Cidades
Moradores entre o medo e o desespero
Carla Serqueira Repórter Iraci Vieira Cavalcante investiu metade da vida na casa de piso vermelho. Ainda jeitosa, hoje, aos 65 anos, já não se empolga com caprichos. Tem só lembranças, boas e ruins. Fala da petisqueira que enfeitava a sala de visitas, da geladeira nova que comprou à prestação depois de anos paquerando uma, do quintal e da lavanderia, onde passava boa parte dos dias, dos quatro filhos que teve no ?lar doce lar?. A casa de piso vermelho, com três décadas de vida de Iraci lá dentro, caiu que nem um bolo de areia em cima de outra casa, cinco anos atrás. Bastaram as primeiras chuvas do inverno e, numa só manhã, seu sonho todo desmoronou. ### Obras devem ficar prontas em 10 anos No último dia 16, uma quarta-feira, o Plano de Redução de Riscos foi apresentado aos técnicos e secretários da prefeitura. As intervenções na estrutura das áreas de maior perigo foram orçadas em R$ 56 milhões, com expectativa para execução das obras ao longo de dez anos. ?É muito importante que este plano seja abraçado por todos os órgãos da prefeitura e, principalmente, pela população que vive nas áreas de risco?, disse o coordenador da Defesa Civil de Maceió, coronel Antônio de Almeida, ao informar que as invasões das áreas de risco continuaram. ?Não temos como fiscalizar. É por isso que precisamos contar com a população que já mora nas encostas e nas grotas?. ### Seis mil famílias vivem em áreas de risco Janete Maria da Conceição costuma passar horas na janela, assistindo o movimento da Grota do Ouro Preto, onde mora há 16 anos, desde que deixou a labuta em lavoura arrendada, na cidade de Chã Preta. Com os quatro filhos e o marido, ela viu mais de meia dúzia de corpos passarem na frente de sua casa, carregados por homens do Corpo de Bombeiros. ?A data daquela tragédia eu nunca esqueci, foi no dia 1º de junho de 2004?, recordou. No inverno que ficou marcado na memória de Janete, seis crianças e dois adultos morreram soterrados, quando o muro de um condomínio deslizou com a água da chuva, em cima de quatro casas na beira do Riacho do Osso. Os corpos de duas crianças permaneceram soterrados por mais de um dia, debaixo de cinco toneladas de entulhos. ### Falta de saneamento piora situação Desacreditado, o jardineiro Manoel Gomes de França, 32 anos, diz só contar com a imprensa. Ele mora ao lado de um córrego, por onde segue a água da chuva escoada da Rua do Arame, no bairro Pinheiro. Há um ano, ele havia comprado material de construção para ampliar a morada de 20 anos que divide com os dois filhos pequenos e a esposa. Teve medo do inverno. Guardou o material. Esperou solução da prefeitura. Ela não apareceu. Manoel desistiu de esperar providência e resolveu arriscar. Fez a reforma e agora reza para não ver suas economias se desmancharem na próxima chuvarada. Tudo que Manoel queria era a construção de uma galeria de esgoto. Ele diz que ratos, baratas e mosquitos infernizam a vida de todo mundo no lugar. Reclama que só ganha atenção em época de eleição. ///