Cidades
As duas faces de uma mesma velhice
Bleine Oliveira Repórter Deitada num sofá surrado e malcheiroso em sua casa no bairro do Pinheiro, sem conseguir mexer sequer a cabeça, Maria Emília da Silva, de 67 anos, não tem motivos para comemorar o Dia Nacional do Idoso, na próxima quarta-feira, 27. Portadora de Mal de Parkinson, além da doença a velha senhora é obrigada a enfrentar o abandono a que está submetida, sem reclamações. Acossada pela desunião entre os três filhos, que se agridem mutuamente na disputa pelo controle dos R$ 350 que recebe de beneficio da Previdência Social, dona Emília não tem forças para se defender. Permanece quieta, com os olhos marejados por uma tristeza que não tem como explicar, enquanto duas filhas discutem, uma apontando a outra como responsável pelo abandono da mãe. ### ?Descobri que estou numa maravilhosa etapa da vida? A rotina de Elza começa cedo. Por volta das 7h, ela já está de pé, se organizando para mais um dia de convivência no Espaço Ativo onde além das terapias, faz diversos exercícios físicos. Também mãe de três filhos, ?todos já independentes e cuidando de suas vidas?, Elza chega sorridente para o encontro com o professor de dança Jefferson Manoel, o JF, como ela ressalta. Com ele aprendeu dança de salão e tango, e treina para se manter em forma nas novas apresentações que tem pela frente. Isso mesmo! Prestes a completar 74 anos, Elza se apresenta como dançarina nas festas organizadas pelo grupo de que participa. Agora, está aprendendo dança do ventre. Para tanto, conta com o reforço da hidroterapia, yoga e musculação. ### Atendimento a idoso é precário em AL Os idosos alagoanos somam 238.168 pessoas, o que representa 8,5% da população do Estado. Em Maceió, com 21%, estão 52.800, contra 185.368 nos demais municípios. Como não há dados estatísticos sobre a realidade dos nossos idosos, não se sabe em que condições eles vivem. Ou seja, é dificil mostrar dados objetivos sobre um segmento cuja tendência é crescer a cada ano. ?A falta de informações é um problema sério?, reclama a presidente do Conselho Estadual do Idoso, a assistente social Marta Ferreira, 63. Além de informações, faltam serviços básicos específicos e o combate efetivo à discriminação, ao preconceito e à violência. ### Família tolera idoso apenas pelo salário As condições de vida a que está submetida a senhora Maria Emília da Silva é o exemplo mais duro da realidade do idoso pobre, ou daquele que sobrevive com aposentadoria de um salário mínimo. As dificuldades da falta de dinheiro é agravada pelo abandono da própria família. Cada dia mais fraca, dona Emília come o que é trazido pela solidariedade da vizinhança. Ela reside na casa de número 80, da Rua do Arame, numa localidade conhecida como Borracheira, por trás do conjunto Jardim Acácia, no Farol. A casa não é tão pequena, mas está em condições precárias. ### Municípios alagoanos não possuem Conselho do Idoso Embora o Estado tenha uma população de quase 240 mil idosos, somente três municípios, incluindo a Capital, têm conselho municipal do idoso. Além de Maceió, apenas Rio Largo e, pasmem, Craíbas, instituíram essa entidade, cujo objetivo é propor e fiscalizar políticas públicas que beneficiem os idosos. Um conselho bem estruturado e eficiente agiria, por exemplo, para impedir que situações como a que enfrenta dona Emília se mantenham, ou até mesmo ocorram. O presidente do Conselho Municipal do Idoso de Maceió, psicólogo José Benedito dos Santos, 44, reclama da falta de interação dos órgãos que, por força da própria atividade fim, têm programas destinados ao idoso. ///