Cidades
Alagoas tem 90 mil fam�lias morando de gra�a
FÁBIA ASSUMPÇÃO O Censo 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou um dado interessante sobre a situação da moradia em Alagoas. O Estado é o sexto colocado na Região Nordeste no número de imóveis cedidos (ocupados de graça) ou invadidos. O censo aponta para a existência de 649.365 domicílios em todo o Estado, sendo que 473.305 são próprios; 85.224 são alugados; 85.662 são cedidos e 5.174 invadidos. Na região, o Estado com o maior número de domicílios cedidos é o da Bahia, com 272 mil. Alagoas só não ultrapassa no número de domicílios cedidos o Piauí (77 mil); Rio Grande do Norte (68 mil) e Sergipe (35 mil). O IBGE entende como domicílio cedido aquele cujos moradores não pagam para ocupar. São imóveis cedidos por empregadores (particular ou público) ou quando o empregador paga o aluguel para o proprietário do imóvel, sem descontar da folha de pagamento do seu trabalhador. Também é considerado imóvel cedido aquele cujos ocupantes pagam somente as taxas de água, luz e condomínio, ou se comprometem a manter a conservação do imóvel. Outro dado relevante apontado pelo Censo é que em Alagoas 5.174 domicílios têm outra condição de ocupação. Esse é o caso de pessoas que pagam aluguel de imóveis que servem tanto para estabelecimento comercial, como para moradia. Ou de pessoas que têm domicílio em unidades agropecuárias (como fazendas e chácaras). A empregada doméstica Maria Luiza da Silva há dois anos veio para Maceió em busca de emprego. Ela se enquadra bem no perfil de pessoas que residem em domicílios cedidos. Com formação escolar até a quarta série do Ensino Fundamental (antigo primário), ela só teve como opção se empregar como doméstica. Recebendo um salário mínimo, Luzia se considera uma felizarda por não precisar pagar aluguel. ?Como não tenho família em Maceió, moro na dependência de empregada da casa de minha patroa?. Padrão Apesar de ficar nos fundos do apartamento, o quarto de Luzia oferece um padrão melhor do que muitas moradias da periferia da cidade, com direito a banheiro privativo. ?Se tivesse de pagar aluguel, não sobraria dinheiro para enviar a minha família no Interior?. O professor do Departamento de Arquitetura da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Pedro Cabral Oliveira Filho, apresentou uma tese de mestrado, em 1999, intitulada ?Maceió em busca de uma cidade sustentável: uma análise da propriedade imobiliária no ambiente construído?. Objetivo Segundo ele, o objetivo do trabalho foi a identificação de um instrumento urbanístico com vista a transformar a cidade em um espaço onde as qualidades de vida social e ambiental sejam itens prioritários. ?O ponto de partida de nosso trabalho foi a propriedade imobiliária?, explica Pedro. ?Existe um grande número de pessoas que não tem possibilidade de construir sua moradia, e a dificuldade maior para concretizar isso é a questão fundiária?. De acordo com ele, atualmente é grande o número de pessoas que moram em espaços que não são próprios, por falta de opção. ?As invasões acontecem não porque as pessoas sejam desonestas. As pessoas pobres são as mais honestas, só que não têm outra opção e partem para invasões para ter um lugar onde morar?, acrescenta o arquiteto, reforçando que o preço da terra hoje torna inviável o acesso à moradia.