Cidades
Banda e trios p�-de-serra no S�o Jo�o do Espace
FÁTIMA VASCONCELLOS A Banda Oi Nós Aí e vários trios pé-de-serra animam a noite de véspera de São João, hoje, no Espace Maceió, que se transformou em um grande arraial para receber durante as festas juninas os amantes do forró. Além de muita música, vai haver ainda apresentações de quadrilhas no palhoção da vila cenográfica. A programação da maior arena de espetáculos do Nordeste se encerra no dia 29, Dia de São Pedro, com o show da Banda Limão com Mel. Outra atração para os que vão para a maior arena de espetáculos do Nordeste é a vila cenográfica, que dá ao público a sensação de estar passando as festas juninas em um povoado do interior do Estado. Um grande palhoção é a praça da cidade, que tem ainda delegacia, igreja, barracas de comidas típicas, a casa da cartomante e até mesmo o Cabaré da Raimunda. Tradição A museóloga Carmem Lúcia Dantas explica a origem da festa que contagia os alagoanos. Ela esclarece que as festas juninas estão entre os festejos mais característicos da região nordestina, ressaltando que as festas de junho, em homenagem a Santo Antônio, São João e São Pedro, chegaram ao Brasil através da Península Ibérica, notadamente de Portugal, nos tempos coloniais, estendendo-se pelo Império. Aqui, bem se adaptaram aos costumes locais, passando a integrar o calendário das comemorações religiosas. ?Apesar do caráter cristão, as comemorações em torno dos santos de junho assimilaram práticas de origem pagã vinculadas ao culto do sol e da fecundidade. O fogo, que afugenta os maus espíritos, é deus fundador, purificador e conservador?, esclarece Carmem, também professora de História da Arte e da Cultura Popular Brasileira. Segundo ela, a celebração pagã em torno do deus fogo acontecia por ocasião do solstício de verão, ritual praticado no neolítico e seguido pelos egípcios. Os gregos também assimilaram o ritual e os romanos, mais tarde, o repetiram, sempre em comunidades agrárias. Com o domínio do cristianismo, não só em Roma, mas em todo o mundo ocidental, preservou-se a tradição, incorporando-a e adaptando-a aos rituais cristãos, conforme destaca Carmem Lúcia. Ela ressalta que, como esses festejos, ligados à colheita, à fertilidade da terra, à vida agrária, aconteciam no mês em que os católicos passaram a homenagear três santos fortes na devoção popular das comunidades camponesas, a inclusão de elementos pagãos às festas dos santos juninos foi inevitável. ?Dos homenageados, Santo Antônio é o primeiro (13/junho). Goza do prestígio de ser o santo casamenteiro, padroeiro das moças que evocam sua intercessão para conseguir um bom marido, através de trezenas, correntes e adivinhações. Não é por acaso que na véspera de sua devoção se comemora o Dia dos Namorados. Em seguida, vem São João (24/junho), em torno de quem há um folclore rico de lendas e tradições. É o mais louvado dos santos juninos. Primo de Jesus, teve seu nascimento anunciado por uma grande fogueira, conforme sua mãe, Isabel, prometera a Maria?, relata a professora, lembrando ainda São Pedro, santo que encerra as comemorações do mês (29/junho). ?Diz a lenda que ele é o porteiro do céu e homem de confiança do Senhor. Aparece nas histórias populares como personagem astuto, finório, espécie de Pedro Malasarte, com maior dignidade, mas desenvoltura idêntica ao do seu xará, como bem compara Câmara Cascudo, em seu Dicionário do Folclore Brasileiro. É santo festejado pelos marítimos, por ter sido pescador. Além de missa votiva, sua procissão é precedida por um desfile de embarcações e muitos foguetes?, diz Carmem. Atributos Ela frisa que as festas juninas têm nos arraiais e na culinária, nas adivinhações e nas superstições, nos balões e nas bandeirolas, nos fogos e nas fogueiras, nas danças e nas indumentárias típicas os seus principais atributos. O coco, o baião e o arrasta-pé ou forró (corruptela de for all, pois os americanos, que estiveram durante a II Guerra na base militar do Rio Grande do Norte/RN, gostavam muito dessas danças e chamavam todos a participar. Ao chamarem, diziam: for all, ou seja, para todos) são ritmos que caracterizam as festas juninas. ?Os ritmos característicos desse período que animam os arraiais são tocados pelos mais famosos sanfoneiros da redondeza. Mas é, sem dúvida, a quadrilha o ponto alto dos festejos juninos. Sua origem remonta ao século XVIII, na França, com grande repercussão na era napoleônica. Chegou ao Brasil durante o Império, como hábito aristocrático, marcada em francês e executada com esmero nos bailes da corte?, enfatiza a museóloga. Ela lembra, ainda, que na Região Nordeste, nos melhores momentos do ciclo da cana-de-açúcar, a quadrilha era dançada nos salões e nos palanques das casas grandes pela aristocracia rural, enquanto os caboclos, empregados e agregados dançavam o coco no terreiro em torno da grande fogueira armada em frente à casa do dono do engenho. Salões ?Com o passar dos tempos, a dança dos pares marcados desceu as escadas palacianas, perdeu a graciosidade da marcação elegante, sofrendo um processo de popularização. Adaptou-se ao gosto do homem do campo, foi incorporada aos festejos e está presente nos arraiais das cidades nordestinas, com os figurantes estereotipados de roceiros, atendendo a uma marcação franco-caipira. No encerramento da quadrilha, é comum acontecer o casamento roceiro com todo o aparato que o ritual requer. Além dos noivos em traje a rigor, o padre, os pais, os padrinhos e os convidados fazem parte da brincadeira. Apesar das descaracterizações e adaptações comuns à dinâmica do fato social, as festas juninas continuam sendo uma revelação do comportamento popular, examinado à luz dos valores rituais, próprios de uma comunidade agrária?, conclui Carmem.