéis foram se transformando, mas não desapareceram, apenas se ?modernizaram?. ### Assistencialismo vira salvação de pobre Na renda sem produção, como define o economista Cícero Péricles, as políticas sociais e os programas assistenciais de distribuição de renda do governo federal ?transformaram-se em parte constitutiva e fundamental do sistema produtivo local?. Criados para tentar combater a pobreza do País, os programas assistenciais viraram ?receita? de sobrevivência em Alagoas. ### Sem dinheiro federal, cidades param Não é preciso ir muito longe para constatar o quanto Alagoas depende do poder central, em Brasília. Bem pertinho, no município de Rio Largo, a 27 quilômetros de Maceió, os efeitos do dinheiro federal são facilmente sentidos no cotidiano da cidade, que abriga 67.889 habitantes e é considerada um dos maiores municípios da área canavieira, onde estão instaladas duas usinas de açúcar: a Santa Clotilde e a Leão. ### Lira: Lessa teve chance de mudar Alagoas e não o fez Mas afinal o que fazer para mudar o quadro econômico de Alagoas e permitir que o Estado deslanche? Quem responde é o doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), de São Paulo, e professor da Ufal, Fernando Lira. Crítico do governo estadual, ele diz que falta um projeto de desenvolvimento para Alagoas, que passe necessariamente pela diversificação da economia local, fugindo do modelo fixado na agroindústria canavieira e no turismo. O economista avalia que existem pelo menos 27 atividades agrícolas e não-agrícolas que podem fazer a economia estadual deslanchar. ### ?Assistencialismo enterra progresso? Outro fator que ?enterra? o desenvolvimento de Alagoas, na visão do economista Fernando Lira, é a cultura do assistencialismo. ?A tendência do governo Lessa, se o discurso fosse colocado na prática, era entregar a situação de atraso de Alagoas para o passado, mas em vez disso ele simplesmente manteve o assistencialismo cujo efeito para os cidadãos excluídos é o pior possível. O assistencialismo e a concentração de renda criam umadependência tamanha que se o governo federal não mandar dinheiro, morre-se de fome?. ///