Cidades
Na luta contra o analfabetismo
Bleine Oliveira Carla Serqueira Davi Soares Felipe Farias RepórteresNa semana em que o ministro da Educação, Fernando Haddad, estará em Alagoas para lançar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da Educação para o Estado, a Gazeta mostra a realidade do setor. No Estado, onde a riqueza está concentrada nas mãos de 10% da população, mais de 50% dos alagoanos ainda são analfabetos. É a pior taxa do País, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão ligado ao Ministério da Educação. Além do analfabetismo, municípios alagoanos não têm qualidade educacional, segundo pesquisa do governo federal. ### Sem estudo, oportunidades se distanciam Para entender por que Alagoas não consegue alfabetizar seus próprios habitantes, que ainda carregam o pior Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil, é necessário rever capítulos peculiares de sua história econômica e social. O Estado mais leigo do Brasil tem a maior concentração de renda calculada no País. De toda a sua riqueza, metade foi parar nas mãos de apenas 10% de sua população, sendo doze famílias donas da maior fatia. As oportunidades econômicas se distanciam ainda mais da maioria dos alagoanos quando as atenções se voltam para as salas de aula. ### Anos letivos não são concluídos Falta de professores leva Ministério Público a cobrar do Estado a contratação de profissionais para garantir a conclusão de anos letivos acumulados. Próximo passo estará voltado para a qualidade do ensino, que ainda fica a desejar Desde novembro do ano passado investigando as deficiências da educação alagoana, a promotora Cecília Carnaúba, da Fazenda Pública Estadual, entregou no início deste ano ao governador Teotonio Vilela Filho um diagnóstico detalhado sobre a situação dramática da rede estadual de ensino. Vilela, durante posse de 1.200 conselheiros escolares na última semana, reiterou a situação. ### ?Prefeiturização? prejudicou sistema Professor em Alagoas há 30 anos, Milton Canuto, secretário de Legislação da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação e especialista em Plano de Cargo e Carreira, não tem dúvida: a situação só vai melhorar quando houver investimento significativo na qualificação dos alfabetizadores e o governo estadual retomar seu papel de gestor maior entre os 102 municípios alagoanos. ?Na década de 1980, houve incentivo financeiro para a chamada ?prefeiturização? da educação. As prefeituras construíram escolas, mesmo sem saber como iriam mantê-las?, conta ele, ao considerar drástica a falência da gestão municipal das escolas alagoanas. ### Com vontade de aprender Jovens e adultos enfrentam obstáculos da miséria e da violência na periferia e, por meio de programa de alfabetização, realizam sonho considerado até então impossível. ?Aprendi que mente vazia é oficina do diabo. Quando estou estudando estou feliz? É na periferia que a ausência da educação se transforma em miséria e condena crianças e jovens a um futuro carregado de sofrimento e violência. Num prédio da Igreja Católica, no Vergel, três salas foram cedidas ao Projeto Saber, do Estado em parceria com o governo federal, para a alfabetização de jovens e adultos. Foi lá onde a Gazeta encontrou Jônatas Alves de Barros, 20 anos. ### Vencendo barreiras na sala de aula O caso do auxiliar de pedreiro José Cícero de Souza, 35 anos, também é um exemplo de perseverança. ?Doente da cabeça?, como ele definiu, teve dificuldades de aprender a ler e escrever na infância. ?Só consegui falar aos 15 anos. Agora, que estou aprendendo a escrever meu nome, estou conhecendo um mundo novo. A escola é uma terapia. Não tive oportunidade de estudar na infância, mas tenho fé de um dia poder realizar o sonho de ler um livro?. Júlia Maria Santos é uma das alunas mais idosas da alfabetização. ### Enfrentando a violência Meninas que roubam maquiagem e roupas em lojas do Centro, que se prostituem, rapazes envolvidos com drogas, crianças agressivas e com dificuldade de aprendizagem. Essa realidade tem se apresentado em diversas escolas da rede pública, estadual e municipal, em Maceió. É um quadro doloroso, com o qual os educadores têm se deparado no cotidiano de sua função. Os indicadores de violência mostram que o envolvimento de adolescentes em crimes, inclusive de homicídio, tem crescido, sejam eles vítimas ou algozes. Tais índices, e a responsabilidade do governo de garantir segurança pública, fizeram o poder público estadual adotar o Projeto Cidadela. ### Rendimento escolar é o pior Em 2005, o governo federal realizou uma pesquisa para quantificar a qualidade educacional, por meio de um indicador, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Entre os baixos rendimentos escolares detectados em todo o País, Alagoas ocupa a última colocação absoluta no que diz respeito à qualidade de ensino na rede pública, com Idebs de 2,4 para a 1ª fase do ensino fundamental, que vai da 1ª a 4ª série, 2,3 para a 2ª fase, da 5ª a 8ª série. Dos 102 municípios alagoanos, 77 figuram entre os 1.242 com piores Idebs do Brasil relativos a 1ª fase do ensino fundamental da rede municipal de ensino, tomada como referência para priorização dos investimentos na área com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). ### Superlotação impede avanço Em Alagoas, os municípios de Branquinha e Atalaia serão os primeiros e receber consultoria na próxima terça-feira (24). O primeiro fica a 56 km da capital e já ganhou projeção nacional em 2000 por ter registrado o pior índice de analfabetismo, com 63,71% da população acima de 25 anos composta de analfabetos. Atalaia possui território maior que Maceió e a distância entre o centro da cidade e algumas escolas da zona rural chega a até mais de 30 km. ### Sucateadas, mas com estudantes Apesar de serem os primeiros municípios alagoanos a receber a visita dos técnicos do Ministério da Educação (MEC), Branquinha tem o 37º pior Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), com 2,2, e Atalaia o 61º, com 2,5, bem longe das últimas posições, mas não tão distante dos principais problemas comuns à rede pública. ?As escolas estavam sucateadas, faltava quadro, não havia depósitos para a merenda. Nem pia havia para lavar os pratos, que eram lavados em uma bacia. Os alimentos da merenda eram armazenados em um cesto de lixo. Hoje a situação melhorou; reformamos todas as escolas e mais três foram construídas, mas não podemos negar nossas deficiências. Estamos lutando e firmando esse compromisso pela educação por acreditar que há soluções possíveis para o problema?, diz a secretária de Educação de Branquinha, Glauciane Veiga Wanderley. ### Mas nem tudo está perdido Algumas atitudes já postas em prática por Branquinha e Atalaia demonstram o esforço para cumprir com o papel de educar a população. Na última quinta-feira, na Escola Mário Gomes de Barros, em Branquinha, aulas de reforço eram ministradas para crianças das 1ª e 2ª séries, que tiveram baixo rendimento escolar. Entre elas estavam as irmãs Leidiane da Silva, 10, e Roseane da Silva, 9, duas das dez crianças em idade escolar da família Silva. ?Eu gosto de escrever, mas o mais difícil é ler?, confessou Roseane. ### TV e internet no lugar de livros As deficiências na educação em Alagoas não se limitam apenas ao ensino fundamental e médio. O ensino superior também tem problemas. A falta do hábito de ler é um deles. De acordo com levantamento socioeconômico aplicado aos estudantes que participaram do Exame Nacional de Desempenho (Enade) 2006, que substituiu o Provão, 34% lêem no máximo dois livros por ano, além dos exigidos em sala de aula. ### Estações que garantem saber De projetos institucionais, como os que são mantidos pelo Serviço Social do Comércio (Sesc), às programações de grande porte, como a Bienal do Livro, que será realizada em Maceió, em outubro, vale tudo para aumentar o acesso à leitura. As iniciativas que visam aumentar o acesso à leitura, sobretudo na formação de leitores, são tão honrosas quanto isoladas, a exemplo dos que são mantidos pelo Serviço Social do Comércio (Sesc) e da Bienal do Livro, que ocorrerá em outubro. ///