Cidades
Desmanche revela ind�stria milion�ria
Depois de cumprir um dia inteiro de trabalho, o publicitário Ramatis Costa, 30 anos, só pensava em voltar para casa e descansar. Saiu da empresa, perto do Shopping Cidade, por volta das 19 horas. Era abril de 2001. Na rua sem saída, o susto. Seu Uno branco, zero quilômetro, recém-comprado com muito suor, havia sumido. ?A gente pensa que emprestou a alguém, que estacionou em outro lugar, não quer acreditar?. Financiado em 48 meses, tinha pago apenas nove prestações. Três dias depois, um policial avisa que seu carro foi encontrado num canavial em Rio Largo, totalmente depenado. Ramatis correu para ver. Passava das dez horas da noite. ### Promotor não tem dúvida da participação de políticos No interior de Alagoas, a Delegacia de Roubos e Furtos de Veículos contou, no ano passado, 465 veículos levados por bandidos. Média mensal de 38. Este ano, até o último dia 25, já se foram 91. Cada mês, 36. Um por dia. Duas semanas atrás, a cidade de Olho d?Água das Flores, distante 197 quilômetros da capital, entre Santana do Ipanema e Monteirópolis, começou a revelar aos olhos da Justiça um esquema que o promotor Luiz Tenório Oliveira definiu como ?a ponta de um iceberg?. Há indícios até em avícola de mentirinha. Tudo começou há seis meses, quando o promotor estranhou tanto carro desconhecido circulando no pequeno município de pouco mais de 19 mil habitantes. ### Ladrões agem mais no Tabuleiro e Farol O negócio para o ladrão não podia ser mais lucrativo. Seu campo de trabalho é vasto. Em toda a cidade de Maceió ele atua. Para o bote, existem macetes, melhor hora, lugares mais seguros para quem rouba. São as ruas com pouca iluminação, áreas residenciais, portas de faculdade, entradas de clínicas, sinais de trânsito, segundo a Polícia Militar. Quando é um idoso o dono do carro que o bandido precisa, mais fácil fica. Na capital, a ?melhor? prática é assaltar à mão armada. ?O mais comum é roubar para praticar assaltos. Depois o veículo é encontrado?, conta o coordenador do Centro de Operações da Polícia Militar (Copom), major Carlos Luna. ### Ferro-velho usa até laser para apagar número de chassis Outra prática dos bandidos, segundo o delegado Valdir de Carvalho, é clonar a placa, transformar os carros roubados no que a polícia costuma chamar de ?dublês?. Eles pegam o chassi de um carro legal, com documentos legais, vendido pelas vítimas ou seguradoras aos ferros-velhos, depois de uma batida ou após levantamento do que restou de um assalto, e em cima montam outro, todinho feito com peças de outros carros, que podem ter sido roubadas e conseguidas com preços mais em conta. Na maioria das peças não há numeração como no chassi, o ?esqueleto? do veículo, em grande parte o piso do carro. O número que entrega o bandido é igual ao do chassi e geralmente é gravado em vidros, motor e portas. Nas peças menores e na lataria, não há numeração. ### Venda de peças movimenta R$ 100 milhões por ano Um veículo popular, como o Gol, roubado, pode ser adquirido por R$ 1.500 ou R$ 2.000. Uma Hilux, por R$ 3.000 ou R$ 4.000, aproximadamente, segundo a Polícia Civil. A tabela de preços tentadores também exibe peças ilegais, geralmente vendidas bem abaixo do preço praticado no mercado formal. Uma que, original, fabricada pela montadora do veículo, vale R$ 100, é encontrada em ferros-velhos suspeitos por R$ 20. Nas autopeças, que vendem peças legais, de outras fábricas sem ser a do veículo, o preço também cai, chega custar a metade. ///