Cidades
Uma Macei� dos exclu�dos
Fátima Almeida Repórter No sinal fechado eles vendem feijão, acerola, limpam o pára-brisa dos carros ou pedem esmolas. No Centro, eles estendem a mão, apresentam uma receita médica surrada, ostentam a mais autêntica cara de abandono, e pedem. Adolescentes, crianças de todas as idades, jovens desempregados, adultos e idosos, explorando a própria miséria ou sendo explorados, são cada vez mais numerosos nas ruas de Maceió. Calcula-se que mais de 500 famílias vivem da mendicância ou de pequenos serviços nos sinais de trânsito ou nas ruas do Centro da cidade. ### Longe de casa, jovens tentam sorte nas ruas Encontramos José Cícero Soares pedindo esmolas num sinal, perto do Mercado. Acha que tem 19 anos. Saiu de casa ?pequenininho, assim ó?, nem se lembra a idade. Mas lembra que fugiu da mãe, que queria matá-lo com um facão. Nunca estudou, não conheceu o pai e nem tem notícia dos irmãos, desde que veio de Joaquim Gomes para viver nas ruas de Maceió. O que fatura na rua, pedindo esmolas ?dá pra comer, mas queria uma casa pra morar?. O colega E. X., 14 anos, admite que tem família, mora na beira da lagoa, mas passa os dias nas ruas. Há muito tempo abandonou a escola. ### Esmola banca tráfico de droga Apesar da miséria absoluta que mantém as cotas altíssimas de exclusão social, a ?ajuda? em forma de esmolas é apontada como um fator de grande repercussão no estímulo à mendicância e ao crescimento da população de rua em Maceió. Segundo o coordenador do Projeto Guardião, em Maceió circulam mais de R$ 120 mil de esmola, dos quais, 70% vão para o tráfico de drogas. ?A sociedade tem que estar alerta. A esmola ajuda a financiar o tráfico de drogas?, alerta César Souza. ### Crianças estão sendo alugadas No trabalho de rua as crianças são maioria e, sem sombra de dúvidas, as mais exploradas. Segundo representantes de instituições que atuam no apoio a pessoas em situação de risco, algumas das que estão nas ruas de Maceió são alugadas para pedir esmolas, por terem um potencial maior de sensibilizar a sociedade expondo a própria miséria. O aluguel, às vezes pago aos próprios pais para ajudar no sustento da família, varia entre R$ 70 e R$ 80 (valores citados pelos conselheiros tutelares). ### Famílias que moram nas ruas de Maceió são de outras cidades Boa parte das pessoas que moram nas ruas de Maceió vieram de outras cidades e até de outros Estados, em busca de melhores condições de vida, mas não conseguiram emprego e acabaram perambulando pelas ruas, sem ter como voltar. Muitos perderam a referência com seu local de origem. A maior demanda vem de Garanhuns (PE), segundo levantamento do Projeto Guardião. Na avaliação do professor César Souza, coordenador do Projeto Guardião, ninguém está na rua porque quer, e boa parte gostaria de trilhar o caminho de volta. ///